Empresas ainda têm dificuldades com crédito

Juro sobe há seis meses e atingiu 29,1% em outubro, maior nível desde fevereiro de 2009

Fernando Nakagawa BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2010 | 00h00

Apesar das vendas crescentes, as empresas brasileiras ainda enfrentam dificuldade para tomar crédito no Brasil. Dados do Banco Central revelam que o juro cobrado no segmento sobe há seis meses e atingiu 29,1% ao ano em outubro, no maior nível desde fevereiro de 2009, quando a economia sofria com o auge da turbulência global.

A inadimplência, especialmente entre as empresas mais novas e menores, explica a alta da taxa. Para pessoas físicas, a realidade é oposta: o juro caiu para 39,4%, o menor nível desde o Plano Real.

O aumento do juro para empresas começou em maio. Na época, a taxa estava em 26,3%. Ou seja, o custo médio do crédito cobrado das pessoas jurídicas teve aumento proporcional de cerca de 10% em um semestre. O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, atribui o movimento à persistência de um nível considerado elevado de inadimplência.

Em setembro, 3,5% dos financiamentos destinados às empresas apresentavam atraso superior a 90 dias. O calote tem caído, mas em ritmo muito lento: em outubro do ano passado estava em 4%.

Mesmo com o recuo, a inadimplência atual é duas vezes maior que a registrada há dois anos, em setembro de 2008, mês do agravamento da crise, quando 1,6% das operações não eram pagas em dia. "A inadimplência permanece em patamar um pouco elevado. É por isso que não há queda nas taxas", diz Altamir.

Bancarização. Outro fator que influencia negativamente é a estreia de novas e pequenas empresas no crédito. Em um movimento semelhante à "bancarização" da classe C e D, muitas pessoas jurídicas têm estreado na tomada de empréstimos.

Esses clientes recorrem aos financiamentos para reagir à demanda aquecida, seja com reforço no capital de giro, maiores volumes de antecipação de recebíveis - como duplicatas e cartões de crédito - ou novos investimentos.

Para os bancos, o problema é que não há histórico de pagamento dessas empresas. Portanto, não é possível determinar com precisão o risco de calote. "São clientes cujo histórico de risco não é conhecido. Geralmente, bancos operam primeiro com um juro mais elevado. Depois, é comum ter inadimplência mais alta", cita Altamir, ao comentar o atual estágio do crédito.

Especialista em análise de risco de crédito, o sócio-consultor da Witrisk, José Tosi, diz que há "ajuste de preços causada por linhas de crédito mais arriscadas". Ele explica que, diante dos novos clientes, bancos têm duas opções: elevar o juro para garantir o lucro mesmo com maior risco de calote ou passar a ser mais criterioso e, assim, restringir o crédito. "Como se vê, bancos têm preferido manter a concessão elevada com o juro compensando o risco."

Queda. O sócio da Witrisk avalia que é possível haver alguma redução do juro no médio prazo. "Com o tempo, os bancos passarão a conhecer mais esses clientes. E, com o histórico de bom pagador, a taxa poderá ser reduzida", afirma.

Enquanto o juro para empresas não para de subir, a taxa para pessoas físicas cai. Em 11 de outubro, a taxa média estava em 39,4%, mesmo nível de setembro, no menor nível desde julho de 1994, no início do Plano Real.

Altamir explica que o juro pago pelas famílias cai porque as linhas de crédito mais baratas como o crédito habitacional, consignado e financiamento de veículos têm liderado a recente expansão de crédito.

Em setembro, por exemplo, o crédito com desconto em folha, o consignado, cresceu 4,3% na comparação com agosto. Essa linha de crédito tem taxa média de 26% ao ano.

Já os empréstimos no cheque especial caíram 1,1% na mesma base de comparação. Nesse caso, a operação tem um dos mais elevados juros cobrados nos bancos: 158% anuais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.