Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Empresas de e-commerce evitam ‘CEPs do inferno’

Estado do Rio de Janeiro foi o único da região Sudeste que teve queda de vendas no comércio eletrônico no primeiro semestre

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2017 | 05h00

O comércio eletrônico, que já sofre com a crise financeira do Rio, está perdendo negócios no Estado também por causa do aumento do roubo de cargas. Lojas online passaram a restringir entregas em áreas de risco. “É o CEP do inferno”, diz o diretor de Segurança do Sindicato das Empresas de Carga e Logística do Rio de Janeiro, coronel Venancio Alves de Moura.

Ao fazer a compra pela internet, é de praxe o consumidor informar o CEP (Código de Endereçamento Postal) antes de fechar o pedido. O que tem acontecido, principalmente no Rio, é que algumas lojas, ao detectarem que o CEP fica em local de risco, avisam que não entregam o produto naquele endereço. Moura diz que essa prática começou há dois anos e vem aumentando. “O custo é muito alto: a cada seis caminhões que entram nessas áreas de risco, um é roubado”, diz o coronel.

A reportagem simulou, na semana passada, a compra de um iPhone 7 Plus, de R$ 3.799, no site Americanas.com, com endereço de entrega na Rocinha (RJ). A compra foi recusada. “Desculpe, essa loja não faz entrega de produto para esse CEP”, dizia a mensagem do site. Para outra simulação de compra do mesmo produto com endereço de entrega em Irajá (RJ), a empresa informou que a mercadoria seria entregue na agência dos Correios mais próxima. 

A Americanas.com, informou, por meio de nota, que “opera em parceria com os Correios e que este entrega os produtos em suas agências em determinadas áreas do Rio de Janeiro. A informação sobre essa restrição é disponibilizada para o cliente antes da conclusão do pedido”.

Segundo os Correios, existem áreas de restrição de entregas de encomendas no Rio de Janeiro. Essas áreas são estabelecidas com base em levantamentos feitos pelo setor de segurança dos Correios. A classificação é realizada a partir do mapa de risco fornecido pelos órgãos de segurança pública e pela incidência de assaltos a veículos de carga da empresa. Nos casos onde há áreas de restrição, os Correios enviam a encomenda para uma unidade operacional mais próxima do endereço do destinatário. Os Correios têm percebido um aumento das lojas de comércio eletrônico que indicam suas agências no Rio para a retirada dos produtos vendidos online. 

Impacto. O desempenho do comércio eletrônico do primeiro semestre deste ano no Estado do Rio de Janeiro dá indicações de como a crise enfrentada pelo Estado, que inclui o aumento da violência e dos roubos de cargas, afetou as vendas.

Entre janeiro e junho, o faturamento do comércio online no Estado caiu 1%. O Rio foi o único Estado da região Sudeste que teve retração. No mesmo período, as vendas do comércio eletrônico cresceram 8% em São Paulo, 6% em Minas Gerais e avançaram 10% no Espírito Santo. Em todo o País o comércio online cresceu 7,5% na comparação com o mesmo período de 2016. Os dados são da consultoria Ebit. “Acho que o roubo de carga é um fator que acaba suprimindo venda”, diz Pedro Guasti, presidente da consultoria, ponderando que o pano de fundo é a crise econômica. 

Smartphones. Não é só dinheiro e joia que são transportados em veículos blindados. O aumento de roubos de carga fez crescer a procura desse tipo de frete para smartphones, medicamentos, eletroeletrônicos e cigarros, por exemplo. Até empresas de comércio eletrônico ampliaram a procura por veículos blindados.

“A procura por caminhões blindados está aumentando exponencialmente”, conta Marcos Guilherme Dias da Cunha, diretor geral da Transvip, transportadora de valores. Três anos atrás, a empresa decidiu usar não apenas carro-forte. Ela investiu mais de R$ 3 milhões em seis caminhões blindados e em tecnologia. Cada veículo é escoltado por quatro vigilantes armados que viajam na cabine do próprio veículo. Com isso, reduzem os gastos com escolta terceirizada.

Há mais tempo nesse mercado, a concorrente Brink’s também sentiu um ligeiro aumento, entre 10% a 15%, da procura de transporte de carga em carretas blindadas para o Rio nos últimos 12 meses. Roberto Martins, diretor da Brink’s Global Services, conta que a demanda por esse tipo de transporte está sendo puxada pelos smartphones com mais recursos. Um smartphone mais sofisticado custa cerca de R$ 4 mil. “Esse aumento não está necessariamente ligado só ao aumento da violência, a economia tem dado sinais de melhora”, pondera o executivo.

Animado com as perspectivas favoráveis desse novo segmento, Cunha, da Transvip, diz que a empresa está investindo cerca de R$ 5 milhões em mais dez carretas blindadas. Cada uma custa cerca de R$ 500 mil e tem capacidade para carregar mais de R$ 12 milhões em mercadorias. Uma carreta comum leva menos de R$ 1 milhão de produtos e sem escolta.

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