Mark Abramson/Bloomberg - 13/7/2019
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Empresas de private equity podem transformar a crise em oportunidade?

Desempenho do setor é importante tanto para os investidores, que compraram participação em empresas, quanto para a economia em geral

The Economist

02 de junho de 2020 | 10h23

Durante a crise financeira de 2007-2009, muitos dos gestores de capital que pareciam sólidos revelaram estar na posição contrária. Demonstrou-se que os bancos haviam tomado muitos riscos. Os gestores de estrelados fundos multimercado sofreram perdas. Desde então, os anos não foram muito melhores. Os bancos se viram atados por nós regulatórios e os retornos dos fundos multimercado foram, na melhor das hipóteses, medíocres.

O setor de private equity (que compra participação em empresas) tem sido uma exceção à tendência. Os recursos aplicados durante a crise de 2007-2009 acabaram gerando um retorno médio anual de 18%. E o setor ganhou muito mais importância. Os investidores - de fundações de universidades até fundos de pensão públicos - apresentaram cada vez mais dinheiro aos gestores. 

As maiores empresas evoluíram e se transformaram em conglomerados financeiros, abrangendo mercados de aquisições, propriedades e crédito, assumindo algumas das funções que os bancos de Wall Street costumavam desempenhar. Os ativos sob gestão cresceram para mais de US$ 4 trilhões. As 8 mil empresas administradas por private equity nos Estados Unidos representam 5% do PIB do país e uma parcela semelhante de sua força de trabalho.

Agora, mais uma selvagem recessão vem chegando a todo vapor, na estreira dos impactos da crise provocada pelo novo coronavírus, e o desempenho do private equity é crucial para os investidores e a economia. As empresas alavancadas e os instrumentos de dívida nos portfólios estão vulneráveis, e muita coisa depende da capacidade dos gerentes em inflar esses investimentos. 

Ao mesmo tempo, eles acumularam US$ 1,6 trilhão em recursos líquidos para aplicar em novos negócios. O destino das empresas de private equity depende de uma pergunta: o impacto sobre os investimentos existentes será tão ruim a ponto de eliminar os potenciais ganhos das negociações proporcionadas pela crise?

Comecemos com as potenciais perdas. No primeiro trimestre de 2020, quatro grandes empresas de private equity- Apollo, Blackstone, Carlyle e KKR - relataram perdas de US$ 90 bilhões nos papéis de seus portfólios. Parece muito, mas corresponde a apenas 7% de seus ativos, refletindo sua capacidade de controlar como os ativos de capital fechado são avaliados e, talvez, sua perspicácia nos investimentos. Depois de um susto inicial, os acionistas concluíram que as perspectivas são razoavelmente boas.

Será que eles têm razão? Muitos gestores desse segmento vêm obtendo retornos ao empilhar dívidas com as empresas que compram. Nos anos imediatamente posteriores à última crise, a maioria dos acordos de aquisição foi realizada com dívidas de valores inferiores a seis vezes o lucro operacional bruto. 

Em 2019, segundo a consultoria Bain & Company, 3/4 dos negócios foram alavancados com valores maiores que seis vezes. Isso pode sugerir que as empresas administradas por private equity estão vulneráveis. Mais da metade das 18 empresas classificadas como podres que não cumpriram seus compromissos no primeiro trimestre do ano era de propriedade desses fundos, de acordo com a agência de classificação de risco Moody's. Espera-se que a taxa de inadimplência global triplique para 14% até 2021.

Ao longo da última década, os empréstimos para essas empresas se afastaram dos bancos dopados e negligentes e se aproximaram das firmas especializadas em crédito privado. Essas firmas são mais rigorosas na hora de aceitar um corte na dívida para manter de pé os negócios administrados por private equity. 

E, para deixar as coisas ainda mais complicadas, a maioria dos grandes gestores afirma que as empresas que eles possuem são inelegíveis ou não estão dispostas a aproveitar os esquemas de socorro financeiro do governo americano, o Paycheck Protection Programme (programa de proteção à folha de pagamento) e o Main Street Lending Programme (programa de empréstimos a pequenos e médios negócios).

Mesmo assim, vários outros fatores podem estar favorecendo o private equity. Grande parte das dívidas emitidas para financiar as negociações ganharam “cláusulas restritivas”, o que significa que as empresas podem enfrentar uma grande queda nos lucros sem sofrer sanções de seus credores.

Desde a crise de 2007-2009, muitos gestores também criaram grandes instrumentos de crédito - no caso das quatro grandes empresas, esses instrumentos agora representam 1/3 de seus ativos. Eles podem proporcionar aos gestores mais expertise e mecanismos internos para aumentar a dívida, facilitando a reestruturação das dívidas das empresas mais frágeis do portfólio em termos favoráveis.

A estranha natureza desta recessão talvez indique que os gestores não estão dispostos a desligar o disjuntor, pois a atividade econômica provavelmente será retomada após a quarentena. “Existe uma rachadura problemática", diz Marc Lipschultz, cofundador do Owl Rock, um fundo de crédito privado. “Não sabemos quão ampla e profunda é essa rachadura, mas os fundos precisam encontrar uma ponte que a atravesse.” 

E, se as empresas geridas por private equity não conseguirem tomar mais dívidas, deixar de pagá-las ou reestruturar seus empréstimos, a opção restante é a equity cure: fundos de private equity injetarem mais dinheiro para manter suas empresas em atividade. Cerca de 70% dos gestores consultados já dizem que precisarão injetar mais patrimônio nas empresas de seu portfólio.

A maneira como os fundos são estruturados impede que os gestores apliquem o “dinheiro vivo” levantado para novos fundos em empresas pertencentes a outros mais antigos. Mas a maioria dos fundos antigos tem grandes reservas. 

Michael Chae, diretor financeiro da Blackstone, diz que cerca de US$ 30 bilhões de seus US$ 152 bilhões estão reservados para isso. “Temos essas reservas prontas para dar suporte às empresas que estão na defensiva e também às que estão na ofensiva, esperando as oportunidades.” 

Os fundos também estão juntando capital de outras maneiras. Normalmente, um fundo de private equity devolve dinheiro a seus investidores assim que vende sua participação em uma empresa - mas, se o período de investimento ainda estiver em curso, o fundo pode pedir esse dinheiro de volta. De acordo com um órgão da indústria para investidores, já aumentou o número de pedidos para esse “capital reciclado”.

O resgate dos investimentos existentes reduzirá os retornos para esses fundos. Resta saber se as oportunidades de compra podem compensar essa redução. Muitos gestores esperam usar seus instrumentos de crédito recém ampliados para obter títulos e empréstimos a preços baixos - Leon Black, o fundador da Apollo, disse que a oportunidade é “maciça”. 

Mas o volume de negociações tradicionais caiu acentuadamente em março e desde então apenas algumas empresas fizeram compras. Por anos, os barões do private equity se vangloriaram de suas enormes pilhas de dinheiro vivo, dizendo que, se fossem investidas em período de desaceleração, poderiam gerar retornos extraordinários. Agora é hora de dar o bote. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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