Empresas de ônibus querem atrair passageiro aéreo

Empresas de transporte rodoviário de passageiros vão usar este ano algumas das armas do setor aéreo para seduzir clientes acostumados com a comodidade do avião, que têm migrado para o ônibus por causa dos constantes atrasos e cancelamentos de vôos. Programa de fidelidade, renovação de frota, poltronas com tarifas promocionais de acordo com o horário e a viagem feita em ônibus com primeira classe e executiva, e passagens compradas pela internet, são alguns dos diferenciais das companhias aéreas que, agora, serão usados pelas companhias de ônibus.O grupo 1001, por exemplo, vai criar este ano um programa de fidelidade como o Smiles, da Varig, revela o superintendente da empresa, Heinz W. Kumm Júnior. O projeto prevê, como o programa de milhagem, a distribuição de passagens, mas ainda não está definido o critério para a gratuidade. Segundo o executivo, alguns testes já estão sendo feitos em outras empresas do grupo, como a Catarinense (de Santa Catarina) e a Macaense (norte fluminense)."A idéia é dar uma passagem ou por quilometragem rodada ou por viagens. Precisamos de um banco de dados grande. O programa de fidelidade seria oferecido em rotas de mercados mais rentáveis, como as feitas a partir de São Paulo", afirma Júnior. O banco de dados já está sendo alimentado por meio de outro investimento típico do setor aéreo. No último trimestre de 2006, a 1001 investiu R$ 3 milhões para iniciar as vendas de passagens pela internet.O esquema é similar ao das companhias aéreas. O passageiro de ônibus escolhe a rota e imprime a passagem pela internet. No guichê, mostra o seu código de reserva e o troca pelo bilhete. Quando faz a compra, seu cadastro fica armazenado no sistema. Segundo Júnior, o objetivo é fazer com que a internet corresponda ao mesmo porcentual das vendas por telefone, que respondem atualmente por 9% da receita da empresa.A Marcopolo, maior fabricante de carrocerias para ônibus do País, percebeu o movimento migratório do avião para o ônibus e prevê aumento de vendas este ano por causa da encomenda de ônibus diferenciados. São veículos com duas classes de poltronas no mesmo piso ou aqueles com dois andares, cada um voltado para um tipo de comodidade. De acordo com o diretor da Marcopolo para o mercado Brasil, Paulo Corso, este ano a empresa deverá vender 200 unidades de um ônibus que tem oito poltronas leito na frente e as demais executivas. Ano passado, foram vendidas 60 unidades deste tipo de veículo. Outro ônibus que tem sido usado para competir com o modal aéreo, conta Corso, é o de dois andares: no primeiro andar, serviço leito. No de cima, poltronas executivas. Este ano, o executivo estima 100 unidades, ante 30 do ano passado."Parou de cair a demanda de passageiros rodoviários por causa dos problemas no transporte aéreo. De dez anos para cá, as empresas já vinham melhorando o conforto nos ônibus, para mostrar que é melhor do que andar de avião", afirma Corso. Segundo o executivo, parte do aumento de vendas estimado para 2007 poderá ser motivado pela crise do setor aéreo. Segundo ele, este ano deverão ser 1.800 unidades, ante 1.600 ônibus do ano passado."A gente briga em termos saudáveis com o transporte aéreo, principalmente com o passageiro de primeira classe e o executivo", afirma Júnior, da 1001. Segundo ele, o principal indicador que mostra que o ônibus está "roubando" passageiros do avião é a taxa de aproveitamento da primeira classe dos ônibus, que passou de 60% para 90% desde outubro, quando os atrasos e cancelamentos de vôos eram sistemáticos.Oportunidade Este ano, a 1001 vai comprar 72 ônibus novos, ou o equivalente a 10% de sua frota de 700 veículos, e quatro serão ônibus utilizados para competir com o modal aéreo (double class, com o primeiro andar para poltronas leito e o segundo para executivas), principalmente nas rotas São Paulo-Rio e São Paulo-Florianópolis. A Itapemirim, por sua vez, vai adquirir em torno de 200 ônibus, respeitando o porcentual tradicional do setor de renovar 10% da frota total. O superintendente da Itapemirim, Ronaldo Fassarela, porém, não acha que o transporte aéreo compete diretamente com o rodoviário, mas admite que a crise aérea proporciona chances de crescimento. "A gente vê uma janela de oportunidade com a crise aérea e percebe que o avião vem perdendo credibilidade", afirma. Segundo ele, este ano a receita da empresa deverá crescer até 5%.Ainda em 2007, deverá entrar em vigor uma nova regulamentação do transporte rodoviário de passageiros que pode aumentar a competitividade com o aéreo. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) informa que está analisando uma proposta de resolução, elaborada em outubro, que permite às empresas de ônibus estabelecer tarifas promocionais dentro de um ônibus, prática recorrente nos aviões que era vetada aos ônibus.O superintendente da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati), José Luiz Santolin, diz que após a publicação a resolução entra em vigor em 30 dias. A ANTT informa que ainda não foi definido quando essa nova regra será publicada e que seu prazo de vigência após sua publicação também não está fechado. Santolin diz não acreditar que a flexibilização de tarifas rodoviárias possa estimular a competição com o setor aéreo. "Acho que pode haver mais competição entre duas empresas de ônibus que operam na mesma rota", afirma.

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