Agencia Vale
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Empresas brasileiras vão à luta na África

Grupos nacionais investem para assegurar mercado no continente em expansão

Fernando Scheller, de O Estado de S. Paulo,

03 de novembro de 2012 | 19h58

No mês de novembro, a agenda do executivo Leonardo Brito, da construtora baiana OAS, incluirá passagens de três ou quatro dias por África do Sul, Moçambique, Quênia, Congo, Gana, Guiné e Guiné Equatorial. Ele tem dificuldades de responder sobre o local onde mora. E não sem motivo: passa boa parte de seu tempo no avião da empresa, indo de um país africano para outro. Uma vez por mês, por três ou quatro dias, volta a São Paulo, onde moram a mulher e o filho. De certa forma, a vida do executivo resume o renovado apetite brasileiro pelas oportunidades oferecidas pelo continente africano.

Hoje, grandes empresas nacionais prospectam negócios relevantes em mais de uma dezena de países da África (ver quadro). Angola é o maior e mais tradicional mercado, a África do Sul recebe a maior parte dos investimentos de indústrias de transformação e Moçambique pode ser chamado de um "destino emergente" (o Brasil é o quinto maior investidor internacional na nação).

Empresas como Vale e Petrobrás investem pesado em mercados ricos em recursos naturais, como petróleo, gás, carvão e minério de ferro, ajudando a espalhar influência brasileira pelo continente. A Vale explora carvão em Moçambique e é sócia da israelense BSG no complexo de Simandou, na Guiné, considerada a maior reserva inexplorada de minério de ferro do planeta. Já a Petrobrás tem ativos de óleo e gás em nações como Angola, Nigéria, Tanzânia e Namíbia. Para a Andrade Gutierrez, as obras contratadas no continente africano somam US$ 2,2 bilhões, ou 20% do volume total da companhia.

A África é, ao lado da América Latina, o principal vetor da expansão internacional de grupos brasileiros. Segundo um estudo da Ernst & Young, embora o Brasil só participe com 0,6% do total dos investimentos estrangeiros nos 54 países africanos, a expansão nos últimos cinco anos tem acompanhado de perto o ritmo chinês. Desde 2007, a atividade brasileira cresceu 10,7% ao ano na África, enquanto a chinesa subiu 11,7%.

Junto com o direito de explorar os recursos naturais do continente vem a obrigação de realizar obras de infraestrutura para os governos - o que abre um mercado cativo para as empreiteiras. Não é por acaso que Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Odebrecht estão entre os grupos brasileiros mais bem conectados no continente.

Segundo o diretor-superintendente da Odebrecht em Moçambique, Miguel Peres, a presença em determinados países abre portas para obras de governo, não necessariamente ligadas a projetos de exploração de recursos naturais.

A disputa de obras governamentais com as construtoras chinesas, que oferecem crédito barato e de fácil liberação, fez com que o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) iniciasse um projeto para facilitar a vida dos grandes grupos nacionais. A Odebrecht atualmente constrói um aeroporto internacional em Nacala, no norte de Moçambique, com financiamento do banco. O BNDES não financia a obra em si, mas os serviços que são exportados por conta desses contratos.

As liberações para as exportações de serviços somaram US$ 658 milhões de janeiro a agosto deste ano. Dois países africanos - Angola e Moçambique - concentram cerca de 40% dos empréstimos (o restante do valor foi repassado a projetos na América Latina). Segundo o banco, a quantidade de dinheiro liberada só não é maior porque muitos governos africanos têm dificuldade para as garantias financeiras necessárias neste tipo de financiamento.

Riscos. Assim como o BNDES, as grandes companhias brasileiras sabem que investir na África embute uma boa dose de risco. Um dos exemplos dessa instabilidade é a entrada da Vale na Guiné. Com o fim do regime ditatorial que governou o país por mais de 20 anos, a nova administração resolveu modificar o código mineral e revisar os contratos firmados de acordo com as regras antigas. Resultado: a expectativa de explorar uma reserva comparável à de Carajás, no Pará, se transformou em uma obra parada no meio da floresta.

Mesmo assim, a posição da empresa tem sido de renegociar os termos do contrato com o governo. Pela quantidade de minério estimada em Simandou, existe uma longa lista de interessados em explorar o potencial caso a Vale decida deixar o país. O banco BTG, de André Esteves, está em entendimentos com o governo para oferecer serviços financeiros e auxílio em obras estruturais. Neste ano, o BTG criou a B&A Mineração, em sociedade com Roger Agnelli, um ano depois de sua saída da Vale.

A aproximação entre o governo do país e o BTG incomodou a sócia da Vale em Simandou, a israelense BSG. A direção da empresa chegou a vir ao Brasil procurar advogados para abrir um processo contra Roger Agnelli e o BTG.

Para trabalhar na África, é importante conhecer bem quem serão os parceiros. Eduardo Sampaio, diretor-gerente da americana FTI Consulting, tem a missão de facilitar a entrada de investidores no continente. O primeiro passo, conta ele, é checar os antecedentes dos envolvidos. Sampaio também ajuda na confecção dos contratos. O caminho mais recomendável é definir que a arbitragem de conflitos seja feita em um tribunal internacional.

Com o devido dever de casa feito, no entanto, a avaliação das empresas é que os ganhos compensam os riscos. Antes de assumir a direção da divisão africana da construtora OAS e peregrinar o continente em um avião particular, Leonardo Brito trabalhava no departamento financeiro da empresa. Ainda no Brasil, mapeou as possibilidades de cada uma das nações da África. Hoje, a OAS já está presente em seis países, incluindo Angola, Moçambique e Guiné. No momento, Brito busca executivos para administrar cada um deles.

Mas isso não quer dizer que o tempo de voo do executivo vá diminuir nos próximos meses. Pelo contrário: assim que formar a equipe, vai preparar a expansão da OAS para pelo menos outras sete nações africanas. A construtora, que está envolvida em estradas, hidrelétricas e portos elegeu a África como prioridade em seu projeto internacional.

A empresa quer fincar bandeira em vários pontos do mapa africano - de preferência, antes da concorrência. Com base no estudo que elaborou, Brito diz ter convicção de que a redemocratização de várias nações permitirá apostas ousadas no futuro. "Estudei cada um dos mais de 50 países africanos. E posso garantir que há potencial de investimento em pelo menos 30."

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