SILVIO AVILA / AFP
Um funcionário usando equipamento de proteção desinfeta um shopping como medida preventiva contra o coronavírus COVID-19 em Caxias do Sul. SILVIO AVILA / AFP

Empresas enfrentam 2º trimestre com resultados ruins e se preparam para o pós-pandemia

Nos meses mais afetados pelas medidas de isolamento social projeção é de que somente alguns setores, como os ligados a alimentação, medicamento, e-commerce e exportação, apresentarão bons números

Fernanda Guimarães, Circe Bonatelli, Luciana Collet e Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 14h00

O retrato das companhias no fim de março envelheceu muito rapidamente com a pandemia de covid-19. Embora os primeiros efeitos da crise estejam refletidos nos resultados, as empresas começaram a mudar os rumos dos negócios. No geral, entre os setores mais afetados, a mensagem é de que o segundo trimestre será muito ruim em termos de resultados, salvo raras exceções, como farmácias, supermercados, e-commerce e os ligados à exportação. 

"Os resultados desse trimestre estão servindo para mostrar como as empresas estão se posicionando para atravessar a pandemia. O impacto maior para as empresas será no segundo trimestre", afirma a analista de ações da XP Investimentos, Betina Roxo.

Nas empresas mais afetadas pela crise, a pandemia e as medidas de isolamento pegarão em cheio o segundo trimestre e os efeitos financeiros, a serem observados na próxima temporada de resultados, devem ser muito maiores. "Entre os setores que podem demorar a se recuperar, listamos o turismo e o aéreo, pelo fato de as companhias estarem com a maior parte da frota parada e sem previsão de retomada no patamar anterior à pandemia, o que pode vir a acontecer apenas a partir do segundo semestre de 2021", diz o analista da Toro Investimentos, Lucas Carvalho.

Mais importantes do que os números passados, as empresas preocuparam-se em mostrar o que estão fazendo em transformar o negócio para o futuro. Os varejistas têm adiantado números relacionados a vendas do segundo trimestre nas teleconferências desta temporada de balanços. Virou prática comum para mostrar resiliência na crise e avanços nas estratégias digitais.

O GPA, por exemplo, disse que o crescimento do e-commerce em abril e maio tem sido superior ao do primeiro trimestre, que registrou alta de 82%. Além disso, afirmou que as margens do segundo trimestre podem ser maiores que nos três primeiros meses do ano, durante entrevista após a divulgação de resultados.

"Empresas ligadas a bens essenciais, como alimentos e medicamentos, devem conseguir apresentar bons resultados no cenário pós-covid. As empresas exportadoras, com a recuperação dos preços da celulose e a resiliência dos preços de minério, por exemplo, e o dólar valorizado ante o real, são outro setor interessante. Empresas que possuem boa estrutura de vendas online, da mesma forma, conseguem minimizar os impactos no faturamento da venda física", diz Lucas Carvalho, analista da Toro.

O setor de shopping centers tende a sentir aumento da inadimplência dos lojistas e possíveis devoluções de pontos comerciais, com elevação da vacância. Pelo lado positivo, as empresas têm uma posição de caixa confortável, com um volume baixo de vencimentos no curto prazo.

No setor elétrico, o impacto da covid-19 ainda não se refletiu de maneira significativa no desempenho do primeiro trimestre. Embora as medidas de combate à disseminação da doença adotadas na maior parte do País tenham sido sentidas de imediato na redução do consumo de energia, por uma questão de ciclo de faturamento, os números de janeiro a março não mostram redução de receita com as vendas de energia.

Algumas elétricas, no entanto, optaram por já antecipar dados do segundo trimestre e mostraram como têm se preparado para a pressão que a esperada redução de receita trará. A Light, por exemplo, informou queda de 15% no seu mercado faturado de abril ante igual mês de 2019. Considerada a distribuidora de energia com um dos mercados mais complexos do País no que diz respeito a combate a furtos de energia e inadimplência, a empresa elevou em quase 70% suas provisões para Crédito de Liquidação Duvidosa. 

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Quatro empresas brasileiras registram no 1º trimestre prejuízos entre os maiores da história

Segundo levantamento da consultoria Economatica, o resultado ainda não foi causado pelo travamento da economia, com a pandemia, mas por seus efeitos colaterais, como a alta do dólar

Fernanda Guimarães, Circe Bonatelli, Fabiana Holtz e Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 14h00

A pandemia de covid-19 afetou a economia brasileira apenas nas últimas duas semanas de março, mas, mesmo assim, quatro grandes empresas brasileiras - Petrobrás, Suzano, Azul e JBS - tiveram um trimestre que entrou para os 20 maiores prejuízos nominais da história, segundo a consultoria Economatica. O resultado ainda não foi causado pelo travamento da economia, mas sim por seus efeitos colaterais (como a valorização do dólar) e a antecipação do que pode vir a acontecer. 

