REUTERS/Mario Valdez
REUTERS/Mario Valdez

Empresários cobram condução menos 'politizada' do Mercosul

Há entendimento de que é necessária uma visão mais pragmática do bloco, bem como o fortalecimento institucional e maior integração com comércio global

Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2016 | 20h24

SÃO PAULO - Empresários, dirigentes de entidades setoriais e especialistas em relações internacionais defenderam durante debate realizado hoje na capital paulista uma visão menos ideológica e mais pragmática na condução do Mercosul, bem como o fortalecimento institucional e a maior integração do bloco no comércio global.

Há entendimento de que a sintonia política dos governos do Brasil e da Argentina abriu uma perspectiva positiva sobre a coordenação entre as duas maiores economias do bloco e o avanço numa "agenda mais produtiva". Nesse sentido, as visitas do presidente Mauricio Macri ao Brasil - ainda antes de sua chegada à Casa Rosada - e do ministro das Relações Exteriores, José Serra, a Buenos Aires são encaradas como um sinal de que haverá empenho dos dois países em reforçar o bloco.

O problema, porém, é que ambos enfrentam crises domésticas. Com isso, a pressão interna para defender interesses nacionais será grande nos dois lados da fronteira, ponderou Agustin Lopez Casella, diretor da fabricante de pressurizadores Rowa, durante participação no debate, organizado pela Câmara de Comércio Argentino Brasileira. "Mas tenho percepção de que esses governos são mais pragmáticos e menos ideológicos", comentou o executivo.

Ao falar pela indústria têxtil, o superintendente de políticas industriais da Abit, Renato Smirne Jardim, avaliou que chegou o momento de o Mercosul decidir se quer avançar como uma união aduaneira com tarifa externa comum, o que implica negociar sempre em bloco, ou partir a um modelo de livre-comércio das grandes alianças comerciais em formação no mundo, caso do Tratado Transpacífico, onde há maior autonomia nas políticas comerciais. "Uma união aduaneira não necessariamente corresponde a um processo de integração tão amplo quanto uma zona de livre-comércio."

Apesar das insatisfações sobre a condução da organização, o embaixador Regis Arslanian, ex-representante do Brasil no Mercosul, fez uma observação sobre os riscos de a iniciativa privada cobrar dos governos alterações profundas no bloco. "Não devemos insistir numa reforma do Mercosul. Se os governos entrarem numa discussão de reformas, vamos abrir uma 'caixa da Pandora' e ficar negociando por dez anos algo que não vai chegar a lugar nenhum", afirmou Arslanian, agora sócio da GO Associados.

Para o embaixador, mais do que reformas, o Mercosul, a exemplo dos tratados comerciais modernos, precisa abandonar o modelo de negociação baseado apenas em tarifas. "Mais importante do que as tarifas são as regras. Se você quiser estabelecer parceria com uma empresa japonesa, por exemplo, em primeiro lugar é preciso ter ambiente de regras convergentes. Hoje, processos negociadores dão, primeiro, prioridade a regras, como regras de compras governamentais, de propriedade intelectual e de políticas de concorrência. Ainda trabalhamos muito sobre a base de acesso ao mercado", assinalou Arslanian.

Antidumping. Para criticar a falta de alinhamento dos países na defesa comercial, representantes dos setores têxtil e de produtos eletrônicos que participaram do debate reclamaram de processos antidumping que correm ou foram aprovados na Argentina contra produtos brasileiros. "O fato é que, se existe mercado comum, como é a ideia original do Mercosul, não deveria haver processos antidumping intrabloco. Deveria haver políticas de controle da concorrência", defendeu Mario Roberto Branco, assessor de comércio exterior da Abinee, associação que abriga os fabricantes de eletroeletrônicos. 

Para ele, o Mercosul sofre com a politização do comércio que produziu, entre outros resultados, a entrada da Venezuela, impedida ontem de assumir a presidência da organização por não ter cumprido compromissos assumidos. Brasil e Argentina, junto com o Paraguai, acusam o governo de Nicolás Maduro de não respeitar regras de democracia e de direitos humanos. Se não cumprir os compromissos pactuados há quatro anos, quando entrou no Mercosul, a Venezuela será afastada do grupo, como já aconteceu com o Paraguai em 2012, após a destituição do ex-presidente Fernando Lugo num processo de impeachment.

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