Empresas investem em universidade e escola própria para formar profissionais

Carência de mão de obra especializada leva empregadores a criar instituições de ensino, replicando uma estratégia bem-sucedida em países como os EUA e a Alemanha; movimento é descrito como employer U

Juliana Pio - O Estado de S.Paulo

A escassez de mão de obra em algumas áreas, como a de tecnologia, tem levado grandes empresas a apostar numa nova estratégia para formar seus profissionais de acordo com suas necessidades. Seguindo uma tendência bem-sucedida nos Estados Unidos, na Alemanha e na Áustria, elas investem em iniciativas próprias de educação, como faculdades ou escolas técnicas, certificadas pelo Ministério da Educação (MEC). Na lista de companhias que aderiram a esse conceito estão o Hospital Israelita Albert Einstein, BTG, Weg e XP, que lançou na semana passada a Faculdade XP.

O objetivo é criar programas de formação que integram o aprendizado ao trabalho, na tentativa de ampliar a qualificação profissional e atrair talentos. Esse movimento é crescente e tem nome, Employer U ou employer university (na tradução livre, universidade conectada ao empregador). Sua origem converge, porém, com o conceito de educação corporativa à medida que o ensino entra para o leque de benefícios das empresas e figura entre os compromissos ESG (na sigla em inglês, princípios ambientais, sociais e de governança). 

Kaymon de Paula Rodrigues Silva, de 19 anos, cursou o ensino médio integrado à Escola Técnica de Enfermagem do Ensino Einstein e foi contratado para atuar no centro cirúrgico.  Foto: Taba Benedicto/Estadão

Enquanto os empregadores capacitam pessoas já integradas à sua cultura organizacional, os alunos colocam em prática o que aprendem em sala de aula e têm acesso mais cedo ao mercado de trabalho. Foi o que ocorreu com Kaymon de Paula Rodrigues Silva, de 19 anos, que conquistou seu primeiro emprego em maio, após integrar a turma inicial do ensino médio integrado à Escola Técnica de Enfermagem do Hospital Israelita Albert Einstein.

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Quando completou o terceiro ano do curso, em 2021, o jovem iniciou estágio em unidades administradas pelo Einstein. Hoje, formado e registrado no Conselho Regional de Enfermagem (Coren), é funcionário do centro cirúrgico, no bairro do Morumbi. "Pretendo cursar medicina. Me vejo em vantagem, porque já sei como é atuar dentro de um hospital”, destaca. 

Entre os formandos do Curso Técnico de Enfermagem do Ensino Einstein em 2020, 84% foram empregados até o final do ano passado, sendo 80% deles contratados internamente nos locais onde a organização faz a gestão. Ao todo, o sistema administra 27 unidades públicas e 13 no setor privado, onde os alunos dos cursos de formação profissional têm estágios garantidos pela escola.

“Num ensino integrado ao empregador, as necessidades das empresas e competências, como habilidades comportamentais (soft skills), são valorizadas. O profissional se forma dentro da cultura da instituição ou do universo em que vai ser inserido, o que aumenta a empregabilidade”, diz Blaidi Sant’Anna, gerente do ensino médio e técnico do Ensino Einstein. 

Para esse ano, o sistema vai dobrar a oferta de cursos de graduação. Além das formações em Medicina, Enfermagem e Fisioterapia, entram na grade Administração de Organizações de Saúde, Engenharia Biomédica e Odontologia. “Não é uma competição com universidades e, sim, uma contribuição do setor que emprega para a educação. Formamos pessoas para o mercado”, comenta Sant'Anna. 

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'Guerra global por talentos está alimentando tendência de employer u', diz especialista em educação

Brandon Busteed usa o termo para descrever a tendência de novos programas de graduação que estão diretamente alinhados aos empregadores

Juliana Pio - O Estado de S.Paulo

A criação da Faculdade XP, anunciada no último dia 27, trouxe à tona um conceito ainda incipiente no Brasil: de employer U ou employer university (na tradução livre, universidade conectada ao empregador).  A origem do termo converge com o conceito de educação corporativa e é descrita por Brandon Busteed como a ideia é combinar um diploma com experiências e habilidades relevantes para a carreira.

