Empresários alemães apostam no acordo UE-Mercosul

A classe empresarial alemã defende o acordo de livre comércio Mercosul-União Européia. Os líderes empresariais que visitam o Brasil apelaram ontem a seus colegas brasileiros, no Fórum Econômico Brasil-Alemanha, para que participem mais ativamente do processo negociador. O diretor presidente da Henkel, Klaus Behrens, afirmou que o Brasil tem papel chave na integração da infra-estrutura na América Latina e que o acordo de livre comércio será uma contraposição importante à Área de Livre Comércio das Américas (Alca).Os empresários evitaram falar sobre o principal entrave ao acordo, que é o alto protecionismo agrícola praticado pela União Européia. O fim das barreiras, que existem sobretudo na forma de subsídios aos produtores agrícolas, é fundamental para que o Brasil tente pelo menos equilibrar a balança comercial bilateral. As exportações brasileiras para a Alemanha estão estagnadas em US$ 2,5 bilhões ao ano desde 1999. Já as importações estavam na casa dos US$ 4,8 bilhões em 2001; US$ 4,4 bilhões em 2000 e US$ 4,7 bilhões em 1999. Esse quadro resulta em consecutivos déficits comerciais para o Brasil, em torno de US$ 2 bilhões nos últimos anos. A Alemanha compra do Brasil sobretudo produtos agrícolas, com destaque para café e oleaginosas; e matéria-prima, que compõem 58% da pauta. Já o Brasil importa máquinas, material de transporte, produtos eletroeletrônicos, químicos manufaturados e produtos industriais acabados ReformasOs 25 empresários da comitiva do chanceler alemão, Gerhard Schroder, querem tirar mais da visita de dois dias ao País do que o simples fechamento de novos negócios. De olho em oportunidades principalmente nas áreas de telecomunicações e energia, eles estão no Brasil também para mostrar ao governo brasileiro que um novo fluxo de investimentos diretos alemães dependerá mais de Brasília do que de Berlim."É claro que a economia brasileira deixou de ser aquele io-iô do fim dos anos 80 e início dos anos 90, mas ainda há sérios problemas nas áreas tributária, de propriedade intelectual, de direitos de transferência e de proteção a investimentos, que precisam ser resolvidos porque dificultam os investimentos. Esses temas são centrais na pauta de discussão com o presidente Fernando Henrique Cardoso", disse o empresário Michael Rogowski, presidente da Federação das Indústrias da Alemanha, em referência ao encontro que Schroder terá hoje em Brasília com Fernando Henrique.Rogowski participou, ao lado do ministro da Economia, Werner Muller, do Fórum Econômico Brasil-Alemanha e levantou dúvidas sobre se o programa Avança Brasil, do governo federal, vai mermo sair do papel. "Será que esse plano de US$ 1 bilhão se realizará de fato?"- perguntou à platéia. A Alemanha vê o setor de infra-estrutura como forte candidato a novos investimentos no País. Muller, por sua vez, reiterou que o fato de o Brasil não ter ainda ratificado o Acordo para a Promoção e Proteção Recíproca de Investimentos, de 21 de setembro de 1995, é um dos maiores entraves ao aumento dos investimentos alemães no Brasil, sobretudo para as empresas de médio porte.O presidente da DaimlerChrysler do Brasil, Ben van Schaik, também foi categórico. Disse que o País tem tudo para ser uma plataforma exportadora para subsidiárias de empresas alemãs, mas cobrou do governo a realização das reformas tributária e política. "Estamos em compasso de espera, acompanhando o tema com muito interesse. Para nós, o ideal é importar e exportar no mesmo patamar, mas nas atuais condições, é difícil", disse. Ele ressaltou, entretanto, que o Brasil tem qualidades que o tornam capazes de ser um grande exportador: "Há petróleo, minérios, mão-de-obra fantástica, um ótimo agronegócio e boas condições para a indústria. Só falta acertar alguns pontos fundamentais, como as reformas", avaliou o empresário.Ingo Ploger, presidente da Câmara de Indústria e Comércio Brasil-Alemanha e principal executivo da Melpaper, afirmou que o governo precisa levar adiante os planos de reforma política, tributária e da Previdência. "A situação do Brasil é sólida, com fundamentos bastante satisfatórios, mas os empresários aguardam ações capazes de atrair investimentos", afirmou.Fora da Alemanha, o Brasil é o país que concentra maior número de empresas alemãs. São 1,2 mil, 800 delas no Estado de São Paulo. Até o início da década de 90, a Alemanha era o segundo maior investidor direto no Brasil, com 17% do estoque, atrás apenas dos Estados Unidos. Da metade da década de 90 até hoje, a participação alemã caiu para 7% do estoque de investimentos diretos no Brasil, para US$ 17,7 bilhões. "Com essa visita, os empresários e o governo alemães puderam verificar como foi grande o distanciamento do investimento alemão no Brasil", disse Hermann Wever, ex-presidente e atual membro do Conselho da Siemens do Brasil.?Economia atraente?O empresário, um dos mais representativos do setor privado alemão no Brasil, considera o momento extremamente positivo para os alemães voltarem a olhar o Brasil, porque a economia "como um todo está atraente". Ele lembrou aos empresários que o déficit comercial do setor eletroeletrônico (pouco menos de US$ 10 bilhões) revela as ótimas oportunidades para investimentos industriais que permitam a substituição das importações. Ele explicou que a Alemanha esteve, nos últimos anos, muito envolvida em investir na ex-Alemanha Oriental e nos países do Leste Europeu, sua área de influência. "Agora, eles voltam a olhar para o Brasil, um país mais moderno, competitivo e bastante atraente. Eles estão impressionados", disse.

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