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Empresas brasileiras enfrentam desafios de infraestrutura para produzir na África

Extração de carvão em Moçambique exigiu que a Vale ampliasse portos e revitalizasse ferrovia abandonada há 20 anos.

Daniel Gallas, BBC

19 de outubro de 2011 | 15h21

 

MOÇAMBIQUE - Empresários brasileiros com negócios em Moçambique apresentaram nesta quarta-feira à presidente Dilma Rousseff os principais investimentos da iniciativa privada brasileira no país.

Grande parte dos projetos está ligada à concessão da exploração do carvão nas minas de Moatize, no norte do país, dada em 2004 à Vale, que gerou uma espécie de "polo brasileiro" na região.

No entanto, para conseguir viabilizar a exportação do carvão, a empresa teve de investir pesado na infraestrutura moçambicana, já que a região não possuía portos e ferrovias compatíveis com o volume de produção previsto para as minas.

A mineradora contratou empreiteiras brasileiras como a Odebrecht e a Camargo Correa para expandir um porto e revitalizar uma ferrovia que estava desativada há 20 anos.

"No exterior, este é o primeiro grande projeto estruturante da Vale", disse à BBC Brasil o presidente da empresa, Murilo Ferreira. A Vale já fez investimentos semelhantes em infraestrutura no Brasil, mas nunca deste porte em outro país.

Ele disse que tem esperança de que os investimentos na região criem um polo de desenvolvimento, atraindo indústria e agricultura de soja e etanol. Técnicos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) estão em Moçambique para avaliar a possibilidade de utilização do solo ao longo do polo previsto pela Vale.

Mas, apesar das expectativas, nenhuma outra empresa manifestou interesse até agora em se instalar na região, segundo a embaixada brasileira em Maputo.

Estruturas paralelas

Os desafios de infraestrutura na África são grandes, segundo os executivos brasileiros.

Para construir o ambicioso projeto de extração de carvão em Moatize, a Vale precisou erguer, além das duas minas, duas estruturas paralelas de logística - uma provisória, para poder exportar cerca de um milhão de toneladas de carvão, e outra permanente para 2014, quando as minas estarão operando em plena capacidade, produzindo 22 milhões de toneladas.

A estrutura provisória, com uma ferrovia partindo de Moatize até o porto de Beira, só ficou pronta recentemente.

A companhia esperava exportar a sua primeira carga de carvão moçambicano em julho, mas isso só ocorreu no mês passado, pois a ferrovia não havia sido concluída ainda.

A primeira exportação aconteceu no dia 14 de setembro, com uma carga vendida para Dubai, nos Emirados Árabes.

Quatro vagões com o logotipo da Vale transportaram 35 mil toneladas de carvão até o porto de Beira. Só a ampliação do porto da cidade, para comportar a exportação da Vale, custou US$ 100 milhões e está sendo feita pela Odebrecht.

Ferrovia

Já a estrutura permanente é um projeto chamado de Complexo Corredor Tete-Nacala, com a revitalização de 690 quilômetros de uma ferrovia que estava desativada há 20 anos.

Além disso, terão de ser construídos mais 210 quilômetros de novos trilhos. Uma parte da ferrovia corta o Malauí, o que aumentou a complexidade jurídica do projeto.

A Vale é parte de um consórcio com 51% de capital privado e 49% de participação do governo moçambicano no projeto. A empresa pretende divulgar nos próximos dias o valor total do investimento no Corredor Tete-Nacala.

No total, a empresa está investindo mais de US$ 5 bilhões em todo o complexo de Moatize, o principal projeto da mineradora em Moçambique.

Apesar das dificuldades, os empresários brasileiros com negócios na África se mostram animados com os investimentos no continente.

A Odebrecht afirma que está de olho no potencial hídrico de Moçambique, para a construção de hidrelétricas.

Para se instalar na África, os brasileiros enfrentam a concorrência de chineses. Mas segundo o diretor de novos negócios da Odebrecht, Fernando Soares, a vantagem é que, ao contrário dos chineses, os brasileiros empregam mão-de-obra local.

"A China sempre traz seus trabalhadores para trabalhar aqui. Nós somos um dos maiores empregadores de Moçambique, com cerca de 6 mil empregados, e hoje entre 90% e 92% da nossa mão-de-obra aqui é moçambicana", disse Soares à BBC Brasil.

A Odebrecht construiu estradas e um shopping em Moçambique nos anos 1990, mas abandonou o país no final da década. Desde 2005, no entanto, a construtora voltou a atuar, sobretudo atendendo a Vale.

Além disso, a empresa fechou um contrato de US$ 120 milhões com o governo moçambicano para construir um aeroporto de pequeno porte em Nacala, com previsão de movimento de 300 mil passageiros por ano.

O consultor da Camargo Correa, Antonio Miguel Marques, também diz que Moçambique é o país que oferece melhores oportunidades para o Brasil na África, já que possui estabilidade jurídica e política e crescimento econômico de até 8% ao ano.

"Moçambique é desde 2005 a prioridade da Camargo Corrêa na África. Existe grande potencial de se construir infraestrutura aqui", diz ele.

A Camargo Corrêa se tornou, nos últimos cinco anos, a maior fabricante de cimento de Moçambique. A Andrade Gutierrez manifestou interesse em disputar a construção de um reservatório de água em Maputo. A Vale também estuda a exploração de potássio perto da ferrovia de Nacala.

Dilma

A presidente Dilma Rousseff, que está em giro de quatro dias pela África, assistiu nesta quarta-feira em Maputo a apresentações sobre alguns dos principais projetos da iniciativa privada brasileira.

Além do encontro com os empresários brasileiros, Dilma cumpriu compromissos políticos em Maputo.

O dia começou com uma cerimônia em homenagem ao ex-presidente Samora Machel, morto há 25 anos e um dos principais heróis de Moçambique. A cerimônia teve a participação de outros chefes de Estado africanos, como Jacob Zuma, da África do Sul, e Robert Mugabe, do Zimbábue.

À tarde, Dilma foi recebida com almoço pelo presidente moçambicano, Armando Guebuza, com quem manteve um encontro em seguida. Dilma viaja para Luanda, em Angola, à noite, onde cumprirá na quinta-feira o último dia de agenda na África.

 

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