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Empresas de alimentos concentram dívida

Companhias como BRF, JBS e Marfrig estão entre as dez mais endividadas do País; esse grupo registrou aumento de débitos em 2018

Mônica Scaramuzzo e Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2019 | 05h00

A busca pela redução do endividamento continuará sendo tarefa prioritária de grandes empresas brasileiras em 2019. Além de pedir mais prazo para bancos e credores, corporações que antes focavam a expansão dos negócios – mesmo que à custa de mais endividamento – deram início a um plano agressivo de venda de ativos para melhorar a rentabilidade. A tendência deve ser notada na maioria das dez companhias mais endividadas do País, grupo que viu suas obrigações crescerem 8,1% entre setembro de 2015 e setembro de 2018, para R$ 219,8 bilhões, segundo a Economática.

A retomada da economia no ano passado, apesar de lenta, já começou a se refletir no balanço das companhias, segundo Carlos Sequeira, analista do BTG Pactual. “À medida que a economia se recupera, essas empresas podem reduzir sua capacidade ociosa”, afirma. Para o diretor da área de grandes empresas do Bradesco BBI, Carlos Pedras, a perspectiva de retomada do consumo pode reforçar o caixa das empresas em 2019. “Os investimentos poderão ser retomados aos poucos.”

Alimentos. Das dez maiores empresas endividadas, excluindo Petrobrás e Vale, as companhias de alimentos concentram o maior débito. A gigante dos alimentos BRF, dona de Sadia e Perdigão, viu sua dívida quase triplicar em três anos (veja quadro acima). O resultado é reflexo da crise de gestão que ficou transparente a partir de 2017, quando a empresa reportou o primeiro prejuízo de sua história. Para virar o jogo, a BRF anunciou um plano de desinvestimentos de R$ 5 bilhões. 

Segundo Lorival Luz, chefe de operações globais da BRF, além de vender operações na Argentina, na Europa, na Tailândia e imóveis, a companhia estruturou captação de R$ 875 milhões no mercado financeiro.

A Marfrig foi pelo mesmo caminho. A companhia usou parte do dinheiro da venda da americana Keystone – US$ 2,4 bilhões – para reduzir sua alavancagem. A dívida líquida caiu para 2,5 vezes a geração de caixa (medida pelo lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações – Ebitda). 

Líder global em carne bovina, a JBS encerrou setembro com o maior endividamento do setor, de R$ 49,5 bilhões. Embora a dívida tenha crescido no período, a alavancagem caiu de 3,45 para 2,99 vezes no resultado em reais. Entre o segundo trimestre de 2017 e o terceiro trimestre de 2018, o grupo pagou US$ 4,3 bilhões em dívidas.

Afetadas pela crise global do aço, com excesso de produção, as siderúrgicas também foram atingidas em cheio pela recessão. A Gerdau saiu de negócios nos EUA e Índia, reduzindo seu endividamento em R$ 6,1 bilhões. Na CSN, a situação é mais delicada. Com dívidas de R$ 26,2 bilhões, a siderúrgica de Benjamin Steinbruch conseguiu vender uma operação pequena nos EUA e agora quer se desfazer de ativos na Europa.

Infraestrutura. Outro setor que ainda luta para se recuperar é o de energia elétrica. A Cemig diz ter enfrentado uma “tempestade perfeita”: sofreu com investimentos malsucedidos, distribuição exagerada de dividendos e mudanças de regras no governo Dilma Rousseff, diz o diretor de finanças e relações com investidores da empresa, Maurício Fernandes. 

Segundo o executivo, desde o fim de 2017 a empresa conseguiu alongar seu perfil de dívida, com captações de recursos no Brasil e no exterior. A Cemig agora tem três ativos na fila do desinvestimento: a Renova, a usina Santo Antônio e a Light, que chegou a ser negociada com a gestora GP.

A CPFL Energia destacou, em nota, a redução de seu endividamento – que, no terceiro trimestre de 2018, ficou em 2,92 vezes o Ebitda. No mesmo período de 2017, era 3,24 vezes. A estatal Eletrobrás diz perseguir a meta de 3 vezes a relação entre dívida e Ebitda. No terceiro trimestre, o índice chegou a 3,3 vezes, ante 8,8 vezes em junho de 2016. 

A concessionária CCR afirma que o aumento de sua dívida está relacionado a investimentos feitos entre 2013 e 2018, que somaram R$ 17,5 bilhões. A Braskem diz, em nota, que a redução de seu endividamento de 2015 a 2018 decorre de sua forte geração de caixa, incluindo a entrada em operação do Complexo Petroquímico do México.

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