Empresas do setor elétrico e teles dão sinais de insatisfação

Um "silêncio ensurdecedor" faz parte hoje da rotina das grandes concessionárias de serviços públicos, especialmente do setor elétrico e de telecomunicações. Muito dependentes das ações do governo, as empresas do setor emitem sinais de insatisfação explícitas quanto à atuação das autoridades brasileiras que regulam o setor. Entretanto, por medo de represálias, as reclamações ficam apenas nas rodas de conversas dos executivos, que temem vir a público colocar suas posições de forma mais aberta. O problema é que, ao contrário do período em que eram estatais, essas empresas hoje "precisam" dar satisfação ao público, especialmente aos credores e investidores que compram os suas ações nas bolsas de valores. Para elas, em sua maioria multinacionais, ter "boa imagem" é vital para os negócios. Muitas companhias não estão conseguindo honrar os seus compromissos financeiros e tem sido comum afirmações de fontes governamentais de que estariam cobrando "tarifas exorbitantes" dos seus clientes. O temor dos executivos é que se não explicarem a situação delicada em que vivem, as empresas que dirigem poderão perder o acesso ao mercado de capitais, agravando ainda mais os problemas financeiros. Incertezas no setor de telecomunicaçõesNo caso das empresas de telecomunicações há o sentimento de que houve, de fato, "quebra de contrato", quando o governo rejeitou o reajuste das tarifas com base no Índice Geral de Preços Disponibilidade Interna (IGP-DI), como estava fixado no contrato de concessão. Essa é a avaliação que as empresas do setor têm passado para os banqueiros e investidores internacionais. Até há duas semanas o setor acreditava que a opção pela "quebra de contrato" seria uma posição isolada do ministro das Comunicações, Miro Teixeira. Nos últimos dias, porém, passou a predominar a impressão de que isso já se tornou "posição de governo". As empresas já contabilizam declarações do ministro Ciro Gomes e até do chefe da Casa Civil, José Dirceu, contra as empresas de telecomunicações, além de diversos parlamentares em posições estratégicas. No governo, nem a Agência Nacional das Telecomunicações (Anatel) saiu a público em defesa das empresas do setor.Incertezas no setor elétricoAs empresas de energia elétrica, especialmente as distribuidoras, estão num período de "grande escuridão". Financeiramente fragilizadas, as empresas estão com dificuldades crescentes de acesso aos bancos e inseguras em planejar suas ações, já que as incertezas são muitas. As duas maiores distribuidoras de energia elétrica no País - a Eletropaulo e a Light - já tornaram públicas as dificuldades financeiras. No caso da Light nota-se algum movimento em busca de solução. O sócio estrangeiro, a estatal EDF francesa, parou de mandar dinheiro para a filial, mas contratou a Goldman Sachs para buscar uma solução. A AES, porém, emite sinais conflitantes e insinua que o governo brasileiro "estaria sufocando" a empresa. Os executivos consideram que a crise do setor elétrico é mais grave do que se imaginava. "Antes, a crise estava mais concentrada nas distribuidoras. Agora até as geradoras começam a ter problemas relevantes", observa um especialista do setor. Governo inoperanteAlém de criticar as concessionárias de serviços públicos, o governo estaria sendo incoerente, na avaliação dos executivos. Ao mesmo tempo que critica a correção das tarifas de telefonia pelo IGP-DI, o próprio governo festejou o lançamento do edital de licitação para a construção de linhas de transmissão no dia primeiro de julho. O evento contou com a presença do próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, além da ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff.

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