Empresários querem liberação do câmbio para ajudar a indústria

Industriais questionam comentário de Joaquim Levy, que minimizou o papel do câmbio na competitividade

CARLA ARAÚJO , FRANCISCO CARLOS DE ASSIS, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2015 | 02h05

As considerações do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, minimizando o papel do câmbio na competitividade da indústria também soaram como desafinadas aos ouvidos dos representantes do setor.

Na sexta-feira da semana passada, enquanto falava a uma plateia de cerca de 500 investidores e clientes do Grupo Bradesco, o ministro disse que a indústria não deve ficar esperando "mágicas e auxílios" do governo na área do câmbio. Disse que o câmbio é uma variável de difícil controle e que não há no governo intenção de usar o câmbio para ajudar a indústria. Segundo o ministro, a indústria deve se renovar, investir, resgatar o "espírito animal" e disputar mercados no exterior.

Para o presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, diferentemente do que disse Levy na palestra do Bradesco, o câmbio não é uma variável totalmente flutuante no Brasil.

"O Banco Central continua fazendo leilões diários para interferir no câmbio. Por que ele não libera de verdade a moeda?", questionou. "Libera para eu trazer bancos de fora, acabar com o monopólio. Libera o câmbio e diminui a carga tributária e aí com certeza a competitividade vai aumentar", retrucou.

Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, olhando do ponto de vista da indústria, o câmbio tem de ser um elemento que proporcione condições de competitividade à indústria, sem manobras artificiais, mas considerando que se ajuste à realidade e aos fundamentos da própria economia.

"Ninguém aqui defende que o único elemento da competitividade da indústria é o câmbio", disse o ministro no início da semana, após encontro com representantes da indústria na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)."O que nós desejamos é que, sem artificialismo, o câmbio possa estar colocado de forma a preservar esse patrimônio do País, que é a indústria", disse.

Sem mágica. Presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o empresário Humberto Barbato afirmou que, pelo menos no seu setor, não se espera nenhuma mágica do governo "até porque o Levy e nenhum governo faz mágicas". Ele avalia que boa parte do problema da competitividade da indústria é câmbio e outra parte é a burocracia, a questão regulatória "infernal".

Segundo ele, o câmbio representa 40% da perda de competitividade da indústria. O resto fica por conta do custo de se produzir no Brasil e exportar.

Para o diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp (Decomtec), José Ricardo Roriz Coelho, a declaração de Levy sobre o resgate do "espírito animal" dos empresários "é inadequada" para os tempos modernos. "Há cem anos o empresário era movido por feeling, pelo instinto. Hoje o empresário de sucesso é movido por decisões racionais."

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