Mais do que os números do trimestre em si, os balanços têm sido importantes para identificar os primeiros sinais da crise, segundo Betina Roxo, analista de ações da XP Investimentos. É um olhar menos para o passado e mais para o que virá pela frente. A temporada de balanços ainda não chegou ao fim, visto que o período legal para divulgação dos demonstrativos financeiros foi estendido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por conta da pandemia.

Pelos balanços das empresas de capital aberto divulgados até agora já é possível perceber que o impacto não chegou de maneira uniforme a todos os setores. Mas algumas iniciativas foram comum a todas: preservação de caixa e planejamento dos negócios para a atuação em modo de contingência. Isso envolveu corte de investimento, busca por linhas de crédito e renegociação de dívidas.

Empresas com endividamento em dólar sofreram com efeitos financeiros, mesmo que ainda não batendo no caixa, como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que viu sua dívida saltar 27%, para R$ 32,8 bilhões, acendendo o sinal amarelo de analistas de mercado.

Outras tiveram de revisar o preço de seus ativos, por meio de ajustes contábeis, caso da Petrobrás. O prejuízo da petroleira entre janeiro e março, de R$ 48,5 bilhões, foi o maior prejuízo nominal já registrado por uma empresa de capital aberto na história da Bolsa brasileira, segundo a Economatica.

Dentre os setores mais afetados até aqui, sem dúvida, está o aéreo, que enfrentou uma queda brusca no número de voos. As negociações passaram a envolver um pacote de socorro com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e bancos privados. No mesmo sentido, a fabricante de aeronaves Embraer sentiu a demanda minguar e teve, ainda, os planos de negócio com a Boeing frustrados pela rescisão por parte da norte-americana, aumentando os desafios no futuro.

Outro setor que viu os desafios crescerem foi o de varejo não alimentício. Grande parte das lojas foi fechada - e as que abriram viram poucos consumidores. A Via Varejo, por exemplo, que já vinha priorizando a estratégia digital, teve de acelerar seus planos. Em busca de caixa para atravessar o período, a empresa contratou bancos para lançar, ainda este mês, uma oferta subsequente de ações (follow on) de R$ 5 bilhões.

Por outro lado, dentre os setores mais bem posicionados, estão aqueles com base na tecnologia e no comércio eletrônico, varejistas alimentares e as exportadoras, muito beneficiadas com o dólar beirando os R$ 6. Por ordem, casos de B2W, GPA e Carrefour e Vale.

"Os resultados mais desafiadores acontecerão ao longo dos próximos meses", afirma Lucas Carvalho, analista da Toro Investimentos. "O primeiro trimestre 'capta' parcialmente os efeitos da pandemia e seus consequentes impactos econômicos."

Busca por liquidez

Em comum entre os setores, esteve a busca por liquidez. A siderúrgica Gerdau, por exemplo, cortou 40% dos investimentos programados para este ano. Por ora, eles ficaram em R$ 1,6 bilhão. "Diante das incertezas, passamos a ser mais conservadores na aprovação de projetos e paralisamos obras", afirmou o presidente da Gerdau, Gustavo Werneck, em teleconferência, após a divulgação dos resultados.

Até mesmo as redes de supermercados, que vivem momento positivo, decidiram reforçar o cofre. O GPA foi discreto e contratou nova linha de crédito no fim de abril, em um total de R$ 500 milhões, com vencimento em dois anos. O Carrefour contratou linha de R$ 1,5 bilhão em crédito logo no início da pandemia. "Se a crise piorar, temos dinheiro barato e não precisamos mais (tomar dinheiro emprestado) até o fim do ano", disse Sebastien Durchon, diretor financeiro da companhia.

Ainda no varejo, mas no setor de beleza e cosméticos, a Natura &CO aprovou um plano de aumento de capital de até R$ 2 bilhões. O objetivo também foi reforçar o caixa, mas a estratégia foi captar dinheiro mais barato, já que as condições de crédito no mercado estão menos favoráveis.

No setor de telecomunicações, os balanços de Telefônica, TIM e Claro mostraram que a pandemia do coronavírus afetou o faturamento com recarga de celulares pré-pagos e venda de aparelhos, atividades que dependem de lojas abertas. No entanto, esse efeito negativo começou a ser revertido ao longo de abril, com a reabertura do comércio em algumas regiões do País. 

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