Abag/Divulgação
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Empresas de táxi aéreo podem ganhar espaço com venda avulsa de assentos

Aeronaves executivas poderão oferecer linhas alternativas em regiões não atendidas pela aviação comercial; setor aponta que pandemia fez crescer o interesse pela opção

Cristian Favaro, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 09h30

Após o debate que durou cerca de dois anos, o setor de aviação executiva conseguiu a liberação para vender assentos de forma avulsa nas aeronaves. A medida, considerada uma vitória contra os "voos batendo lata" (ou seja, quando a aeronave volta vazia de seu destino), tem o poder de fomentar até linhas alternativas em regiões não atendidas pela aviação comercial. Empresários agora fazem planos para o futuro e alguns grupos já começaram até a anunciar passagens na internet.

Por causa da pandemia e as limitações de transporte aéreo no País, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aprovou emergencialmente novas regras para que empresas de táxi aéreo possam vender assentos individuais para passageiros. A decisão foi aprovada pela Diretoria Colegiada da Anac no dia 4 e publicada no Diário Oficial da União (DOU) na última sexta-feira, 7.

Com a permissão, as empresas de táxi aéreo certificadas pelo Regulamento Brasileiro de Aviação Civil (RBAC nº 135) poderão vender bilhetes aéreos para até 15 voos por semana e em aeronaves com até 19 assentos. A regulamentação vale até 7 de agosto de 2022.

Em 45 dias, o setor já deve iniciar as audiências públicas com o regulador para desenhar as regras que vão prevalecer após esse prazo. Entre os pontos que o setor quer debater, por exemplo, estão a quantidade de voos por semana e a limitação de passageiros, além de como regras da aviação comercial vão se aplicar ao novo modelo.

Segundo o diretor da Associação Brasileira de Aviação Geral (ABAG), Flavio Pires, a liberação veio em um momento importante para o País, com muitas cidades ilhadas com a pandemia e seus reflexos na aviação comercial. Apesar de não haver na legislação impedimento da venda avulsa, Pires diz que diversas dúvidas afastavam o setor.

Hoje, o País tem cerca de 600 aeronaves registradas como táxi aéreo e 120 empresas operando no segmento. "Grupos maiores conseguem ter uma taxa de voos vazios de 15%. As pequenas, que representam 90% das empresas, são as que sofrem mais e chegam a ter 40% de decolagens vazias", afirma Pires.

Linhas alternativas

Com a mudança nas regras, o Brasil teria hoje a oportunidade de desenvolver linhas alternativas com a viação executiva. "A venda por assento cria a possibilidade de termos minilinhas regulares", diz Pires.

Segundo ele, antes de ser comprada pela Azul, a TwoFlex fretava voos para a Gol. A empresa, entretanto, não tinha espaço para vender parte da sua capacidade e negociar o restante das passagens, algo comum nos Estados Unidos, por exemplo. "A aérea maior pode agora fechar um acordo comprando parte da capacidade e a companhia de táxi aéreo pode oferecer o restante ao mercado", afirma. Para ele, há a oportunidade de aumentar a conectividade das cidades no País.

Thiago Alonso de Oliveira, CEO da JHSF, empresa que desenvolveu e controla o Catarina Aeroporto Executivo, em São Roque (SP), diz que a medida fomenta o setor. "Abre a possibilidade para que empresas de táxi aéreo exerçam o papel de conectar centenas de cidades não atendidas pelas grandes companhias aéreas, melhorando o serviço prestado aos passageiros, ajudando, inclusive no progresso econômico regional", disse.

O diretor-geral da Emar Taxi Aéreo, comandante Antonio Romeiro, vê uma oportunidade para reduzir seus custos e ampliar o negócio. Com sete helicópteros, a empresa voa principalmente atendendo a grupos do setor de petróleo e gás e também opera na região da Amazônia.

Com exceção dos fretamentos para as empresas, a principal ligação feita pelas aeronaves da Emar Taxi Aéreo hoje é Jacarepaguá para Búzios, no Rio de Janeiro. "Voamos com um modelo Sikorsky S-76, com capacidade para 12 passageiros. Antes da pandemia, eles faziam o trecho constantemente com a capacidade máxima", afirma. O problema é quando a aeronave precisava voltar e não tem passageiro. "Na volta, se eu tivesse lugar, não podia negociar." Vazio, o modelo S-76 representa prejuízo de US$ 2.800 por hora de voo.

Empresários e especialistas disseram que é difícil se apontar preços no setor, uma vez que é um mercado novo. Nos Estados Unidos é possível encontrar voos com custo até menor do que a aviação comercial, sobretudo para evitar "bater lata". A reportagem encontrou passagens, por exemplo, de Trancoso e Porto Seguro para Jundiaí por R$ 1.200 o assento.

A lei foi publicada no dia 4 e muitas empresas já começaram a se movimentar. É o caso da startup mineira FlyAdam. A empresa surgiu em março e faz a ponte entre clientes e fretadores de voos privados. A plataforma tem cadastrada hoje 150 aeronaves e é tocada por 11 pessoas.

Pandemia

Segundo o CEO da FlyAdam, Daniel Diniz, a pandemia fez crescer o interesse das pessoas em conhecer o transporte aéreo executivo. "Como as aéreas pararam de voar em muitas áreas, tivemos mais de 40 mil pesquisas de rotas no nosso aplicativo desde a inauguração", disse. O grupo se antecipou e pretende lançar nos próximos 10 dias um novo aplicativo, chamado AdamPool, que tem o objetivo de atender ao mercado de venda avulsa.

Ao lado da abertura, está a preocupação sobre o transporte clandestino de passageiros. Em fevereiro de 2019, o jornalista Ricardo Boechat morreu após o helicóptero em que viajava cair na Rodovia Anhanguera. A aeronave não tinha liberação para fazer táxi aéreo. A Anac disponibiliza o sistema Voe Seguro, que informa se a empresa está devidamente homologada e se as aeronaves estão certificadas para prestar o serviço. A plataforma pode ser acessada na internet ou por aplicativo em smartphones com sistema android e IOS.

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