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‘Empresários têm de se unir para destravar economia’

Para Galló, líderes do setor privado no País devem formar frente para impulsionar medidas econômicas na Câmara

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2015 | 03h00

Há 16 anos no comando de uma das poucas empresas que ainda mostram crescimento vigoroso neste momento de crise, o presidente da Renner, José Galló, afirma que está na hora de a classe empresarial assumir parte da responsabilidade de tirar o País da crise, negociando medidas diretamente com o Congresso Nacional. “Onde está o protagonismo da classe empresarial?”, questiona. “É a hora dos grandes empresários deste País – Jorge Gerdau, Roberto Setubal, Rubens Ometto, Abilio Diniz, entre vários outros – fazerem uma frente em busca do destravamento da economia.”

Enquanto os líderes do setor privado não se mexem, diz Galló, a economia segue refém do embate político entre governo federal e Congresso Nacional. E o ajuste fiscal, considerado vital para a superação da crise, não sai do papel. “O ajuste é imprescindível. Parece-me que só tem uma pessoa falando isso hoje, que é o ministro Joaquim Levy (Fazenda). Uma eventual queda do ministro Levy será equivalente ao downgrade (rebaixamento de nota) do Brasil.”

Para o presidente da Renner, está na hora de os políticos abandonarem as agendas pessoais e o apego aos cargos para prestar atenção na economia real, que sofre com a falta de confiança de empresários e consumidores. “Será que a classe política está pensando no Brasil daqui a dois ou três anos ou na eleição daqui a dois ou três anos? Tem uma grande diferença. Esses políticos devem ter filhos, família, netos. Qual é o País que eles estão projetando para sua família?”.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista de Galló ao Estado.

Qual é a natureza, em sua opinião, da crise atual?

Eu acho que ninguém tem dúvida de que 60% ou 70% desta crise econômica podem ser creditados à crise política. Basta ler os grandes jornais para ter certeza disso. O fato de a crise ser política gera uma insegurança muito grande nos empresários e consumidores. O consumidor compra menos e, por consequência, produz-se menos e financia-se menos. Todo o sistema econômico é afetado. Acho que tem de acontecer alguma coisa para mudar isso no curto prazo.

Há seis meses, o sr. falou ao ‘Estado’ sobre a necessidade do ajuste fiscal. Agora, ainda se fala do mesmo assunto.

Exatamente. O ajuste fiscal é imprescindível, extremamente necessário. Parece-me que só tem uma pessoa falando isso hoje, que é o ministro Joaquim Levy (Fazenda). A sensação que se tem é que ele é o único defensor real, com ênfase, do ajuste. De todos os lados, o ajuste é questionado, atacado. As pessoas talvez não se deem conta que uma eventual queda do ministro Levy será equivalente ao downgrade (rebaixamento de nota) do Brasil. Será equivalente à mesma irresponsabilidade que foi mandar um orçamento deficitário para o Congresso Nacional, que provocou todo aquele estrago. Eu não acho que uma eventual saída do ministro Levy já esteja precificada.

E qual será a ‘cara’ deste ajuste fiscal?

Eu acho que é necessário mostrar a importância do ajuste fiscal, mas com mais ênfase na redução de despesas do que no aumento de impostos.

Mas dá para fazer o ajuste sem aumento de impostos? O próprio ministro Levy já defendeu a volta da CPMF várias vezes...

O aumento de impostos reduz ainda mais a confiança dos empresários, é um grande desestímulo.

E qual é o papel dos empresários no atual cenário?

Acho também que os empresários hoje saíram das matérias econômicas, está difícil de saber qual é a visão dos empresários neste momento. Onde está o protagonismo da classe empresarial?

Então, os empresários precisam se unir e cobrar medidas?

Sim. Eu imagino o seguinte: no IDV (Instituto de Desenvolvimento do Varejo), nós temos a seguinte proposta: a aprovação de quatro ou cinco medidas em caráter de urgência nos próximos 30 dias para destravar a economia. Enquanto todo mundo briga nas colinas lá de Brasília, aqui na planície a economia está nesta situação que todo mundo está sentindo. Parece-me que os políticos não têm nenhuma consideração, ignoram o que está acontecendo na economia, no mundo real. Isso é gravíssimo, porque ninguém está pensando em como trazer o País de volta à normalidade, em semear o futuro. Essa luta (política) está prejudicando significativamente a economia.

E como se poderia negociar essas medidas?

Seria um movimento suprapartidário, com participação de empresários de diversos setores, que pense no retorno do País à normalidade. Eu tento imaginar o seguinte: será que a classe política está pensando no Brasil daqui a dois ou três ou anos ou na eleição daqui a dois ou três anos? Tem uma grande diferença. Esses políticos devem ter filhos, família, netos. Qual é o País que eles estão projetando para sua família? Qual é o futuro? Essa luta irresponsável está prejudicando o Brasil.

