CARLOS PUPO/AGÊNCIA ESTADO
CARLOS PUPO/AGÊNCIA ESTADO

Empresários tentam aproximação com candidatos às vésperas da eleição

Empresariado tem mantido uma programação intensa de encontros com presidenciáveis para discutir propostas e garantir interlocução com o nome que pode assumir o Planalto

Renata Agostini, Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

24 Junho 2018 | 05h00

RIO e SÃO PAULO. Às vésperas do início da corrida eleitoral, grandes empresários têm intensificado a agenda de conversas sobre as opções para o Planalto e buscado se aproximar dos presidenciáveis mais bem cotados na disputa até o momento. Os encontros em torno de pré-candidatos vêm sendo organizados de forma discreta e têm contado com alguns dos principais nomes do empresariado, que externam preocupação com os rumos do País.

É o caso de jantar oferecido há duas semanas por Guilherme Leal, sócio da Natura, para que amigos pudessem ouvir Marina Silva, da Rede. Segundo apurou o Estado, o empresário reuniu em sua casa, em São Paulo, um grupo pequeno, mas influente: Roberto Setúbal, copresidente do conselho de administração do Itaú Unibanco, Walter Schalka, presidente da Suzano, Álvaro de Souza, presidente do conselho do Santander, Horácio Lafer Piva, presidente do conselho da Klabin, Fábio Barbosa, ex-presidente da Febraban e do Santander, e André Lara Resende, um dos formuladores do Real e assessor econômico de Marina.

Leal chegou a compor a chapa de Marina como seu vice em 2010, mas não participa da campanha desta vez. Seguiu engajado com a política por meio de iniciativas como a Raps, organização que investe na formação de lideranças políticas. Anfitrião e convidados não quiseram falar sobre o encontro. Segundo fontes, porém, a ideia era ter uma conversa “franca” para entender as propostas de Marina e ajudá-los a moldar sua visão sobre o cenário eleitoral. O plano é fazer outras conversas. O próximo a ser ouvido deve ser Álvaro Dias, do Podemos.

Motivação semelhante levou outro grupo de empresários a Itatiba há cerca de um mês para conversar com Geraldo Alckmin, do PSDB. Um almoço foi oferecido pelo empresário e investidor Paulo Malzoni em sua fazenda, a Santapazienza, para que o tucano pudesse falar sobre suas expectativas para o ano eleitoral e propostas para o País. Entre os presentes, estavam José Roberto Ermírio de Moraes, herdeiro do Grupo Votorantim, e Rubens Ometto, dono da Cosan. Procurados, eles não concederam entrevista.

Encontros desse tipo devem se multiplicar daqui em diante, dizem empresários sob reserva. Por um lado, explicam, o empresariado deseja entender a agenda dos presidenciáveis. Por outro, quer garantir interlocução com um político que pode chegar ao Planalto no ano que vem.

Jair Bolsonaro, do PSL, tem se mostrado mais reticente a eventos na casa de empresários. Aliados ouvidos pelo Estado reclamam de sua relutância, mas admitem que alguns encontros já ocorreram – sempre com muita discrição. Ometto, da Cosan, foi um dos que já estiveram com o deputado. Os pedidos de encontro, dizem pessoas próximas, têm aumentado.

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Renata Agostini e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S. Paulo

24 Junho 2018 | 05h00

RIO/SÃO PAULO - O temor em relação ao desfecho eleitoral vem alimentando debates políticos, que ocorrem em profusão em pequenos eventos, jantares e reuniões em entidades que representam o empresariado. Executivos e lideranças do setor têm demonstrado preocupação com o fato de que, a poucos meses das eleições, um candidato de centro ainda não tenha se firmado nas pesquisas. A tensão eleitoral desta vez é maior, dizem.

Por isso, há uma profusão de encontros e conversas para que empresários possam se antecipar aos movimentos políticos e entender quais são de fato as propostas dos postulantes ao Planalto. “Este ano há bastante estresse, o próprio mercado mostra isso. Temos de ter consciência que, nesse momento, possivelmente não temos o candidato que una a visão de País (que o empresariado deseja) e o tema de não ter ligação com os processos de investigação”, diz Antônio Carlos Pipponzi, presidente do conselho Raia Drogasil e do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV). “É preciso olhar alternativas”.

O IDV, bem como o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) ouvem há semanas pré-candidatos em pequenas sabatinas.

