Empresas coreanas são acusadas de exploração no Brasil

Na fábrica da Samsung, em Campinas, dezenas de empregados fizeram denúncias contra abusos trabalhistas

ANELLA RETA, AFP / CAMPINAS, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2011 | 03h06

"Já não posso nem me pentear sozinha", declara, em lágrimas, uma ex-empregada brasileira do grupo sul-coreano Samsung Electronics, ao denunciar os abusos e exigências trabalhistas que causaram uma paralisação quase total de seu braço esquerdo.

O caso da jovem, que prefere não se identificar, faz parte de dezenas de denúncias contra a empresa instalada em Campinas, a 100 km de São Paulo, um problema que se repete em outras empresas coreanas recém-chegadas ao Brasil.

"Sou muito jovem para sofrer tudo isso", lamentou a ex-empregada de 30 anos, que deverá ser operada por um desgaste nas cervicais que afetou o movimento de seu braço e pescoço. A máquina que operava exigia que ela "ficasse com a cabeça virada para baixo por muito tempo."

"Hoje não tenho mais os movimentos do braço e do pescoço. Hoje não tenho mais vida. Não consigo um novo emprego", soluçou a jovem, que foi despedida após seu problema de saúde.

Choro, amargura e rostos cansados são o denominador comum de vários trabalhadores da empresa que decidiram denunciar abusos. "Ordens dadas aos gritos, palavrões e agressões. São coisas que nossa cultura não admite", disse Catarina von Zuben, fiscal do Ministério Público do Trabalho (MPT) de Campinas, que investiga o ambiente de trabalho das empresas coreanas na região industrial paulista.

A investigação concluiu que as agressões físicas, como empurrões, e psicológicas, como insultos e pressão para aumentar a produção, provocaram "quadros depressivos, problemas na saúde, muitos de ordem mental e de sistema ósseo-muscular", afirmou. Os empregados que testemunharam contra a Samsung na denúncia do MPT, apresentada em maio de 2010, narraram jornadas extenuantes, com a realização de movimentos repetitivos na linha de produção, além de agressões e tratamento humilhante dos supervisores.

Segundo um estudo do Centro de saúde do trabalhador (Cerest), muitos dos empregados com problemas ósseo-musculares são jovens que apresentam "lesões degenerativas relacionadas à velhice". A pressão dos supervisores para aumentar a produção, soma-se a constante ameaça de demissão. "As pessoas têm medo de denunciar por medo de perder o trabalho", afirmou outro empregado, que tem "certeza absoluta" de que em breve será demitido por ter denunciado as situações de abuso.

A fiscalização do trabalho entende tratar-se essencialmente de um problema cultural, já que também foram registradas queixas similares nas coreanas LG e Hyundai (fábrica em construção). O MPT pretende assessorar as empresas asiáticas que querem se instalar na região quanto à legislação brasileira.

"A cultura (empresarial) asiática está baseada em uma hierarquia rígida e de cumprimento de metas", disse Yi Shin Tang, professor da USP, especialista em empresas asiáticas, ao destacar que os brasileiros "trabalham quatro, cinco meses (nas empresas) e não aguentam a pressão".

Acordo. A Samsung firmou em agosto um acordo judicial com o MPT se comprometendo a acabar com o abuso trabalhista e a pagar uma indenização por danos morais, num total de R$ 500 mil. Mas, segundo os empregados consultados, a situação não mudou. "Antes se trabalhava a base de golpes. Agora não, mas só por causa das denúncias", disse o operador Walter Manoel, pertencente ao Sindicato de Metalúrgicos, que afirmou ter sido ameaçado após o acordo.

Com o acordo judicial, a Samsung considera "o assunto oficialmente terminado", disse, em um comunicado enviado à AFP, onde destacou estar "comprometida em manter o bem-estar dos funcionários".

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