Empresários ucranianos e brasileiros reúnem-se em Kiev

Cerca de 60 empresários ucranianos e dez brasileiros, junto com integrantes de bancos e órgãos do governo, se sentaram nesta quarta-feira num salão da Casa de Recepções, que faz parte do complexo da residência oficial, para identificar oportunidades de negócios, enquanto representantes de mais de 20 empresas brasileiras continuavam fazendo o mesmo em Moscou, de onde o presidente Fernando Henrique Cardoso e a comitiva partiram nesta quarta de manhã.Em Kiev, a Ericsson do Brasil, por exemplo, negociava uma venda de US$ 35 milhões em celulares. Fabricantes ucranianos de turbinas para usinas termelétricas estudavam uma parceria com os brasileiros, pela qual forneceriam tecnologia para sua fabricação no Brasil, em troca de uma participação de 30% nas vendas.Esses e outros negócios dependem da criação de linhas de crédito pelos bancos de fomento dos dois países. Aqui, há alguns obstáculos a serem superados. A Ucrânia resiste em repassar ao Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ao Banco do Brasil informações que lhes permitam avaliar o risco das operações de financiamento.Sem isso, não há como obter cartas de garantia para os créditos. Uma das linhas de negociação em curso entre ucranianos e brasileiros é um acordo para a Ucrânia assumir metade do risco dessas operações.Para se qualificar para ingressar na Organização Mundial do Comércio (OMC), a Ucrânia teria que padronizar seus dados conforme critérios internacionalmente aceitos, o que facilitaria essas operações de crédito e reduziria as arestas nas negociações.É por isso que o Brasil incentiva o ingresso do país na OMC. Mas o tema é politicamente controvertido, nessa fase de transição que atravessa o país. Haverá eleições parlamentares em março, e o presidente Leonid Kuchma prefere não dar combustível à esquerda, que acusa o governo de querer subordinar o país aos ditames americanos.A expectativa do governo brasileiro é que, depois das eleições, o processo avance. No seminário desta quarta em Kiev, o presidente do BNDES, Eleazar de Carvalho, deu uma amostra do que o banco pode fazer com parceiros comerciais do Brasil.O BNDES financia US$ 150 milhões de exportações de ônibus e caminhões brasileiros para países da América Latina e, só para o metrô de Caracas, destinou US$ 100 milhões. Segundo Eleazar, 9,5% das exportações de produtos industrializados do Brasil são financiadas pelo banco.Com relação aos produtos primários, as dificuldades maiores estão nas barreiras fitossanitárias e tarifárias ou nas cotas de importação. A Rússia, cujo ingresso na OMC também é postulado pelo Brasil, aplica tarifa de 40% sobre a carne. Os brasileiros reivindicam uma redução para 5%.Nas conversações em Moscou, o governo brasileiro não conseguiu obter a liberação da importação da carne suína. "Esperamos resultados positivos nas próximas semanas", disse ontem o ministro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio, Sérgio Amaral. "Os russos têm que completar sua análise técnica."Com a Ucrânia, o problema enfrentado pelas commodities brasileiras não são as tarifas altas, mas as cotas de importação. Além disso, segundo o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Márcio Fortes, há dificuldades logísticas que ainda não foram superadas.A Ucrânia tem comprado commodities brasileiras via Europa e deseja a partir de agora negociar diretamente. Outro desejo ucraniano é reduzir a dependência em relação à Rússia, que responde por 40% de seu comércio exterior.Além disso, o país quer estabelecer parcerias em áreas tecnológicas, para diminuir o peso das matérias-primas em sua pauta de exportações. "Tudo o que eles querem é o que nós queremos também", disse ontem o ministro Amaral: "Eliminar intermediários, diversificar parceiros e aumentar o valor agregado por meio de parcerias em áreas tecnológicas?.O ministro considerou "razoável" que um país, em vez de simplesmente importar os produtos de outro país, queira que pelo menos partes dos produtos sejam fabricados nele.

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