Empresas brasileiras confirmam barreiras

Negada pela Argentina, restrição à entrada de alimentos prejudica exportadores

Ariel Palacios de Buenos Aires e Naiana Oscar de São Paulo, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2010 | 00h00

Pouco antes de a presidente Cristina Kirchner embarcar para o Brasil, o ministro do Interior, Florencio Randazzo, negou de forma enfática a existência de barreiras argentinas contra a entrada de produtos alimentícios. Exportadores brasileiros informam que os caminhões não são impedidos de atravessar a fronteira, mas estão parados nas fábricas porque os importadores argentinos cancelaram pedidos com medo das ameaças federais.

Hoje, no Rio de Janeiro, Cristina participará do 3.º Fórum da Aliança de Civilizações da ONU e vai aproveitar a ocasião para discutir o conflito comercial com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o primeiro-ministro da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, cujos países são o alvo das medidas verbais protecionistas argentinas.

Na entrevista concedida a uma rádio argentina, ontem, Randazzo - um dos porta-vozes virtuais da presidente - admitiu que existe "uma briga de interesses" com o Brasil. Mas o ministro afirmou que "de forma alguma" vai entrar em ritmo de "briga" com o governo brasileiro. "O Brasil tem uma balança comercial favorável com a Argentina. Mas isso não implica que - como é uma luta de interesses que naturalmente acontece quando falamos em comércio - nós não defendamos a indústria argentina, os trabalhadores e os preços nas gôndolas dos supermercados."

Embora Randazzo negue oficialmente a existência de medidas protecionistas, as barreiras que elevaram a tensão bilateral nas últimas semanas foram ordenadas verbalmente pelo secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, um dos homens de confiança de Cristina. Segundo as ordens, os importadores deveriam suspender as compras de produtos alimentícios não frescos no exterior que rivalizem com similares argentinos.

Ameaças. A empresa Brasfrigo, uma das maiores fabricantes brasileiras de conservas, vem enfrentando desde o início do mês o temor dos importadores com as ameaças do governo argentino. A gerente de comércio exterior da companhia, Ivini Granado, estima que 25 caminhões estejam parados na fábrica por causa do cancelamento dos pedidos. O prejuízo do mês é calculado em US$ 700 mil. "Tenho em torno de 30 clientes lá e cada dia um deles me ligava pedindo para parar", conta Ivini. Todos deixaram de comprar da Brasfrigo. "Tentamos mandar os produtos, mas eles não queriam porque diziam estar recebendo telefonemas de ameaças de representantes do governo."

Os contratos de exportação da Brasfrigo são anuais, mas dependem da autorização do cliente para enviar os produtos. Por isso, até agora, apenas um caminhão da companhia ficou parado na fronteira. "Esse custo é todo meu, por isso não estamos mandando a carga."

Os importadores argentinos têm relatado à empresa que são ameaçados a exportar o mesmo valor que importarem de outros países. "A responsabilidade pela balança comercial argentina está sendo transferida para eles", diz Ivini. O mercado argentino é responsável por 60% das exportações da Brasfrigo, que somam US$ 24 milhões por ano com as marcas Jussara, Jurema e Tomatino de vegetais enlatados.

Sob pressão. A gaúcha Oderich, que atua no mesmo segmento, também está tendo prejuízos. Segundo o gerente de comércio exterior da empresa, Paulo Kaiser de Souza, US$ 2 milhões em produtos estão estocados à espera da autorização dos clientes. São 100 caminhões parados de pedidos já confirmados. "O cliente não confirma o embarque porque está sob pressão. Se continuarem fazendo pedidos vão sofrer uma devassa fiscal."

A Oderich exporta para a Argentina, principalmente, milho verde e creme de milho. "Embarcávamos 20 carretas por semana e agora são apenas duas."

Ontem, por meio de um comunicado, a ministra da Indústria, Debora Giorgi, afirmou que o governo do Brasil "não fez apresentação formal alguma sobre restrições para a entrada de alimentos" brasileiros na Argentina. A ministra - famosa por ser a autora de diversas medidas protecionistas, especialmente contra o Brasil - negou que mercadorias brasileiras estejam sofrendo impedimentos nas alfândegas: "tampouco temos a evidência da existência de caminhões brasileiros impedidos de atravessar a fronteira".

Mais cedo, Randazzo garantiu que o presidente Lula, que esteve em Buenos Aires na terça-feira para participar do bicentenário da Revolução de Maio de 1810, "em nenhum momento manifestou-se zangado". O chanceler Celso Amorim, na noite das celebrações, também evitou o caso das barreiras.

O ex-presidente do Banco Central, Alfonso Prat-Gay, atualmente deputado da Coalizão Cívica, de oposição, criticou a medida protecionista do secretário Moreno. Prat-Gay ressaltou a situação suigeneris criada pela administração Kirchner: "Fica difícil para o Brasil retaliar formalmente essa medida argentina, já que ela não está oficializada".

PARA LEMBRAR

Anúncio verbal iniciou conflito entre os países

As desavenças comerciais entre Brasil e Argentina voltaram à tona no início de maio, quando o secretário de Comércio do país vizinho, Guillermo Moreno, reuniu-se com diretores de supermercados e anunciou a proibição da entrada de alimentos importados que tenham similares produzidos localmente.

Na ocasião, ele disse que a medida valeria a partir do dia 1° de junho. Homem de confiança da presidente Cristina Kirchner, ele comunicou a decisão apenas verbalmente.

Desde o final de 2008, quando o impacto da crise global chegou ao Mercosul, empresários brasileiros enfrentam dificuldades para vender seus produtos à Argentina por causa da aplicação de licenças não-automáticas de importação. Depois de sofrer retaliação do Brasil, os argentinos agilizaram a liberação das licenças, mas setores relatam que a demora voltar a se agravar.

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