Empresários chegam a Glasgow com intenção de influenciar debates

Empresários chegam a Glasgow com intenção de influenciar debates

Depois de pressionar o governo a mudar sua política ambiental, líderes de empresas se envolvem diretamente em conferência da ONU

Bruno Vilas Bôas, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2021 | 05h00

Após pressionar o governo nos últimos meses pedindo protagonismo ao País nas negociações climáticas, o empresariado brasileiro começa hoje uma extensa agenda de reuniões, seminários e apresentação de compromissos na 26.ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26), em Glasgow, na Escócia. CEOs e executivos da área de sustentabilidade de grandes empresas seguem receosos com a imagem do País, mas dispostos a influenciar decisões e contribuir no debate.

Um dos líderes do movimento empresarial, Walter Schalka, presidente da Suzano (faturamento anual de R$ 30 bilhões), afirma que a COP26 não é um evento corporativo, mas de transformação. “O mais importante é trabalhar para termos metas ambientais mais ambiciosas e de mais curto prazo, além de buscar a forma de financiar isso, o que passa pela criação do mercado de carbono global”, afirma ele, que é membro da Coalizão Brasil Clima, Floresta e Agricultura.

O executivo tem a aspiração de influenciar as decisões durante o evento, em contato com chefes de Estado e diplomatas. Ele afirma que são positivas as conversas com o ministro Joaquim Leite (Meio Ambiente), mas cobra um posicionamento sobre o desmatamento ilegal na conferência. “O Brasil precisa assumir posições de reversão da curva de desmatamento, apresentando ações. Sem isso, vai ficar fragilizado.”

Negócio.

Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), que reúne 80 grupos responsáveis por quase metade do PIB brasileiro, lembra que as empresas implementam, na prática, os acordos que os países fazem, por meio de mudanças em seu modelo de negócio, produtos e serviços. “O sucesso de uma boa negociação tem de ser ouvido também pelas empresas.”

As empresas que desembarcam em Glasgow também querem mostrar seus compromissos ambientais, apresentar casos bem-sucedidos em sustentabilidade e participar dos muitos eventos programados para as duas semanas de conferência -- inclusive, das reuniões laterais que acontecem em hotéis e espaços espalhados pela cidade.

Diretor de desenvolvimento sustentável da Braskem, Jorge Soto diz que a empresa vai levar ao evento seu biopolietileno, produto desenvolvido a partir da cana-de-açúcar. Ele conta que a companhia costuma ser questionada por clientes sobre desmatamento. “Temos códigos de conduta e controle sobre a cadeia de etanol. Independentemente da situação do governo, temos de sempre colocar o que estamos fazendo.”

Por fazer parte de um grupo formado pelo governo britânico, chamado Business Leaders da COP26, a Klabin chega ao evento em posição privilegiada. A empresa quer participar ativamente de debates e espera ver, ao fim do encontro, propostas de mudança da matriz energética global. Já a Bayer espera avanços no Artigo 6 do Acordo de Paris e na regulação do mercado do carbono, afirma o diretor de Sustentabilidade para a América Latina, Eduardo Bastos.

A presença empresarial brasileira só não será maior pela dificuldade de credenciamento e estadia. Os organizadores da COP26 esperam receber 25 mil pessoas, mas a cidade tem 15 mil quartos de hotel. O Bradesco, por exemplo, conseguiu uma credencial e seu representante ficou hospedado em Edimburgo, a 1 hora de trem de Glasgow. Em parceria com outros bancos, o Bradesco tem liderado medidas de desenvolvimento sustentável na Amazônia.

Já a Vale enviou três executivos para a COP26, que vão se alternar durante dez dias em 30 eventos previstos, conta Maria Luiza Paiva, diretora de Sustentabilidade. Um dos mais importantes será o evento com o setor siderúrgico, principal cliente da mineradora. “Queremos compartilhar o que estamos fazendo e identificar oportunidades de parcerias.” 

 

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‘As empresas também serão cobradas pelos consumidores’

Para o presidente da Natura, Roberto Marques, o governo pode e deve fazer mais, ao passo que o setor privado também tem responsabilidade de atuar de forma colaborativa com o governo.

Bruno Vilas Bôas e Mônica Ciarelli, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2021 | 05h00

CEO da Natura & Co, Roberto Marques afirma que o governo “pode e deve fazer mais”, mas que o setor privado também deve assumir responsabilidades e atuar de forma colaborativa.

O empresariado fez cartas pedindo protagonismo ao Brasil na COP. O governo caminha nessa direção? 

O governo pode e deve fazer mais. O setor privado também tem responsabilidade de atuar de forma colaborativa com o governo. Temos dois aspectos fundamentais. O primeiro é a regulamentação do mercado de carbono. Não existe clareza, hoje, de como funcionaria esse mercado, como países e empresas seriam compensados por atingimento de metas. O segundo ponto é que existe interdependência da agenda de descarbonização com a reversão de desmatamento e preservação de florestas. Temos condição de ser protagonistas nessa agenda.

Como o País pode apresentar ações sobre o desmatamento ilegal?

Há várias propostas colocadas, como maior investimento no monitoramento desses desmatamentos ilegais. Existem subsídios que precisam ser retirados para atividades que geram desmatamentos. Ao mesmo tempo, é preciso reverter investimentos para atividades e setores que busquem regeneração. É algo absolutamente possível.

O que a empresa vai apresentar de novo na COP?

Temos parceria com a Waterbear, plataforma de streaming de vídeos relacionados ao meio ambiente com credibilidade imensa. Assinamos parcerias com eles em várias geografias do mundo, e a Waterbear vai passar a operar no Brasil. Durante a COP26, vamos fazer o pré-lançamento do primeiro filme com eles, relacionado à Amazônia. 

O tema ambiental estará mais presente na eleição de 2022?

O tema do meio ambiente não tem plano B, então, não há como não estar. Inclusive pelo tempo que temos para reverter tendências que não são positivas. Empresas também serão cobradas pelos seus consumidores. É um caminho sem volta.

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