Empresários vão de mau humor a reunião com Dilma

Presidente busca aproximação para recuperar investimentos, mas entidades de classe querem ações práticas

João Villaverde e Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2015 | 02h01

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff deve se reunir com empresários, ainda neste mês, na tentativa de melhorar a relação com o setor privado, transmitir otimismo e recuperar os investimentos. O encontro pode ser complementar à retomada das reuniões do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI), que tinha sido posto de lado, mas voltará no dia 20. O Palácio do Planalto ainda decide se fará duas reuniões ou só o encontro do conselho, mas, independentemente disso, terá diante de si um clima muito tenso.

Segundo empresários ouvidos pelo Estado, a grave situação econômica do País e a crise política do governo retiraram qualquer perspectiva de melhora do cenário no curto e médio prazo e o governo, agora, precisa dar demonstrações claras de que há um caminho para o crescimento.

"Não dá mais para ter conversa fiada: chamar 300 empresários para o Planalto, prometer medidas genéricas e terminar sem nada. Se for mais do mesmo, o clima vai piorar e não conseguirei controlar meu setor, que está disposto a entregar as chaves das fábricas ao Planalto, fechando tudo", disse o empresário Rafael Cervone, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit).

Segmentos como o de bens de capital, também estão "no limite", segundo Carlos Pastoriza, presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). "A maior preocupação do setor, além da calamidade que é o fracasso total de vendas neste ano, é que não tem luz no fim do túnel", disse. O setor de máquinas serve de indicador dos investimentos: sempre que corta produção, sinaliza que os demais segmentos empresariais brasileiros estão investindo menos ou substituindo por importados.

Os empresários se ressentem que Dilma vem prometendo, desde 2011, a simplificação do PIS/Cofins e a unificação do ICMS, mas nunca entregou. Eles avisam que não querem ouvir novamente essas promessas. "Já falamos 500 vezes com o ministro Levy: já vimos esse filme várias vezes", disse Cervone, da Abit, que aponta para o "risco" de a reunião fracassar. "A presidente corre o risco de cancelar a reunião por falta de quórum, se os empresários sentirem que será mais do mesmo, ou de criar um clima pior ainda, caso a reunião seja iguais às demais", disse.

O ramo têxtil pede o regime tributário especial para o setor de confecções, que foi formulado pelo Ministério do Desenvolvimento, mas está parado no Ministério da Fazenda. A Abit aponta que as empresas devem fechar o ano com um corte líquido de 65 mil vagas, ante 20 mil em 2014 (em 2013, ainda houve saldo positivo de 7,2 mil empregos). Já o setor de máquinas e equipamentos cortou 50 mil empregos desde 2013 - metade neste primeiro semestre.

No caso do CNDI, criado ainda no governo Lula, a ideia é tentar criar alguma política industrial para o segundo mandato de Dilma. "Temos grupos temáticos para trabalhar em temas como desburocratização, ambiente regulatório e o plano de exportação", disse ao Estado o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro. "Vamos fazer uma avaliação e discussão da política industrial, de como reposicioná-la." As linhas básicas de uma proposta devem ser definidas nessa reunião.

A necessidade de ajustar as contas públicas, porém, deverá pesar contra um desenho mais ambicioso das medidas de estímulo à indústria. A mesma falta de caixa para novas medidas de estímulo foi responsável por um Plano Nacional de Exportações (PNE) magro, classificado pelo setor produtivo como "o máximo do mínimo".

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