Empresários foram convidados a 'nadar' junto com o governo

Cenário: Beatriz Abreu

O Estado de S.Paulo

23 de março de 2012 | 03h04

A reunião da presidente Dilma Rousseff com um grupo de empresários e banqueiros pode ser interpretada como o popular "abraço do afogado". Dilma fez um convite aos executivos para que nadem juntos com o governo e a favor da maré porque se um tentar se segurar no outro, todos vão afundar. A presidente estava calma, deu o tom necessário à conversa, mas aqui e ali pontuou a necessidade de os empresários fazerem a parte deles no jogo e investir.

"O governo sozinho não faz verão. É preciso o esforço do empresariado", disse a presidente. Os empresários citaram oportunidade de investimentos, mas pediram ao governo maior agressividade e agilidade na redução da carga tributária e nas medidas contra a valorização do real.

Os impostos e a questão cambial foram apontados como as maiores dificuldades do setor produtivo. O banqueiro André Esteves (BTG Pactual) disse que o câmbio "é uma situação aflitiva, mas é conjuntural, temporária". "O problema estrutural é a carga tributária."

Sob o olhar atento de Dilma e dos ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, ele propôs que o governo estabeleça um plano de longo prazo de redução da carga de impostos de forma linear e não setorial. Para André Esteves, nos próximos anos, com a queda dos juros, será possível abrir uma janela de redução tributária num processo de longo prazo.

Mantega lembrou aos empresários que as desonerações estão sendo adotadas pelo governo desde 2009, mas o ritmo de implantação das medidas pode não coincidir com o desejo do setor privado. "A carga está caindo. Pode não ser na mesma velocidade desejada", comentou. Ele explicou que não é simples apressar a redução dos tributos porque não há como se editar medidas isoladas. "Há limitações que não permitem que seja no ritmo que todos querem", insistiu. "Estamos na mesma direção. A diferença é o ritmo."

Durante a reunião não se usou a palavra desindustrialização, mas o cenário tanto do governo quanto dos empresários considera, sim, que a indústria brasileira perdeu competitividade. A diferença, mais uma vez, é de ritmo. De uma maneira geral, o discurso dos empresários foi o mesmo: o governo deveria ser mais agressivo na desoneração e redução da carga tributária, o que poderia ajudar - e muito - na barreira da valorização do real. O empresário Jorge Gerdau disse que, se o governo eliminasse a cumulatividade de impostos, o efeito na indústria seria como se a taxa de câmbio estivesse em R$ 2,10.

"Estamos trabalhando com o câmbio razoável", disse Mantega. Ele afirmou que o governo será mais agressivo para evitar a valorização do real, e que a preocupação do governo é cada vez mais "depurar" os danos colaterais provocados pelas medidas. Dilma comentou que novos estudos estão sendo feitos para destravar o setor industrial e atenuar os efeitos do câmbio valorizado e prometeu anunciar as medidas após seu retorno da viagem à Índia.

Dilma falou sobre a crise internacional e seus efeitos no Brasil, insistindo na recessão mundial. Disse aos executivos que, na sua avaliação, o governo chinês pode antecipar o ajuste de sua economia, adaptando-se a um período de demanda mundial menor. "Eles vão se preparar para essa situação mais cedo", disse. Para ela, a questão cambial é resultante da falta de um ajuste fiscal da Europa. Países estão tentando uma solução monetária (injetando dinheiro na economia), enquanto os produtos europeus e chineses estão "inundando" o mercado brasileiro.

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