Empresas ‘brigam’ por executivos de finanças

Empresas ‘brigam’ por executivos de finanças

Com pandemia, companhias dão cada vez mais incentivos a bons gestores financeiros

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2021 | 05h00
Atualizado 03 de outubro de 2021 | 14h57

Nos últimos meses, o executivo André Veloso já foi sondado para, pelo menos, 20 vagas de diretor financeiro, também conhecido como CFO (sigla em inglês para Chief Financial Officer). Nos últimos dois anos, ele trabalhou na T4F (Time for Fun) e ajudou a companhia a lidar com os efeitos da pandemia, que paralisou o setor de entretenimento. Havia tanto trabalho para preservar caixa, cortar custos e renegociar dívidas, que Veloso nem conseguia avaliar direito o que chegava até ele de proposta.

No mês passado, no entanto, ele decidiu aceitar uma vaga e trocar a T4F pela Bemobi Mobile, que abriu o capital no início deste ano. “Contou a favor não só a questão financeira como também o ambiente e o projeto que será tocado”, explica. Veloso destaca que a parcela de incentivo de longo prazo, que normalmente pode envolver participação na empresa ou uma fatia da valorização das ações, foi bastante relevante na sua escolha pela nova vaga, até mais que o salário fixo. 

“Dependendo da proposta, você tem mais tranquilidade na condução do trabalho e sabe que terá reconhecimento de todo valor agregado, que vai ser premiado pelo esforço”, diz o executivo, que atua como CFO há 11 anos no mercado.

Como Veloso, muitos outros profissionais estão sendo assediados por recrutadores para mudar de emprego em troca de salários altos e incentivos que variam de empresa para empresa, mas podem significar ter parte das ações da companhia. Segundo dados da consultoria Egon Zenhder, multinacional especializada em desenvolvimento e recrutamento de lideranças, os incentivos de longo prazo (ILP) tiveram uma alta de quase 60% entre 2020 e 2021. 

Ou seja, as empresas estão apostando nesse instrumento para atrair os profissionais e retê-los por períodos mais longos. Além de os valores terem aumentado mais em relação a pares de outras áreas, como diretor de marketing (19,03%), o prazo para receber os incentivos totais aumentou cerca de 12 meses, para quatro anos e meio (para os executivos de marketing esse prazo subiu metade, para três anos).

“O mercado está mais acirrando. Uma das formas de manter os profissionais é incrementar esse incentivo de longo prazo e amarrá-los por mais tempo”, diz Luis Giolo, consultor líder da prática de sucessão de presidentes e Conselhos no Brasil da Egon Zenhder. Esses bônus variam muito entre as empresas, mas podem chegar a R$ 30 milhões por ano, com prazos de 2 a 5 anos para recebimento. Atualmente, o salário médio de um CFO é de R$ 130 mil por mês, segundo levantamento da consultoria. Entre o ano passado e agora, a remuneração cresceu 8% – acima da inflação. Os bônus de curto prazo praticamente não mudaram.

Na avaliação de Giolo, a expectativa é de que esse movimento de demanda pelos diretores financeiros continue em alta nos próximos meses por uma série de fatores. Primeiro porque durante o ano passado houve uma demanda reprimida. Muitas empresas seguraram contratações e agora estão retomando. Outros estão tirando alguns projetos do papel e precisam de executivos experientes.

Oferta pública de ações

Também tem o efeito dos IPOs (oferta pública de ações), que mesmo tendo esfriado um pouco devem ser retomados em algum momento. E, nesse caso, as empresas exigem profissionais que já tiveram experiência com abertura de capitais, diz Renato Bagnolesi, sócio do Grupo Fesa, de recrutamento executivo. “Há profissionais disponíveis no mercado, mas a maioria dos que contratei até agora estava em outras companhias. Isso gera uma inflação no setor.”

Muitas empresas precisaram buscar esses profissionais para arrumar a casa por causa dos efeitos da pandemia. Além de ter de cortar despesas, algumas tiveram de reestruturar dívidas. O CFO André Veloso conta que foi procurado para ocupar vagas em diferentes empresas e setores. “Mas o motivo quase sempre estava ligado à agenda de crescimento. As companhias queriam se reestruturar para voltar a crescer ou para abrir o capital”, disse ele. O que o atraiu para a empresa escolhida foi o projeto de crescimento inorgânico, ou seja, por meio de aquisições, o que deve exigir uma atuação forte da área financeira.

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Aquisições e fundos aquecem demanda por executivos

Em muitos casos, investidores escolhem o diretor financeiro da empresa onde aplicam seus recursos

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2021 | 05h00

Outras explicações para a alta demanda do mercado por CFOs (diretor financeiro, ou Chief Financial Officer) são o crescimento das fusões e aquisições e a maior presença de fundos de private equity e de venture capital na economia. Esses novos protagonistas nos investimentos das empresas têm exigido uma área financeira mais robusta, diz o diretor de recrutamento executivo da Robert Half, Mário Custódio

Em muitos casos, esses investidores fazem questão de escolher o CFO da empresa onde aplicam seus recursos. O perfil dos profissionais varia conforme o grupo. Companhias mais tradicionais buscam CFOs mais experientes e, nesse caso, é preciso tirar de outro lugar, o que significa ter de pagar mais caro pelo profissional e caprichar nos incentivos de longo prazo. “Os bônus têm feito a diferença na decisão do profissional”, diz Custódio.

Numa startup um pouco mais madura, o salário desses profissionais tende a ser menor, mas os bônus futuros são generosos. Isso porque trata-se de um projeto de maior risco para os executivos, sobretudo para aqueles que já estão no mercado. 

Uma pessoa empregada só iria para uma empresa nova se tivesse um incentivo maior. “Quem entra num grupo tradicional, tem mais segurança em relação ao futuro dos negócios. Uma startup, às vezes, pode morrer na praia”, diz Lucas Oggiam, diretor do PageGroup, que já contratou CFO para empresa com 9 funcionários.

Troca

O executivo Alexandre Mafra não foi para uma startup, mas optou por uma empresa novata no setor de energia elétrica. O diretor financeiro trabalhou nos últimos três anos como CFO da gestora Pátria – uma gigante na gestão de ativos na América Latina. Era o CFO dos CFOs. Comandava cerca de 25 executivos de várias áreas da gestora. “Contratei entre 10 e 15 profissionais para ocupar essa área no Pátria, a maioria vinda de outras empresas”, diz ele.

Há cinco meses, foi a sua vez de mudar de casa. Ele recebeu o convite para ser CFO da Focus, uma empresa de energia criada em 2015 e que abriu o capital em fevereiro deste ano. “O que me fez sair foi a oportunidade de construir algo numa empresa que tem um caminho de crescimento e que pode deixar um legado para a sociedade.” Segundo ele, a parte financeira é importante, mas não está entre as suas 3 prioridades.

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