Em entrevista ao Estadão, o especialista em educação é taxativo ao dizer que esse é o futuro não apenas da educação profissional, mas de 'toda' a educação. "A guerra global por talentos, mais a crescente lacuna de habilidades combinada com dúvidas sobre a prontidão para o trabalho dos graduados universitários, está alimentando essa tendência (de employer U)", diz Busteed. Confira abaixo a conversa com o especialista, que é diretor de parcerias e líder global de inovação do aprendizado do trabalho da Kaplan, empresa global de serviços educacionais. 

Brandon Busteed, diretor de parcerias e líder global de inovação do aprendizado do trabalho da Kaplan, empresa global de serviços educacionais. Foto: Divulgação/Kaplan

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O que é o conceito employer U?

Employer U é um termo que usei para descrever a tendência de novos programas de graduação que estão diretamente alinhados aos empregadores ou incorporados ao setor que emprega de alguma forma. Existem várias interações disso, mas o tema é sobre alinhar melhor os diplomas ao que os graduados farão no trabalho.

É uma tendência que vem crescendo no mercado em geral ou apenas em setores específicos, como o de tecnologia?

Não é generalizado, mas um número crescente de universidades está fazendo parcerias com empregadores para criar esses tipos de programas. Há também uma convergência com o crescente movimento de educação como benefício, no qual os empregadores estão fazendo parcerias mais estreitas com as universidades para oferecer diplomas a seus funcionários.

E o que motivou o seu crescimento?

A guerra global por talentos, mais a crescente lacuna de habilidades, combinada com dúvidas sobre a prontidão para o trabalho dos graduados universitários, está alimentando essa tendência.

Quais os benefícios do employer U para a carreira profissional? 

Uma das grandes críticas ao ensino superior é que ele não é relevante e não prepara os alunos para empregos e carreiras. O benefício de um aprendizado mais integrado ao trabalho é que os graduados podem começar a trabalhar rapidamente. Este é um ganha-ganha para o graduado e para o empregador.

Você acha que pode haver uma competição entre empregadores e universidades ou acarretar em uma queda na qualidade do ensino? 

Existem cursos de alta qualidade e também o curso ocasional de muito baixa qualidade em quase todos os campos universitários. O mesmo pode ser verdade para programas desenvolvidos por empregadores. Mas quando as universidades e os empregadores colaboram no currículo, é, em média, pedagogicamente mais sólido e relevante para a carreira do que quando feito individualmente.

Em que o employer u difere das universidades corporativas e da educação corporativa convencional? 

A ideia é combinar um diploma com experiência e habilidades relevantes para a carreira. É um modelo “ambos/e”, não um modelo “ou/ou”.

Você acredita que esse é o futuro da educação profissional?

Não é o futuro da educação profissional. É o futuro de toda a educação. Nas faculdades, a história do futuro será sobre o aprendizado integrado ao trabalho. Para os empregadores, o futuro será sobre o trabalho integrado à aprendizagem.

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Apesar do alto desemprego, falta gente habilitada para postos-chave nas empresas

Escolas tradicionais não têm acompanhado o ritmo de mudança nas empresas, afirma o presidente da XP Educação; empresas apostam em ensino que aliam conhecimentos técnicos, comportamentais e experiência prática

Juliana PIo - O Estado de S.Paulo

O Brasil vive um contrassenso. Ao mesmo tempo em que o País soma cerca de 10,6 milhões de desempregados, as empresas reclamam da dificuldade para conseguir preencher vagas essenciais devido à escassez de talentos com as habilidades necessárias. A leitura do mercado é que o ritmo de mudança das empresas tem sido mais acelerado do que as instituições educacionais têm conseguido captar, afirma o CEO da XP Educação, Paulo de Tarso.

O relatório Tendências de Gestão de Pessoas em 2022 do Great Place to Work (GPTW) indica que 59,5% dos 2.654 entrevistados afirmaram que as organizações pretendem aumentar o número de pessoas esse ano. Entretanto, 68,3% sentem dificuldade para contratar profissionais. Ainda segundo a pesquisa, entre as habilidades apontadas pelas empresas como as mais importantes estão a capacidade de resolver problemas complexos, de liderar e influenciar, e a resiliência.

Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), em São Paulo, fruto de idealização de sócios do banco BTG Pactual, oferece quatro graduações em tecnologia. Foto: Rafael Von Zuben

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“Talvez seja essa a dificuldade ao contratar: encontrar pessoas com o pacote completo, ou seja, com habilidades técnicas exigidas pela rotina de trabalho somadas às comportamentais necessárias para lidar com os novos desafios do mercado”, sugere Tatiane Tiemi, Co-CEO do Great Place to Work Brasil.

É nesse cenário que emerge o conceito ‘employer U’, descrito pelo especialista em educação Brandon Busteed. Ele explica à reportagem que a ideia é combinar um diploma com experiências e habilidades relevantes para a carreira. “O futuro de toda a educação envolve o aprendizado integrado ao trabalho. Quando as universidades e os empregadores colaboram no currículo, é, em geral, pedagogicamente mais sólido e relevante para a carreira do que quando feito individualmente”, diz o diretor de parcerias e líder global de inovação do aprendizado do trabalho da Kaplan, empresa global de serviços educacionais. 

O modelo serviu de inspiração para a criação da Faculdade XP. “Queremos que a empresa seja o grande campo de prática dos alunos”, ressalta Paulo de Tarso. Com foco na formação de talentos tanto para o quadro interno quanto para o mercado de trabalho, a iniciativa, que teve investimento de R$ 100 milhões, prevê cinco graduações em tecnologia de graça, além de cursos de pós-graduação e de curta duração pagos. Ao final, o aluno sai com diploma licenciado pelo Ministério da Educação (MEC). A expansão acontece sete meses depois da compra da faculdade IGTI (Instituto de Gestão e Tecnologia da Informação).

“O conceito de employer U não é tão recente quando olhamos para outros benchmarks, mas tem ficado mais forte por meio do setor de tecnologia devido ao grande desequilíbrio entre oferta e demanda de mão de obra”, destaca Tarso. Em sua visão, hoje, um dos maiores problemas corporativos é a falta de profissionais recém-formados realmente capacitados para a realidade do trabalho.

Paulo de Tarso, CEO da XP Educação. Foto: Vivian Koblinsky

Aprendizado com desafios reais 

Não por acaso, o Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), localizado no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo, estreou as atividades letivas em fevereiro deste ano com quatro tipos de graduação superior na área de tecnologia, orientadas por projetos e que integram ao currículo acadêmico competências de computação (70%), negócios (20%) e liderança (10%).

A faculdade, sem fins lucrativos, é fruto de idealização de sócios do banco BTG Pactual, incluindo Roberto Sallouti, e de doação de R$ 200 milhões da família de André Esteves. A aprendizagem é focada no desenvolvimento de competências a partir de desafios propostos por parceiros de mercado. Entre os selecionados no primeiro semestre, estão: Ambev, BTG Pactual, Hotel Urbano, Yamaha, Falconi, Faculdade de Medicina da USP, além das ONGs Projeto Constituição na Escola, Projeto Revirar e do próprio Inteli.

“Ao longo de quatro anos, os alunos desenvolvem projetos para solucionar problemas reais de diferentes empresas, por meio de protótipos funcionais de tecnologia, unindo a experiência acadêmica às demandas do mundo corporativo”, conta a CEO do Inteli, Maíra Habimorad. 

Atualmente, a Inteli conta com 170 alunos matriculados de 63 cidades de todas as regiões do País. Desses, 50% recebem bolsas, viabilizadas a partir de doações de empresas, fundações e pessoas físicas. Alguns estudantes ainda contam com auxílios de moradia e alimentação, curso de inglês e equipamentos (notebook), de acordo com a necessidade. 

Os estágios começam a partir do terceiro ano. “Mas já temos estudantes sendo requisitados desde o primeiro período”, comemora Maíra. Ao final, é possível escolher entre três trilhas para definição do plano de carreira: empreendedora, acadêmica ou mercado. “Queremos formar futuros líderes para o Brasil independentemente das suas escolhas”, garante a especialista. 

