Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Empresários não são contra nem a favor de Bolsonaro. São pragmáticos; leia análise

Jantar do presidente foi ação de marketing para tentar mostrar apoio dos donos do dinheiro; mas só fazer promessas não garante apoio algum

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2021 | 11h22

O presidente Jair Bolsonaro tem sido constantemente criticado nos bastidores por empresários e executivos por sua postura frente à pandemia da covid-19, seu descaso com a vacinação, suas críticas ao isolamento social e ao uso de máscaras. Está claro, para todos eles, que, quanto maior a demora no controle da pandemia, mais difícil será a economia se recuperar. O presidente, porém, foi aplaudido por empresários em um jantar na noite de quarta-feira, 7, em São Paulo – ‘ovacionado’, nas palavras de um dos presentes – ao dizer que aceleraria a vacinação. Também voltou a se comprometer com as reformas.

Há uma diferença na postura pública e na postura privada dos empresários? Não muita. Empresários não são, a princípio, nem contra nem a favor de Bolsonaro. São pragmáticos, e sabem da importância, no Brasil, do papel do governo na economia. Têm, claro,  a percepção de que é muito difícil – senão impossível - que qualquer reforma saia ou que a vacinação seja acelerada, mas expectativas também movem a economia. Se o presidente promete algo positivo, o cenário melhora. Mesmo sendo o presidente Bolsonaro, que costuma dizer uma coisa num dia e desdizê-la nesse mesmo dia. 

O jantar da quarta-feira transcorreu num clima de cordialidade, segundo os presentes. Mas não era de se esperar outra coisa. A lista de convidados passou pelo crivo do Palácio do Planalto, e não foram chamados empresários que têm sido mais enfáticos nas críticas às políticas do governo, principalmente no que se refere ao controle da pandemia, como Luiza Trajano, do Magazine Luiza. Os que assinaram a carta dos economistas cobrando mudanças também ficaram de fora.

E seria difícil imaginar, de qualquer forma, que um empresário fosse fazer em público alguma cobrança mais firme a um presidente da República. Há meios mais eficientes de se passar a mensagem. Como, por exemplo, se aliar aos presidentes da Câmara e do Senado numa tentativa de “enquadrar” Bolsonaro, como vem sendo feito.

O jantar do presidente com um pedaço importante do PIB, aliás, veio logo depois de esse mesmo PIB jantar com Arthur Lira, o presidente da Câmara, e Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, e cobrar, por exemplo, a cabeça do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo – que foi entregue. 

Tem muito de marketing nesse movimento de Bolsonaro. Ele tenta mostrar que os donos do dinheiro, que estiveram majoritariamente com ele em 2018, não o abandonaram.  Mas não dá para dizer que os presentes ao jantar representam efetivamente o PIB, dado o perfil do encontro . Nada mudou entre o jantar com Lira e Pacheco e o jantar com o presidente. 

Que Bolsonaro não se engane. O objetivo final do empresário é o lucro, é para isso que todos trabalham. E é muito mais difícil lucrar com um país com desemprego em alta, população empobrecida – e pior, morrendo por falta de vacinas -, com uma economia estagnada (que não consegue se livrar dos efeitos da recessão de 2015/2016), sem reformas estruturais importantes. Se ele não consegue resolver isso, pode esquecer o apoio. Se a disputa que se configura na eleição de 2022 é mesmo entre Bolsonaro e Lula, os empresários, ressabiados,  já se movimentam em busca de uma terceira via. Mas, se tudo continuar como está, já não descartam a segunda via.

*EDITOR DE ECONOMIA 

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