“O momento é muito importante. Temos de ouvir e nos mobilizar. O medo é de que o populismo e extremismo venham a se proliferar”, diz Rubens Menin, presidente do conselho da MRV e conselheiro da Abrainc, que ouviu Geraldo Alckmin e receberá outros presidenciáveis.

“Queremos que os candidatos entendam a relevância da indústria para o País. Somos geradores de emprego, exportamos e pagamos impostos”, diz Pedro Wongtschowski, presidente do Iedi e do conselho de administração do Grupo Ultra. O Iedi recebeu Alckmin e Ciro Gomes (PDT). Fará outros encontros. 

Executivos e donos de grandes empresas ainda aguardam pela definição das coligações – importantes para cálculo do tempo de TV – e a composição das chapas. Mas, em encontros, não escondem receio com os rumos das candidaturas de centro, especialmente a de Alckmin. A pulverização de candidaturas aumenta a sensação de incerteza, afirmam empresários.

Na terça-feira passada, Gustavo Junqueira, da Sociedade Rural Brasileira (SRB), reuniu em sua casa, em São Paulo, cerca de 30 executivos e empresários para debater as possibilidades eleitorais. Estavam presentes representantes do agronegócio, como o usineiro Maurílio Biagi Filho, e executivos como Felipe Cavalieri, da BMC-Hyundai, e Antonio Moraes Barros, da CBC. Nas rodas que se formavam, repetia-se em uníssono: Alckmin precisa ganhar tração. 

+ Pipponzi: 'É preciso se libertar do plano A e buscar alternativas'

No evento, acompanhado pelo Estado, a maioria dos empresários ouvidos indicou que o candidato ideal seria João Amoêdo, do Novo, mais liberal que o tucano. No entanto, como ele aparece com baixíssima intenção de voto, Alckmin é visto como opção mais segura. 

Na mesma noite, em São Paulo, um grupo de 60 executivos e investidores se reuniu para ouvir o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso elaborar sobre a corrida eleitoral, a convite do Canadian Pension Plan Investment Board (CPPIB). O tucano voltou a defender a união dos candidatos de centro, o que animou a plateia. “Com a greve dos caminhoneiros ficou o alerta de que há uma fragilidade exposta, mas o mercado ainda acredita numa composição de nomes de centro”, diz Alexandre Bertoldi, sócio-gestor do Pinheiro Neto Advogados, uma das maiores bancas do País, que estava presente no evento.

A busca por um caminho eleitoral distante dos extremos ideológicos também foi um dos assuntos no jantar na sexta retrasada na casa de Rubens Ometto, dono da Cosan, em São Paulo, que reuniu empresários e banqueiros como Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Roberto Setúbal (Itaú), Sérgio Rial (Santander) e André Esteves (BTG), em torno de Michel Temer e do ministro da Fazenda, Eduardo Guardia. 

Alguns dos presentes pediram empenho para que o centro se una ao redor de Alckmin, manifestando descrença numa candidatura própria do MDB, de acordo com fontes ouvidas pelo Estado. Empresários indicaram ainda preocupação com uma transição ordenada até a posse do próximo presidente. 

Alvo dos que advogam pela “unificação do centro”, Henrique Meirelles diz, porém, que não pensa em desistir de se lançar pelo MDB. “Não houve nenhum pedido ou pressão para qualquer mudança”, afirmou ao Estado. “É evidente que adversários têm muita preocupação com minha candidatura”.

Apartidário. O cenário de incerteza eleitoral e em relação à economia, que deu sinais de fragilidade, motivou um grupo de executivos e empresários a articular um movimento para debater propostas para o País. Luiza Trajano, presidente do conselho do Magazine Luiza, Paulo Kakinoff, presidente da Gol, Pedro Passos, sócio da Natura, Walter Schalka, presidente da Suzano, Salim Mattar, presidente do conselho da Localiza, Rubens Menin, da MRV, entre outros, vão promover em agosto o evento “Você Muda o Brasil”. 

A ideia é fazer um debate apartidário sobre temas como educação, segurança e ética. O grupo não apoiará candidaturas, mas pode fazer um documento com algumas das ideias debatidas.

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Renata Agostini, O Estado de S. Paulo

24 Junho 2018 | 05h00

RIO - O empresário Antônio Carlos Pipponzi, acionista e presidente do conselho da Raia Drogasil, acredita que o empresariado precisa se “libertar de alguns mitos” e compreender que o candidato ideal ainda não se colocou. “Não dá pra pensar em nome novo a esta altura. Tem de ser pragmático. É muito cedo para falar que Alckmin não vai decolar, mas não dá para falar apenas nele”, diz. 