OCentroWEG, em Jaraguá do Dulce, Santa Catarina, é um programa de qualificação para aprendizes desenvolvido pela Weg em convênio com o Senai. Foto: Adriano Ferreira

Empregabilidade e negócio de valor

Precursora de modelos corporativos de desenvolvimento, a Embraer tem 96% de empregabilidade no Programa de Especialização em Engenharia (PEE), que prevê um Mestrado Profissional do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). A formação completou 20 anos em 2021 e já contemplou 1.600 pessoas. Este ano, a empresa iniciou a primeira turma do novo Programa de Especialização em Software, uma parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 

O índice de contratação também é alto entre programas de formação com foco em jovens em situação de vulnerabilidade, tais como Programa Formare, CentroWEG e Alpha Edtech, os quais garantem, respectivamente ao final da capacitação, certificação da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e Instituto Alpha Lumen.

Cerca de 45 empresas em todo o Brasil, como 3M, L'oréal, Siemens, Maxion, Suzano e Volkswagen, investem no Formare. A taxa de empregabilidade do programa é de 93% e 65% dos participantes ingressam em uma graduação posteriormente. Já a Weg, fabricante de motores elétricos, absorve 100% dos seus alunos, assim como a Alpha Edtech, por meio das empresas parceiras, como Stone, Hash, Brex, Vitta e Farfetch. 

A Embraer alcançou 96% de empregabilidade ao longo dos 20 anos do Programa de Especialização em Engenharia (PEE), uma parceria com o ITA. Foto: Divulgação/Embraer

Entre as companhias que investem em educação, há as que já observam efeitos externos, tais como: melhoria na qualidade dos produtos, serviços e atendimento (90%); melhoria da imagem institucional (84%); atração de talentos (73%); e expansão dos negócios da empresa (51%). Os dados são da 5ª Pesquisa Nacional de Práticas e Resultados da Educação Corporativa, da Fundação Instituto de Administração (FIA), com participação de 63 organizações. 

Ao mesmo tempo em que preparam pessoas para o mercado, as organizações, a exemplo de IBM, Ambev, Microsoft, Amazon, Petrobrás etc., agregam valor ao negócio ao estruturarem universidades, escolas ou cursos a partir das próprias competências estratégicas. 

“O investimento das organizações no ensino não é uma prática nova, mas vem crescendo e ficando cada vez mais abrangente e sofisticado”, explica Marisa Eboli, especialista em educação corporativa e professora da FIA. Parte da preocupação com a empregabilidade, diante da globalização e dos avanços tecnológicos. "Está caindo a ficha de que precisamos de mão de obra qualificada, esteja ela dentro da minha empresa ou não”, finaliza. 

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Empresas investem em universidade e escola própria para formar profissionais

Carência de mão de obra especializada leva empregadores a criar instituições de ensino, replicando uma estratégia bem-sucedida em países como os EUA e a Alemanha; movimento é descrito como employer U

Juliana Pio - O Estado de S.Paulo

A escassez de mão de obra em algumas áreas, como a de tecnologia, tem levado grandes empresas a apostar numa nova estratégia para formar seus profissionais de acordo com suas necessidades. Seguindo uma tendência bem-sucedida nos Estados Unidos, na Alemanha e na Áustria, elas investem em iniciativas próprias de educação, como faculdades ou escolas técnicas, certificadas pelo Ministério da Educação (MEC). Na lista de companhias que aderiram a esse conceito estão o Hospital Israelita Albert Einstein, BTG, Weg e XP, que lançou na semana passada a Faculdade XP.

O objetivo é criar programas de formação que integram o aprendizado ao trabalho, na tentativa de ampliar a qualificação profissional e atrair talentos. Esse movimento é crescente e tem nome, Employer U ou employer university (na tradução livre, universidade conectada ao empregador). Sua origem converge, porém, com o conceito de educação corporativa à medida que o ensino entra para o leque de benefícios das empresas e figura entre os compromissos ESG (na sigla em inglês, princípios ambientais, sociais e de governança). 

Kaymon de Paula Rodrigues Silva, de 19 anos, cursou o ensino médio integrado à Escola Técnica de Enfermagem do Ensino Einstein e foi contratado para atuar no centro cirúrgico.  Foto: Taba Benedicto/Estadão

Enquanto os empregadores capacitam pessoas já integradas à sua cultura organizacional, os alunos colocam em prática o que aprendem em sala de aula e têm acesso mais cedo ao mercado de trabalho. Foi o que ocorreu com Kaymon de Paula Rodrigues Silva, de 19 anos, que conquistou seu primeiro emprego em maio, após integrar a turma inicial do ensino médio integrado à Escola Técnica de Enfermagem do Hospital Israelita Albert Einstein.

