Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Empresas americanas também querem lucrar com a onda de construções da China

A China está atraindo empresas e países para sua esfera econômica e geopolítica com o plano "uma região, uma estrada"

Keith Bradsher, The New York Times

29 de maio de 2017 | 10h04

XUZHOU, CHINA - Agora que a China planeja construir inúmeras estradas, ferrovias, portos e aeroportos na Ásia, África e na Europa, os céticos dizem que as empresas chinesas serão as únicas vencedoras nessa iniciativa ambiciosa.

A General Electric discorda.

Em 2014, as empresas chinesas de construção e engenharia encomendaram apenas US$ 400 milhões em equipamentos da companhia para instalar no exterior, predominantemente na área onde a maior parte dos trabalhos irá ocorrer, conhecida como "uma região, uma estrada". No ano passado, essas encomendas totalizaram US$ 2,3 bilhões, e a empresa planeja conseguir mais US$7 bilhões com turbinas de gás natural e outros equipamentos de geração de energia nos próximos 18 meses.

"Estamos totalmente focados em fechar esse negócio", disse Rachel Duan, diretora-executiva da General Electric China.

A China está atraindo empresas e países para sua esfera econômica e geopolítica com o plano "uma região, uma estrada". Em Pequim, um fórum recente sobre o projeto, organizado pelo presidente Xi Jinping, contou com o presidente russo Vladimir Putin e outros líderes, além de autoridades de mais de três dezenas de países, incluindo os Estados Unidos.

Se levada a cabo como planejado, a iniciativa pode gerar uma onda de construção global; a China prometeu mais de US$ 1 trilhão em investimentos em longo prazo.

As empresas ocidentais estão tentando agressivamente participar da ação: o Citibank ganhou um contrato do Banco da China para lidar com uma oferta complexa de US$3 bilhões em títulos de créditos, no mês passado, para arrecadar dinheiro para a abertura de filiais na Ásia, na Europa Oriental e na África Oriental; a empresa de tecnologia e manufatura Honeywell International está vendendo equipamentos para processamento de gás natural para a Ásia Central.

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Algumas empresas não chinesas também estão ajustando seus negócios para conseguir mais encomendas relacionadas ao plano de Pequim, e a GE reorganizou sua equipe de marketing de equipamentos de energia global para lhes dar prioridade.

O investimento chinês não necessariamente significa lucro imediato. A maior parte do dinheiro ainda tem que ser alocada, e por enquanto ninguém fala em gastos. E o país, que tem muitas fábricas produzindo aço e cimento em excesso, quer se certificar de que suas próprias empresas sejam as maiores beneficiárias.

Nomes como a Caterpillar, por exemplo, terão que enfrentar um fabricante chinês de máquinas de construção controlado pelo governo e que cresce rapidamente, o Xuzhou Construction Machinery Group, conhecido como XCMG. As duas, que enfrentam um mercado doméstico amadurecido, estão ansiosas para encontrar novos espaços, que é a principal ambição do plano.

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Em uma das fábricas cavernosas do XCMG, aqui no centro norte da China, os trabalhadores estão correndo para duplicar o número de máquinas escavadoras que podem ser feitas a cada ano, principalmente através do acréscimo de robôs ao processo de montagem. Essa iniciativa faz a fábrica funcionar 16 horas por dia, seis dias por semana.

"O 'uma região, uma estrada' transformou de nossa estratégia de internacionalização em um tigre alado", disse Wang Min, presidente do XCMG.

Para as empresas, esse plano oferece tanto incerteza quanto promessa. A infraestrutura que a China está construindo poderá um dia se tornar uma avenida para bilhões de dólares com o aumento do comércio – ou um buraco de dívidas. Xi quer que as empresas que fazem negócios na China participem independentemente das perspectivas.

A crença na prosperidade futura é sedutora. A Li & Fung, empresa de Hong Kong que, durante décadas, enviou bens fabricados na China para lojas de departamento americanas e europeias, trabalha agora com pequenos e médios varejistas de países em desenvolvimento. "Essa é uma aposta de que a iniciativa chinesa vai aumentar o consumo em dezenas de países", disse Victor Fung, presidente do Grupo Fung, a empresa controladora.