As pessoas estão mais interessadas em manter seus cargos do que com a saúde da economia?

Enquanto isso, o que está acontecendo no mundo real? Embora haja empresas que estejam indo bem no Brasil, as pequenas e médias empresas estão quebrando. E o efeito disso no desemprego? Já passou do tempo de os políticos saírem do aquário onde estão para dar uma olhada na realidade do Brasil.

Quais são as medidas a serem propostas?

Há coisas que estão sendo alinhavadas, como a simplificação de alguns impostos no curto prazo, como o PIS e o Confins, a reforma do ICMS, a liberação da livre negociação entre empresários e trabalhadores. Seriam algumas medidas para retomar a confiança. Hoje, o problema do Brasil é a falta de confiança. Da indústria, do varejo, dos serviços, do consumidor. Certamente há muitos planos de investimento, mas ninguém vai investir sem que antes haja um horizonte de previsibilidade, razoabilidade. Quem vai dar a solução para o “destravamento” da economia é o Congresso Nacional, mas, em minha modesta visão, é a hora dos grandes empresários deste País – Jorge Gerdau, Roberto Setubal, Rubens Ometto, Abilio Diniz, entre vários outros – fazerem uma frente em busca desse destravamento da economia enquanto a briga política acontece.

O sr. acha que ficou claro, com as dificuldades do governo atual, que o Estado brasileiro ficou grande demais?

Não tenho dúvida nenhuma que estamos encerrando um ciclo em que houve algumas coisas boas, alguns avanços, mas também retrocessos importantes. Se os avanços tivessem sido maiores do que os retrocessos, não estaríamos na situação atual. Certamente estamos caminhando para um novo modelo, de volta à racionalidade, à eficiência, de colocar o Estado em seu devido tamanho. Estamos vivendo dentro uma fórmula inviável e que terá de mudar.

E como essa mudança poderia ocorrer?

Essa conscientização está sendo provocada pela sociedade. Nós tivemos 35 milhões de brasileiros que entraram no mercado de consumo, mas também 10 milhões de brasileiros subiram da classe C para a classe B. Houve uma melhora de vida significativa do ponto de vista material, mas também do acesso à educação. E aumentou o nível de exigência dos brasileiros, que não vão aceitar retrocessos. Agora que estão consumindo, essas pessoas procuram melhoria em outras áreas, como saúde, educação e segurança.

Qual é sua opinião sobre um eventual impeachment da presidente Dilma Rousseff?

Não vou comentar isso.

A Renner é uma das empresas brasileiras que ainda vão bem. No terceiro trimestre, as vendas crescem 12% nas lojas abertas há mais de um ano. Há medidas que levaram a este resultado?

O que ocorre hoje na Renner é fruto de mudanças implantadas na melhoria de coleções, nas lojas, no visual merchandising (técnicas que induzem o consumidor a comprar). E esse trabalho feito lá atrás tem proporcionado bons resultados. Nós já sabíamos lá no fim de 2013, pela condução do País, que as coisas não iam terminar bem. Mas o que ocorre hoje não é bom nem para o País nem para a Renner. Muita gente pode pensar que estamos ganhando participação de mercado na crise. Mas eu prefiro ganhar mercado acabando com os 40% de informalidade que ainda existem no mercado de confecções do Brasil do que em cima das pequenas e médias empresas que estão quebrando.

Existe o risco do aumento da inadimplência com alta do desemprego? O crédito já é um foco de preocupação para a Renner?

Os nossos índices de perdas eles estão em linha com os apresentados nos últimos cinco anos. Mas estamos mais cautelosos no fornecimento do crédito, temos de ser mais rigorosos. E teremos de ser mais eficientes também na área de cobrança. Isso faz parte das ações de eficiência que também passam por outras áreas. Algumas medidas que já tomamos permitiram aumentar a produtividade da cobrança em 20% a 30%. O grande objetivo do nosso crédito é viabilizar as nossas operações comerciais. E cuidamos do ativo credito com o mesmo cuidado que tomamos com os estoques, das lojas. É uma adequação à nova situação.

A Renner não está isolada do resto da economia. O ritmo de investimentos (de R$ 550 milhões em 2015) será mantido?

Para este ano, sim. Estamos no meio de uma série de investimentos que têm de continuar. Já investimos muito em logística, precisamos também fazer TI (tecnologia da informação) e a abertura de lojas. São investimentos que pensam em um Brasil que vai voltar à normalidade. São investimentos que exigem confiança. Para 2016, ainda não está definido, o conselho ainda vai se reunir para decidir as estratégias.

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