 À frente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), coordenou encontros do setor com Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e João Amoêdo (Novo). Para ele, a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL), que recusou convite do IDV, é a que causa mais apreensão. “É inimaginável termos um candidato que não se sabe quais são suas posições”, diz.

Há mais interesse em ouvir os candidatos nesta eleição?

Sem dúvida nenhuma. Há pulverização, incerteza. No IDV, convidamos todos os principais candidatos para entender quem está mais alinhado com nossas posições. Existe preocupação dos empresários com a agenda de reformas, de não haver retrocessos no País. Essa é uma posição muito clara do IDV, do apoio às reformas, como a previdenciária e trabalhista. Com exceção de Bolsonaro, que recusou nosso convite, houve muita boa vontade dos candidatos para conversar.

Entraram em temas difíceis?

Não com muito conforto, mas deram sinalizações. Geraldo Alckmin tem o discurso que o empresariado quer ouvir, de aceleração maior de reformas. Falou muito na austeridade fiscal e razoavelmente de segurança e de educação. No caso do Ciro, ficou claro que existe certo temor até porque a maior plateia foi a dele. Há curiosidade. Mas ele se saiu bem, se dispôs a ficar com todo mundo. Está à esquerda, mas deu um pouco de conforto ao defender responsabilidade fiscal. Foi contra a reforma trabalhista e isso decepcionou a plateia. Pelo centro, vai a Marina, que de certo modo, deixou impressão muito boa. Ela procura se cercar de gente competente, independentemente de partido. Não mostra necessariamente posições que o empresariado gostaria de ouvir, mas mostra equilíbrio.

O empresariado deve se engajar mais na política neste ano? 

Não nos engajaremos como IDV, até porque o estatuto não permite isso. Mas acredito que, como qualquer cidadão, o empresário tem de se posicionar e exercer sua influência de forma positiva. Este ano, existe bastante estresse, o próprio mercado tem mostrado isso. Temos de ter consciência que, nesse momento, possivelmente não temos o candidato que una a visão de País (que o empresariado deseja) e o tema de não ter ligação com os processos de investigação. É importante se libertar do plano A. Claramente, o plano A da maior parte dos empresários é Geraldo Alckmin. Mas é preciso olhar alternativas, e talvez se libertar de alguns mitos em relação a alguns candidatos. Esses contatos ajudam bastante.

O fato de a candidatura de Alckmin não ter decolado indica necessidade de olhar alternativas?

É uma necessidade. Não depende de ter plano de País apenas (para ser um candidato viável). Todo empresário quer o País crescendo, inflação baixa, que o País tenha desemprego menor. Mas precisamos entender o que é possível (politicamente). Viemos desse histórico de impeachment, um clima difícil para o País. Talvez as reformas que queremos tenham de vir em velocidade menor. Uma coisa ficou clara na conversa com Alckmin, Marina e Ciro: todos são responsáveis. Ninguém vai chegar lá e desprezar o equilíbrio das contas públicas. Agora, é preciso olhar a figura completa. Não adianta ter as melhores propostas e depois não conseguir aprovar nada no Congresso.

Os empresários desejam que surja um nome novo? 

Acredito que será uma evolução. Não dá pra pensar em algum nome novo a esta altura. Tem de ser pragmático. Precisamos ver após a Copa do Mundo como vai ficar. É muito cedo para falar que Alckmin não vai decolar, mas não dá para falar apenas nele. 

Há entusiasmo entre seus pares em relação a Bolsonaro?

Não senti isso. É visto ainda como incógnita. Isso talvez provoque a insegurança no mercado. Colocar um economista para falar por ele? Quem garante que esse economista estará no governo? Ciro Gomes assume posições e se coloca. Há pontos divergentes com a visão do setor, mas ao menos há debate e isso é importante.

O que desagrada é não saber o que pensa Bolsonaro?

Não o ouvi falar ainda, mas me parece inimaginável termos um candidato que não sabemos quais são suas posições. Por mais que se foque na segurança, o tema econômico é fundamental. Como o País vai ter capacidade de melhorar o eixo saúde, educação e segurança? O candidato apenas falar que ainda não sabe e está esperando seu programa... Isso me assusta. Não quero pré julgá-lo, mas me preocupa.

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