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Quando completou o terceiro ano do curso, em 2021, o jovem iniciou estágio em unidades administradas pelo Einstein. Hoje, formado e registrado no Conselho Regional de Enfermagem (Coren), é funcionário do centro cirúrgico, no bairro do Morumbi. "Pretendo cursar medicina. Me vejo em vantagem, porque já sei como é atuar dentro de um hospital”, destaca. 

Entre os formandos do Curso Técnico de Enfermagem do Ensino Einstein em 2020, 84% foram empregados até o final do ano passado, sendo 80% deles contratados internamente nos locais onde a organização faz a gestão. Ao todo, o sistema administra 27 unidades públicas e 13 no setor privado, onde os alunos dos cursos de formação profissional têm estágios garantidos pela escola.

“Num ensino integrado ao empregador, as necessidades das empresas e competências, como habilidades comportamentais (soft skills), são valorizadas. O profissional se forma dentro da cultura da instituição ou do universo em que vai ser inserido, o que aumenta a empregabilidade”, diz Blaidi Sant’Anna, gerente do ensino médio e técnico do Ensino Einstein. 

Para esse ano, o sistema vai dobrar a oferta de cursos de graduação. Além das formações em Medicina, Enfermagem e Fisioterapia, entram na grade Administração de Organizações de Saúde, Engenharia Biomédica e Odontologia. “Não é uma competição com universidades e, sim, uma contribuição do setor que emprega para a educação. Formamos pessoas para o mercado”, comenta Sant'Anna. 

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'Guerra global por talentos está alimentando tendência de employer u', diz especialista em educação

Brandon Busteed usa o termo para descrever a tendência de novos programas de graduação que estão diretamente alinhados aos empregadores

Juliana Pio - O Estado de S.Paulo

A criação da Faculdade XP, anunciada no último dia 27, trouxe à tona um conceito ainda incipiente no Brasil: de employer U ou employer university (na tradução livre, universidade conectada ao empregador).  A origem do termo converge com o conceito de educação corporativa e é descrita por Brandon Busteed como a ideia é combinar um diploma com experiências e habilidades relevantes para a carreira.

Em entrevista ao Estadão, o especialista em educação é taxativo ao dizer que esse é o futuro não apenas da educação profissional, mas de 'toda' a educação. "A guerra global por talentos, mais a crescente lacuna de habilidades combinada com dúvidas sobre a prontidão para o trabalho dos graduados universitários, está alimentando essa tendência (de employer U)", diz Busteed. Confira abaixo a conversa com o especialista, que é diretor de parcerias e líder global de inovação do aprendizado do trabalho da Kaplan, empresa global de serviços educacionais. 

Brandon Busteed, diretor de parcerias e líder global de inovação do aprendizado do trabalho da Kaplan, empresa global de serviços educacionais. Foto: Divulgação/Kaplan

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Employer U é um termo que usei para descrever a tendência de novos programas de graduação que estão diretamente alinhados aos empregadores ou incorporados ao setor que emprega de alguma forma. Existem várias interações disso, mas o tema é sobre alinhar melhor os diplomas ao que os graduados farão no trabalho.

É uma tendência que vem crescendo no mercado em geral ou apenas em setores específicos, como o de tecnologia?

Não é generalizado, mas um número crescente de universidades está fazendo parcerias com empregadores para criar esses tipos de programas. Há também uma convergência com o crescente movimento de educação como benefício, no qual os empregadores estão fazendo parcerias mais estreitas com as universidades para oferecer diplomas a seus funcionários.

E o que motivou o seu crescimento?

A guerra global por talentos, mais a crescente lacuna de habilidades, combinada com dúvidas sobre a prontidão para o trabalho dos graduados universitários, está alimentando essa tendência.

Quais os benefícios do employer U para a carreira profissional? 

Uma das grandes críticas ao ensino superior é que ele não é relevante e não prepara os alunos para empregos e carreiras. O benefício de um aprendizado mais integrado ao trabalho é que os graduados podem começar a trabalhar rapidamente. Este é um ganha-ganha para o graduado e para o empregador.

Você acha que pode haver uma competição entre empregadores e universidades ou acarretar em uma queda na qualidade do ensino? 

