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Empresas mostram fraco desempenho

O faturamento das empresas com ações negociadas em bolsa teve no primeiro trimestre de 2002 o pior desempenho dos últimos três anos. Levantamento da consultoria Economática revela que a receita líquida de 201 companhias abertas somou R$ 67,341 bilhões no primeiro trimestre, com crescimento de 2,4% em relação a igual período do ano passado, já descontada a inflação medida pelo Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna (IGP-DI), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A decisão do governo de manter os juros elevados deve dificultar ainda mais a recuperação das vendas neste trimestre. "Foi a menor taxa de crescimento de receita líquida (descontados os tributos) desde o último trimestre de 1999", destaca o presidente da Economática, Fernando Exel. A consultoria avaliou o desempenho das grandes empresas de capital aberto que até a semana passada haviam divulgado o balanço consolidado. A amostra de 2001 inclui diversos setores, entre os quais alimentos, transportes, eletroeletrônicos e comércio, excluindo os bancos. O desempenho, segundo Exel, surpreendeu por ter sido inferior até mesmo ao registrado no segundo trimestre de 1999, logo depois da mudança do regime cambial. Nesse período, o faturamento desse conjunto de empresas teve crescimento real de 2,9% na comparação com o segundo trimestre de 1998. Mas, na sua opinião, esse desempenho poderia ter sido ainda mais fraco, caso não contasse com a boa performance das empresas de telecomunicações. De acordo com o estudo, o faturamento consolidado de 30 companhias desse setor cresceu 16,7% no primeiro trimestre deste ano, enquanto a indústria tradicional, representada por 125 empresas, conseguiu ampliar em apenas 0,62% suas vendas no período. Sem pimenta - Na avaliação da chefe do Departamento de Análises da Corretora Fator Doria Atherino, Lika Takahashi, os dados comprovam que a economia está crescendo menos que o esperado. "É o arroz com feijão de sempre, e não tem uma pimenta a mais que isso", ironiza a analista. Segundo ela, com a renda do consumidor contida, os juros elevados e o avanço do desemprego, o mercado interno continua travado, o que dificulta a expansão das vendas e a possibilidade de reajustes de preços. Para o economista Celso Toledo, da consultoria MCM, no entanto, o que chama a atenção na pesquisa é o crescimento da receita do conjunto dessas empresas. "Era de se esperar uma variação negativa, já que o primeiro trimestre do ano passado representa uma base de comparação elevada." A MCM trabalha com uma expectativa de queda de 1,1% para o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre. Já o economista-chefe do Lloyds TSB, Odair Abate, prevê retração de 1,4% para o PIB trimestral. "Se não houver uma sinalização forte de corte nos juros, o desempenho das empresas ficará abaixo do esperado neste ano", diz Abate. A pesquisa mostra que sete empresas do comércio varejista, juntas, tiveram uma redução de 2,3% nas vendas reais do trimestre. A Globex, holding do Ponto Frio, loja especializada em eletroeletrônicos, teve uma receita líquida de R$ 510,129 milhões, com queda real de 19% na comparação com os três primeiros meses do ano passado. "Além do aperto da renda e dos juros altos, as vendas de eletroeletrônicos foram afetadas pelo racionamento de energia", observa o gerente de análise da Corretora do Banco HSBC, Fernando Aoad. Ele ressalta que o racionamento só terminou no final de fevereiro, mas comprometeu o trimestre. No mesmo período de 2001 não houve essa restrição. A receita líquida da Guararapes, que controla a Lojas Riachuelo, apresentou queda de 11% no trimestre e ficou em R$ 146,856 milhões. "A vilã dessa história foi a rede de lojas", diz o gerente de Contabilidade da Riachuelo, Gilberto Izumida. Segundo ele, o que afetou a receita consolidada do grupo foi o segmento de varejo, que responde pela maior fatia. A tecelagem do grupo ampliou as vendas reais no período. Além do consumidor retraído por causa das incertezas do mercado, o calor prolongado prejudicou a venda da roupas de meia-estação. Argentina Na Santista Têxtil, a retração foi de 12% no trimestre. De acordo com o diretor financeiro e de relações com investidores, Paulo Mendonça, o problema foi causado pela crise argentina, que afetou o desempenho da Grafa, sua subsidiária no país vizinho. O faturamento da subsidiária cresceu 42,2% em pesos, mas convertido para reais apresentou queda de 32,8%. enquanto o faturamento no Brasil teve um ligeiro recuo. A situação não é muito diferente para boa parte das empresas exportadoras. Lika, da Fator Doria Atherino, observa que as vendas externas e os preços internacionais estão em queda, anulando o efeito da desvalorização do real em ralação ao dólar, o que eleva a competitividade das exportações brasileiras. A Embraer, a maior exportadora do País, teve uma queda de 20%, em termos reais, na receita líquida do primeiro trimestre, que foi de R$ 1,328 bilhão. Segundo a Embraer, a retração nas vendas já era esperada pelo mercado. O recuo se deve à desaceleração da economia mundial, que se refletiu em encomendas menores para este e para o próximo ano. A empresa, que em 2001 vendeu 161 jatos, tem uma carteira de encomendas para este ano de 135 aeronaves. Para 2003, esse número sobe para 145 jatos. A Sadia ampliou em 8% sua receita líquida no trimestre, sustentada pelas vendas externas. O diretor de relações com investidores, Luiz Gonzaga Murat Jr., ressalta que o volume das exportações aumentou 25%, enquanto as receitas em dólar cresceram 32% no período. Segundo ele, a diferença se deve à valorização do dólar, de 15% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. No mercado interno, a empresa faturou mais porque reajustou os preços em 13,5%, em média. A quantidade vendida, no entanto, diminuiu 6,5%.

Agencia Estado,

26 de maio de 2002 | 14h52

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