Empresário persistente no caminho de Abilio

Um homem de esquerda, dono da 61.ª maior fortuna da França, que vê nos emergentes a chave do crescimento do grupo

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2011 | 00h00

PERFIL - Jean-Charles Naouri, diretor presidente do Casino

Um self-made man, verdadeiro fenômeno do mundo dos negócios na França, é a pedra no caminho da possível fusão das operações de Pão de Açúcar e Carrefour no Brasil. Seu nome: Jean-Charles Naouri, 62 anos, diretor-presidente do Grupo Casino.

Filho de um médico francês e de uma professora de inglês, nascido em Bône, na Argélia - então colônia francesa - em 1949, Naouri é uma das personalidades do mundo empresarial mais respeitadas da Europa.

Garoto prodígio, aos 14 anos foi primeiro colocado no país nas provas de latim e grego e tornou-se aluno da École Normale Supérieure, um dos celeiros de talentos do país.

Em um ano, obteve o grau de doutor em Matemática, título que lhe abriu as portas de Harvard e da École Nationale d''Administration (ENA), de onde saem 80% dos mais importantes funcionários públicos e políticos do país.

A formação sólida lhe abriu as portas do mundo da política. Aos 32 anos, tornou-se chefe de gabinete de Pierre Bérégovoy, influente ministro de François Mitterrand, responsável pelas pastas de Relações Sociais e, a seguir, Economia. Neste cargo, foi o autor do chamado "Big Bang", a política de modernização e desregulamentação dos mercados financeiros da França posta em prática entre 1984 e 1986. O paradoxo: Naouri era - e ainda é - um homem de esquerda.

Iniciativa privada. Em 1986, diante de uma derrota eleitoral de Mitterrand, o administrador deixou os bastidores do poder, abandonando a função pública para se dedicar à iniciativa privada. Passou, então, a trabalhar no Banco Rothschild&Cie como sócio-gerente. Ao mesmo tempo, criou um fundo de investimentos, o Euris, que multiplicou seus recursos no intervalo de meses.

Foi este fundo que, em 1991, marcou o ingresso de Naouri no setor supermercadista, por meio da compra de uma pequena rede da Bretanha, a Rallye, então à beira da falência. O ex-garoto prodígio, ex-funcionário público de futuro e investidor experiente compreendeu, então, que o futuro de seus negócios estava no setor supermercadista.

Em 1992, ele propôs a fusão entre Rallye e uma rede mais ambiciosa e de âmbito nacional: Groupe Casino. Seis anos depois, seus instintos se mostraram corretos, e Naouri se tornou o acionista majoritário da empresa, a maior concorrente do gigante Carrefour na França.

À época, ele reafirmou à revista L"Express a intenção de se dedicar ao setor, convertendo seu fundo de investimentos em uma ferramenta para crescer. "Eu construí um grupo industrial, e 90% do nosso tempo é consagrado ao Casino. Euris tornou-se um grupo supermercadista", explicou. Nos anos seguintes, ele construiu um conglomerado de grandes marcas varejistas de diferentes segmentos de público: além do Casino, são suas as marcas Monoprix, Franprix, Leader Price, Prix Gagnant e CDiscount - com a qual se lançou na internet nos anos 90.

Potência lucrativa. Só em março de 2005, entretanto, ao assumir a presidência operacional do Casino, Naouri pôde dar ao grupo o toque que desejava, transformando a épicerie criada em 1892, na cidade de Saint-Etienne, em uma potência internacional lucrativa. Para isso, vendeu as operações na Polônia, nos Estados Unidos, em Taiwan e na Holanda e voltou suas atenções aos países emergentes.

Dessa reorganização, que levou o grupo a concentrar seus investimentos em mercados da América do Sul, como Brasil e Colômbia, e na Ásia, como Vietnã e Tailândia, nasceu o entendimento com Abilio Diniz, entre 2005 e 2006.

Quem desconfia que Naouri não deixará de brigar pelo poder no Pão de Açúcar não está enganado. Em março, na última assembleia geral do Casino, o empresário, hoje dono da 61.ª maior fortuna da França, com ? 630 milhões - crescimento de 39,38% em um ano -, foi muito claro: vai continuar investindo suas fichas no mundo emergente para atingir o objetivo de crescer acima de 10% nos próximos cinco anos.

E, nesse cenário, o Brasil é peça-chave. Além de se orgulhar por ter se transformado, através de sua sociedade no Pão de Açúcar, no maior empregador do País, Naouri também se mostra deslumbrado com o sucesso recente da economia e da política brasileira. "Eu estou impressionado com a qualidade da classe dirigente do Brasil, muito educada, que se compara - às vezes até com mais qualidade - com as elites europeias", disse ele, em entrevista ao jornal Les Echos, em abril. "O Brasil hoje está no padrão da Velha Europa. Mas com vantagens, como o crescimento e os fundamentos extremamente poderosos."

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