Existem cursos de alta qualidade e também o curso ocasional de muito baixa qualidade em quase todos os campos universitários. O mesmo pode ser verdade para programas desenvolvidos por empregadores. Mas quando as universidades e os empregadores colaboram no currículo, é, em média, pedagogicamente mais sólido e relevante para a carreira do que quando feito individualmente.

Em que o employer u difere das universidades corporativas e da educação corporativa convencional? 

A ideia é combinar um diploma com experiência e habilidades relevantes para a carreira. É um modelo “ambos/e”, não um modelo “ou/ou”.

Você acredita que esse é o futuro da educação profissional?

Não é o futuro da educação profissional. É o futuro de toda a educação. Nas faculdades, a história do futuro será sobre o aprendizado integrado ao trabalho. Para os empregadores, o futuro será sobre o trabalho integrado à aprendizagem.

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Apesar do alto desemprego, falta gente habilitada para postos-chave nas empresas

Escolas tradicionais não têm acompanhado o ritmo de mudança nas empresas, afirma o presidente da XP Educação; empresas apostam em ensino que aliam conhecimentos técnicos, comportamentais e experiência prática

Juliana PIo - O Estado de S.Paulo

O Brasil vive um contrassenso. Ao mesmo tempo em que o País soma cerca de 10,6 milhões de desempregados, as empresas reclamam da dificuldade para conseguir preencher vagas essenciais devido à escassez de talentos com as habilidades necessárias. A leitura do mercado é que o ritmo de mudança das empresas tem sido mais acelerado do que as instituições educacionais têm conseguido captar, afirma o CEO da XP Educação, Paulo de Tarso.

O relatório Tendências de Gestão de Pessoas em 2022 do Great Place to Work (GPTW) indica que 59,5% dos 2.654 entrevistados afirmaram que as organizações pretendem aumentar o número de pessoas esse ano. Entretanto, 68,3% sentem dificuldade para contratar profissionais. Ainda segundo a pesquisa, entre as habilidades apontadas pelas empresas como as mais importantes estão a capacidade de resolver problemas complexos, de liderar e influenciar, e a resiliência.

Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), em São Paulo, fruto de idealização de sócios do banco BTG Pactual, oferece quatro graduações em tecnologia. Foto: Rafael Von Zuben

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É nesse cenário que emerge o conceito ‘employer U’, descrito pelo especialista em educação Brandon Busteed. Ele explica à reportagem que a ideia é combinar um diploma com experiências e habilidades relevantes para a carreira. “O futuro de toda a educação envolve o aprendizado integrado ao trabalho. Quando as universidades e os empregadores colaboram no currículo, é, em geral, pedagogicamente mais sólido e relevante para a carreira do que quando feito individualmente”, diz o diretor de parcerias e líder global de inovação do aprendizado do trabalho da Kaplan, empresa global de serviços educacionais. 

O modelo serviu de inspiração para a criação da Faculdade XP. “Queremos que a empresa seja o grande campo de prática dos alunos”, ressalta Paulo de Tarso. Com foco na formação de talentos tanto para o quadro interno quanto para o mercado de trabalho, a iniciativa, que teve investimento de R$ 100 milhões, prevê cinco graduações em tecnologia de graça, além de cursos de pós-graduação e de curta duração pagos. Ao final, o aluno sai com diploma licenciado pelo Ministério da Educação (MEC). A expansão acontece sete meses depois da compra da faculdade IGTI (Instituto de Gestão e Tecnologia da Informação).

“O conceito de employer U não é tão recente quando olhamos para outros benchmarks, mas tem ficado mais forte por meio do setor de tecnologia devido ao grande desequilíbrio entre oferta e demanda de mão de obra”, destaca Tarso. Em sua visão, hoje, um dos maiores problemas corporativos é a falta de profissionais recém-formados realmente capacitados para a realidade do trabalho.

Paulo de Tarso, CEO da XP Educação. Foto: Vivian Koblinsky

Aprendizado com desafios reais 

Não por acaso, o Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), localizado no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo, estreou as atividades letivas em fevereiro deste ano com quatro tipos de graduação superior na área de tecnologia, orientadas por projetos e que integram ao currículo acadêmico competências de computação (70%), negócios (20%) e liderança (10%).