Outros estão esperando para ver se a ideia ambiciosa se traduz em investimento real, e se as empresas americanas e europeias terão um lugar à mesa. O fato que mais os preocupa é que o programa parece estar mais voltado às exportações chinesas e não muito às importações.

"Queremos saber o que vamos ganhar com isso. É algo fora de questão se a ideia for apenas trazer produtos chineses para a Europa, ou se for uma via de mão única", disse James Zimmerman, advogado em Pequim, que é já foi presidente da Câmara de Comércio Americana na China, referindo-se ao Ocidente.

Um alto funcionário do governo Trump, Matthew Pottinger, diretor da Ásia no Conselho de Segurança Nacional, disse na reunião desse mês que a China precisa garantir a transparência na licitação de contratos relacionados à iniciativa para dar uma chance melhor para empresas privadas.

O excesso da capacidade industrial da China é uma das grandes motivações por trás do plano. O país pode produzir cerca de 1,1 bilhão de toneladas de aço por ano, quase o mesmo que a produção do mundo todo somada, mas sua demanda interna está na ordem de 800 milhões de toneladas. A iniciativa só conseguiria absorver cerca de 30 milhões de toneladas por ano, de acordo com um estudo recente da Câmara de Comércio da União Europeia.

Algumas empresas americanas estão tomando medidas para ampliar suas chances, mas isso às vezes significa fabricar mais na China, não os Estados Unidos. Duan disse que a GE havia focado em maneiras de produzir bens na China para cumprir exigências do país, que determina que parte do trabalho seja feito localmente. A Honeywell disse em um comunicado que também busca maneiras de produzir mais bens na China para o programa.

"Quando as estradas, portos e usinas forem construídos, acho que as outras oportunidades virão", disse Duan.

Outros esperam e observam. Os investimentos estão fortemente concentrados no Paquistão, Afeganistão, Cazaquistão, Uzbequistão e outros países próximos que são prioridades geopolíticas da China, mas que têm economias fracas.

Vincent Lo, bilionário do setor imobiliário e presidente do Conselho de Desenvolvimento Comercial de Hong Kong, liderou um grupo de 50 empresários de Xangai e Hong Kong que foi para a Tailândia e o Vietnã este mês para, segundo ele, explorar os investimentos baseados na iniciativa chinesa. Viagens ao Oriente Médio e à Europa Oriental podem ser as próximas. A Ásia Central é um dos últimos itens de sua lista.

"Se os países da Ásia Central estiverem dispostos, trabalharemos com eles, mas é claro que teremos que examinar as bases financeiras. Muitos terão que fazer reformas para conseguir receber capital", disse Lo.

Os chineses querem ser grandes vencedores desde o início.

Xi escolheu a cidade de Xuzhou – uma central ferroviária na metade do caminho do trem-bala entre Pequim e Xangai, um percurso de cinco horas – como a principal base manufatureira de sua política. Aqui, no sopé de uma colina onde está localizado um novo complexo de templos budistas, a Caterpillar tem uma das maiores fábricas de máquinas de construção do mundo, onde produz equipamentos enormes de escavação.

Nas proximidades, o XCMG, seu rival local, está em ampliação. Empregando 23 mil trabalhadores na cidade e controlado pelo governo municipal de Xuzhou, o XCMG é o maior fabricante chinês de maquinário de construção, desde escavadeiras até guindastes e motoniveladoras.

A fábrica produz escavadeiras do tamanho de tanques de guerra em quatro ambientes com telhado de aço e pé-direito de 24 metros. Quase tudo lá dentro é novo, desde os 13 robôs do tamanho de casas que cortam o aço até os caros equipamentos italianos e japoneses que aparam componentes siderúrgicos com perfeição.

Wang, o presidente do XCMG, acredita que o negócio irá se concretizará.

"Devemos ser persistentes e gerenciar bem nossos negócios. No ano que vem, surgiremos repentinamente", disse ele.

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