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Wilton Júnior/Estadão
Na Petrobrás, Graça Foster, e na Sabesp, Dilma Pena: baixas da crise  Wilton Júnior/Estadão

Empresas do Ibovespa não têm mulheres no comando

Sem Graça Foster na Petrobrás e Dilma Pena na Sabesp, todas as companhias do principal índice da Bolsa brasileira passaram a ser lideradas por homens

Bianca Pinto Lima, Luiz Guilherme Gerbelli, Malena Oliveira , O Estado de S. Paulo

02 de março de 2015 | 10h39

Com a saída conturbada de Graça Foster da presidência da Petrobrás e de Dilma Pena do comando da Sabesp, as maiores empresas brasileiras de capital aberto passaram a ter apenas homens no comando dos negócios. Nenhuma das 64 companhias que compõem o principal índice de ações da Bolsa brasileira, o Ibovespa, tem mulheres no posto de presidente.

As duas executivas deixaram os cargos neste ano, em meio a crises que inviabilizaram suas gestões. Funcionária de carreira, Graça saiu em fevereiro, depois que desdobramentos da Operação Lava Jato impediram a divulgação do balanço auditado da estatal. Já Dilma Pena alegou problemas de saúde, após o agravamento da crise hídrica no Estado de São Paulo.

Nos conselhos de administração o cenário é um pouco diferente, mas não muito. Segundo levantamento feito pelo Estado, apenas metade das empresas do índice tem presença feminina. Ainda assim, elas são minoria e, em geral, fazem parte das famílias proprietárias.

"As empresas costumam ter a mesma proporção de homens e mulheres nos postos iniciais. Se imaginarmos uma pirâmide, a companhia vai ficando mais masculina", diz a especialista em economia do gênero e professora do Insper, Regina Madalozzo. Segundo ela, a ausência de modelos no topo e a falta de políticas que permitam conciliar vida pessoal e profissional explicam esse cenário.

Sócio da consultoria Strategy& e autor de um estudo global sobre mulheres CEOs, Carlos Gondim é menos pessimista. Para ele, o atual retrato do Ibovespa esconde uma tendência de alta na participação feminina. "A evolução depende de aspectos culturais, acesso à educação e nível de desenvolvimento das empresas. O Brasil segue a tendência mundial, mas a participação ainda é baixa", afirma.

 

O estudo deixa esses fatores evidentes: entre 2004 e 2013, apenas 1,7% dos CEOs eram mulheres, na média do grupo formado por Brasil, Rússia e Índia. Nos EUA e Canadá, o índice é de 3,2% e no Japão, não chega a 1%. Mas, segundo Gondim, isso vem mudando. O estudo prevê que em 2040 um terço de todos os CEOs que estiverem ingressando nos cargos serão do sexo feminino.

Alguns setores, no entanto, mostram-se mais resistentes do que outros. No Ibovespa, o segmento de construção e engenharia é o único que não tem mulheres no conselho de administração de nenhuma empresa. Globalmente, segundo a Strategy&, a indústria de materiais (que inclui desde produtos químicos até materiais de construção) teve o menor porcentual de presidentes do sexo feminino entre 2004 e 2013. Já Tecnologia da Informação lidera com a maior participação.

No contexto global, alguns casos se destacam, como o da engenheira americana Mary Barra, da GM, que quebrou paradigmas ao se tornar a primeira mulher a assumir o mais alto posto de uma montadora.

Cotas. Integrante do conselho de administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), a advogada Marta Viegas explica que o caminho escolhido por países como EUA e Suécia foi o estímulo gradual à participação feminina em cargos de gestão. Ao contrário da Noruega, que optou por cotas para mulheres no board, as empresas suecas apresentam equilíbrio semelhante entre homens e mulheres nos conselhos sem lançar mão dessa política. "É importante a preparação feminina desde os cargos de gerência", diz Marta.

O principal argumento de quem defende as cotas é o tempo necessário para que se alcance a igualdade de gêneros nos conselhos. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, seriam necessários 200 anos para equilibrar os quadros das empresas em nível mundial.

 

No Brasil, Luiza Trajano, dona do Magazine Luiza, é uma das defensoras das cotas. "Se não for assim, nem nossas filhas e nem mesmo nossas netas vão participar de conselhos." Liderado pela executiva, o grupo de trabalho Mulheres do Brasil vai enviar ao Congresso um projeto de lei que estabelece cotas em conselhos de administração de estatais e empresas de economia mista. O objetivo é que o sistema seja transitório, até 2033, e garanta ao menos 30% dos assentos a mulheres. 

Salários desiguais

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, revelam que o salário de admissão médio real dos trabalhadores masculinos avançou 47,96% entre 2003 e 2014, enquanto a remuneração feminina subiu 40,13%.

O comportamento do salário de homens e mulheres com carteira assinada têm se alternado ao longo desses anos. O crescimento da remuneração feminina foi maior em 2006, 2009, 2012 e 2014. Nos demais, os homens ficaram na liderança. 

"Quando as mulheres, no início da carreira, ganham menos do que os homens, é muito difícil que mais adiante elas recuperem essa diferença", afirma Regina Madalozzo, professora do Insper.

Pelo recorte estadual, a relação mais equilibrada entre homens e mulheres está no Acre. No ano passado, o salário feminino correspondeu a 95,76% do masculino. Embora seja o Estado mais igualitário, houve uma piora do quadro. Em 2013, as mulheres ganhavam mais do que os homens. O recuo foi fruto de uma redução de 7,85% no salário feminino em 2014.

Já a pior relação foi observada em Mato Grosso, onde a remuneração das mulheres corresponde a apenas 80,51% da masculina.

Compromisso mundial

A Organização das Nações Unidas (ONU) não quer deixar passar em branco as comemorações dos 20 anos da Quarta Conferência Mundial sobre as Mulheres - encontro histórico que ocorreu em Pequim, em 1995. Na época, o assunto ainda era tabu. O discurso da atriz Patricia Arquette, por exemplo, exigindo igualdade de salários na cerimônia do Oscar, seria improvável.

Mas as tarefas ainda estão inacabadas, ressaltou Hillary Clinton, em artigo recente da revista The Economist. A ex-secretária norte-americana de Estado vai discursar na abertura do evento anual de Princípios de Empoderamento da Mulher, em Nova York, dia 10 de março. O encontro, que reúne líderes e empresárias do mundo todo faz parte de uma ampla agenda de debates sobre o tema. O objetivo é fazer com que governos e empresas reafirmem os compromissos com a equidade de gênero e tracem estratégias.

 

"Enquanto não incluirmos os homens na discussão, não vamos avançar, pois são eles que comandam as grandes empresas", diz Margaret Groff, diretora financeira da Itaipu Binacional e uma das únicas brasileiras que participarão do encontro em Nova York. A hidrelétrica dobrou o porcentual de mulheres nos níveis gerenciais em sete anos, tem horários flexíveis e programas de mentoria para as executivas.

Para a gerente de programas da ONU Mulheres Brasil, Ana Carolina Querino, também é fundamental desconstruir as noções de competência enraizadas no ambiente empresarial. "Essa concepção de que o homem é mais racional, objetivo e bem preparado. Enquanto a mulher, um ser emocional, está mais apta a assumir postos que envolvam tarefas de cuidado."

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