A faculdade, sem fins lucrativos, é fruto de idealização de sócios do banco BTG Pactual, incluindo Roberto Sallouti, e de doação de R$ 200 milhões da família de André Esteves. A aprendizagem é focada no desenvolvimento de competências a partir de desafios propostos por parceiros de mercado. Entre os selecionados no primeiro semestre, estão: Ambev, BTG Pactual, Hotel Urbano, Yamaha, Falconi, Faculdade de Medicina da USP, além das ONGs Projeto Constituição na Escola, Projeto Revirar e do próprio Inteli.

“Ao longo de quatro anos, os alunos desenvolvem projetos para solucionar problemas reais de diferentes empresas, por meio de protótipos funcionais de tecnologia, unindo a experiência acadêmica às demandas do mundo corporativo”, conta a CEO do Inteli, Maíra Habimorad. 

Atualmente, a Inteli conta com 170 alunos matriculados de 63 cidades de todas as regiões do País. Desses, 50% recebem bolsas, viabilizadas a partir de doações de empresas, fundações e pessoas físicas. Alguns estudantes ainda contam com auxílios de moradia e alimentação, curso de inglês e equipamentos (notebook), de acordo com a necessidade. 

Os estágios começam a partir do terceiro ano. “Mas já temos estudantes sendo requisitados desde o primeiro período”, comemora Maíra. Ao final, é possível escolher entre três trilhas para definição do plano de carreira: empreendedora, acadêmica ou mercado. “Queremos formar futuros líderes para o Brasil independentemente das suas escolhas”, garante a especialista. 

OCentroWEG, em Jaraguá do Dulce, Santa Catarina, é um programa de qualificação para aprendizes desenvolvido pela Weg em convênio com o Senai. Foto: Adriano Ferreira

Empregabilidade e negócio de valor

Precursora de modelos corporativos de desenvolvimento, a Embraer tem 96% de empregabilidade no Programa de Especialização em Engenharia (PEE), que prevê um Mestrado Profissional do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). A formação completou 20 anos em 2021 e já contemplou 1.600 pessoas. Este ano, a empresa iniciou a primeira turma do novo Programa de Especialização em Software, uma parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 

O índice de contratação também é alto entre programas de formação com foco em jovens em situação de vulnerabilidade, tais como Programa Formare, CentroWEG e Alpha Edtech, os quais garantem, respectivamente ao final da capacitação, certificação da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e Instituto Alpha Lumen.

Cerca de 45 empresas em todo o Brasil, como 3M, L'oréal, Siemens, Maxion, Suzano e Volkswagen, investem no Formare. A taxa de empregabilidade do programa é de 93% e 65% dos participantes ingressam em uma graduação posteriormente. Já a Weg, fabricante de motores elétricos, absorve 100% dos seus alunos, assim como a Alpha Edtech, por meio das empresas parceiras, como Stone, Hash, Brex, Vitta e Farfetch. 

A Embraer alcançou 96% de empregabilidade ao longo dos 20 anos do Programa de Especialização em Engenharia (PEE), uma parceria com o ITA. Foto: Divulgação/Embraer

Entre as companhias que investem em educação, há as que já observam efeitos externos, tais como: melhoria na qualidade dos produtos, serviços e atendimento (90%); melhoria da imagem institucional (84%); atração de talentos (73%); e expansão dos negócios da empresa (51%). Os dados são da 5ª Pesquisa Nacional de Práticas e Resultados da Educação Corporativa, da Fundação Instituto de Administração (FIA), com participação de 63 organizações. 

Ao mesmo tempo em que preparam pessoas para o mercado, as organizações, a exemplo de IBM, Ambev, Microsoft, Amazon, Petrobrás etc., agregam valor ao negócio ao estruturarem universidades, escolas ou cursos a partir das próprias competências estratégicas. 

“O investimento das organizações no ensino não é uma prática nova, mas vem crescendo e ficando cada vez mais abrangente e sofisticado”, explica Marisa Eboli, especialista em educação corporativa e professora da FIA. Parte da preocupação com a empregabilidade, diante da globalização e dos avanços tecnológicos. "Está caindo a ficha de que precisamos de mão de obra qualificada, esteja ela dentro da minha empresa ou não”, finaliza. 

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