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Empresas não precisam de governo para se comprometerem com sustentabilidade, diz banco sueco

Um dos pioneiros no mercado de títulos verdes, o SEB prepara a oferta de um novo papel, vinculado a metas ambientais, sociais ou de governança e não a um projeto específico, como ocorre hoje

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 11h30

LONDRES - A iniciativa privada não precisa aguardar um comprometimento dos governos e líderes de seus países para se engajarem em ações sustentáveis, na avaliação do conselheiro sênior para clima e finanças sustentáveis do banco sueco SEB, Mats Olausson. "As cidades, os Estados, as empresas podem buscar esses recursos de forma sustentável mesmo que o governo do país esteja em outra direção", afirmou em entrevista ao Estadão/Broadcast.

Assim, embora a administração dos Estados Unidos, para citar um exemplo, não esteja alinhada ao Acordo de Paris, as empresas americanas podem aderir a práticas sustentáveis, fornecendo estruturas sólidas para seus investidores. 

Um dos pioneiros no mercado de títulos verdes, que vem ganhando impulso nos últimos meses em todo o mundo, inclusive no Brasil, o SEB promete continuar na dianteira desse filão no mundo das finanças. A intenção é ser a primeira instituição a oferecer, em alguns meses, um título ligado à sustentabilidade na região nórdica de forma mais ampliada, com um instrumento de dívida que não esteja vinculado a um projeto verde determinado, como ocorre hoje com os green bonds. 

Segundo Olausson, o papel deve estar vinculado a metas ambientais, sociais ou de governança, conhecidas pela sigla em inglês ESG. "É um papel de outra natureza, que pode complementar o tradicional título verde ou social", disse.

Se os green bonds são lançados em cima de um projeto específico, esses novos ativos terão foco nas metas de sustentabilidade estratégica apresentadas pelas empresas e, nesse ponto, não importa como irão realizar o trabalho com o produto dos títulos específicos, mas sim que apresentem um resultado positivo em termos de seus objetivos de sustentabilidade. 

Até empresas que não estariam no imaginário de investidores como potenciais emissoras de títulos verdes, por suas atividades serem relacionadas à alta emissão de poluentes ou por terem sofrido acidentes ambientais, poderão atuar na área, desde que tenham uma estratégia crível de transformação. De acordo com Olausson, alguns setores em que não há tanto investimento em áreas tipicamente verdes, como os de telecomunicações, são os que mais se "encaixam" nessa nova forma de captação de recursos.

O Brasil já conta com emissão vinculada a metas de sustentabilidade - a Suzano foi uma das estreantes do mundo nesse mercado. No início de setembro, a companhia fez um roadshow internacional para levantar pelo menos US$ 500 milhões. O rendimento do papel está atrelado a metas de redução de gases causadores do efeito estufa em 10,9%, em média, nos anos de 2024 e 2025 na comparação com o que foi jogado na atmosfera em 2015 (0,213 toneladas de gás carbônico). Se a companhia de papel falhar em sua tarefa, a partir de 2026, há um acréscimo do juro de 0,25 ponto porcentual.

Outra referência no mundo dos negócios é a farmacêutica suíça Novartis. E a Europa tende a continuar na cabeceira desses investimentos porque o Banco Central Europeu (BCE) já anunciou que passará a aceitar esse tipo de ativo como colateral a partir de 2021, estimulando outras companhias a entrarem no mercado.

Falta de classificação dos ativos é um obstáculo 

Apesar da expectativa positiva com o novo instrumento que chega ao mercado, há algumas dificuldades em mostrar para o investidor o retorno de algo que não é muito habitual, que é a falta de dispositivos que mostrem que um objetivo foi atingido. A ausência de taxonomia, ou a classificação desses ativos em padrões específicos, é um dos principais obstáculos hoje para que o setor deslanche, de acordo com alguns especialistas da área.

Em março de 2018, a Comissão Europeia, o braço executivo da União Europeia, começou a formular um sistema de classificação próprio desses ativos e no fim do ano passado uma regulamentação do setor foi aprovada no continente. O conselheiro da SEB observou que agora a UE deve passar a integrar também os Princípios de Títulos Verdes, construído pela Associação do Mercado de Capitais Internacional (ICMA, na sigla em inglês), sob a forma de uma norma de títulos verdes da UE.

Uma das formas de tranquilizar o investidor, de acordo com Olausson, é apresentar credenciais sobre avanços feitos pelas companhias na área determinada e obter uma avaliação externa independente, mais ou menos como acontece com as auditorias de contabilidade.

O conselheiro lembrou que, em 2008, o SEB ajudou a organizar o primeiro título verde do mundo para investidores institucionais, depois que fundos de pensão suecos procuraram o Banco Mundial para expressar interesse em financiar projetos relacionados ao clima por meio de suas principais carteiras de investimentos. 

Em 2013, o SEB ajudou a primeira empresa (Vasakronan) e o primeiro município (a cidade de Gotemburgo, na Suécia) a emitir títulos verdes. A partir daí, uma parceria público-privada (PPP) firmada com o governo alemão levou a instituição a promover workshops e seminários sobre o tema em diversos países no período de 2016 a 2019. Na época, Brasil, China, Índia e México foram os países emergentes contemplados pela ação. 

Mais recentemente, o SEB projetou a estrutura para o primeiro programa de títulos governamentais verdes da Suécia. Os planos agora incluem o lançamento de empresas verdes soberanas também fora da região nórdica.

A ampliação de metas sustentáveis de forma mais generalizada, e não apenas a criação de instrumentos financeiros atrelados a alguns projetos, foi um dos temas do relatório trimestral mais recente do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), que tem sede na Basileia, na Suíça. 

Para o Banco Central dos bancos centrais, essa deve ser uma das formas para ampliar os investimentos verdes em todo o mundo, tendo como o foco o setor bancário. E é preciso, de acordo com a instituição, ampliar as métricas sobre como medir o desempenho das atividades das companhias em relação à sustentabilidade de forma geral.

A demanda por investimentos éticos e sustentáveis vem ganhando força por causa das mudanças climáticas e, por conta da covid-19, muitas empresas passaram a pensar em uma nova forma de retomar suas atividades interrompidas pela crise da pandemia. Os segmentos que mais buscam "títulos limpos" são os fundos de pensão, mas seguradoras estão cada vez mais interessadas nesses papéis, assim como gestores de ativos.

Na terça-feira, 29, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem sede em Paris, divulgou relatório em que recomenda que governos e reguladores "trabalhem juntos e com urgência" para melhorar os dados usados em investimentos que levam em conta critérios de melhores práticas em ESG. O relatório Perspectiva de Negócios e Finanças 2020 destaca o crescimento do ESG nos últimos anos, com ratings específicos, índices e outros produtos financeiros que proliferam, diante da demanda.

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