Gyorgy Varga/ EFE
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Empresas ocidentais têm pouco a perder com guerra no Oriente

Exceção são algumas empresas altamente expostas em setores como os de energia, aeroespacial e defesa

The Economist

12 de janeiro de 2020 | 02h00

O Oriente Médio não é o único barril de pólvora do mundo. Mas isso irrita os estrategistas do Ocidente mais do que em outros lugares voláteis. Da mesma forma, investidores ocidentais estão prestando a atenção. As Bolsas de Valores do mundo estremeceram em 3 de janeiro, depois que um míssil americano matou Qassim Suleimani, alto comandante iraniano, no Iraque. Elas se abalaram novamente na semana passada, depois que o Irã primeiro ameaçou e depois atacou as bases usadas por americanas em solo iraquiano.

Guerra em qualquer lugar é ruim para os negócios. Um surto no longo conflito entre a maior economia do mundo e uma orgulhosa potência em uma região cujas reservas profundas de óleo lubrificam as rodas do comércio global criam incerteza suficiente para deixar inquietos os poderosos chefes globais. O inevitável aumento no preço do petróleo, que ganhou quase 5% após o ataque americano, prejudica empresas como as companhias aéreas. Países no Golfo Pérsico e arredores são um mercado com 230 milhões de consumidores. Os vizinhos Egito e Turquia, muitas vezes chamuscados por conflagrações regionais, acrescentam mais 181 milhões.

Apesar de toda sua aparente importância geopolítica, só se comentam as questões do Oriente Médio depois que elas acontecem nos escritórios de importantes executivos ocidentais. Salvo alguns oásis, principalmente em energia, aeroespacial e defesa, a região parece um deserto multinacional.

Décadas de sanções americanas significam que não há presença da America Inc. no Irã. Com medo de irritar Washington, muitas empresas europeias e japonesas se afastaram. A PSA da França vendeu muitos modelos Peugeot e Citroën no grande mercado do Irã, mas se retirou de duas joint ventures em 2018 para evitar sanções americanas depois que o presidente Donald Trump reposicionou as levantadas como parte de um acordo para conter o programa nuclear do Irã.

Mesmo além do Irã, a região mal é registrada nas declarações de lucros e perdas das multinacionais. O Oriente Médio e a África representaram 2,4% da receita das empresas americanas listadas em Bolsa em 2019, segundo o banco Morgan Stanley. Para empresas europeias e japonesas, foram 4,9% e 1,8%, respectivamente. O Oriente Médio ainda compra comparativamente poucos carros do mundo (2,3 milhões dos 86 milhões vendidos globalmente em 2018). Vendedores de artigos de luxo como Prada, a casa de moda italiana, e a L’Oréal, gigante francesa da beleza, registram 3% das vendas no Oriente Médio (sem contar as viagens de compras dos sheiks a Milão ou Paris).

A presença regional geral das finanças ocidentais parece igualmente reduzida. No fim de 2018, grandes bancos americanos possuíam US$ 18,5 bilhões em atividades de crédito e negócios na região, o equivalente a 0,2% de seus ativos. Isso inclui os negócios de US$ 5,3 bilhões do JPMorgan Chase na Arábia Saudita e a exposição de US$ 9,6 bilhões do Citigroup nos Emirados Árabes Unidos. Os bancos europeus estão, no mínimo, se retirando. O BNP Paribas, da França, vendeu seus negócios egípcios há sete anos e ganhou € 121 milhões (US$ 143 milhões) no Oriente Médio em 2018. O HSBC registra substanciais US$ 58,5 bilhões em ativos na região, embora isso ainda seja um erro de arredondamento no balanço patrimonial de US$ 2,7 bilhões da financiadora britânica. Ao mesmo tempo, os bancos chineses vêm expandindo operações no Golfo – embora em um ritmo bem lento. No ano passado, o Banco da China reforçou sua presença nos Emirados Árabes Unidos e, em 7 de janeiro, ganhou licença para abrir uma agência na Arábia Saudita, juntando-se ao Banco Industrial e Comercial da China, no país desde 2015.

O maior bolsão de fertilidade nesse cenário corporativo ressecado – e, portanto, a vítima mais óbvia de qualquer escalada – é o setor de energia. Durante o século passado, os homens do petróleo dos EUA e da Europa entraram e saíram da região, como resultado de sanções, conflitos e mudanças no apetite dos governos por parceiros estrangeiros.

No curto prazo, um aumento do preço do petróleo, abastecido por conflitos, poderia elevar o lucro dos produtores geograficamente diversificados do Ocidente. No longo prazo, a imagem parece mais nebulosa. Apesar do boom do xisto nos EUA, muitos gigantes do petróleo permanecem até o joelho no petróleo árabe. Em 2018, o Oriente Médio e a África representaram um quarto da produção global da Total, empresa francesa. A ExxonMobil investiu cerca de US$ 6,5 bilhões em um gigantesco campo petrolífero mos Emirados. Até 2024, espera produzir 1 milhão de barris de petróleo por dia no país, o equivalente a cerca de um quarto de sua produção total de petróleo e gás em 2018. As empresas de prestação de serviços que trabalham para Total e ExxonMobil e para as empresas nacionais de petróleo são desproporcionalmente dependentes do Oriente Médio. O contrato da Halliburton com a Saudi Aramco em 2018 foi o maior do gênero na região, informou a empresa. A Schlumberger também tem muitos negócios por lá.

O Iraque, em particular, recebeu bem o capital estrangeiro, na tentativa de aumentar a produção após anos de conflito. Em 2009, a BP e a PetroChina ganharam contrato para trabalhar com uma empresa iraquiana estatal para aumentar a produção no campo de Rumaila. Atualmente, produz 1,5 milhão de barris por dia, um terço do total do Iraque. ExxonMobil, Eni e Chevron também têm projetos iraquianos. Elas correm risco se Washington interromper as sanções contra o Iraque, o que pode ser feito se seu governo expulsar as forças militares americanas após o assassinato do general Suleimani. Muitas empresas estão retirando funcionários, temendo represálias antiamericanas.

Algumas poucas empresas não energéticas também estarão de olho no conflito com cautela. A LafargeHolcim, empresa franco-suíça que é a maior produtora de cimento do mundo, possui 44 fábricas na região, o que gerou 11% de sua receita em 2018. A Heidelberg Cement, rival alemã que também lucrou com o boom da construção na região, tem 19% de suas vendas no Oriente Médio e norte da África. A GE vende maquinário no valor de US$ 16 bilhões por ano no Oriente Médio e seus arredores, 13% do total das vendas do grupo.

A Boeing e a Airbus também parecem vulneráveis. Cerca de 5% da frota aérea global é operada por transportadoras do Golfo. A expansão contínua da Emirates, Etihad e Qatar Airways as tornou importantes compradoras de jatos de passageiros nos últimos anos.

A Airbus calcula que a região receberá 8% de todas as novas aeronaves nos próximos 20 anos – cerca de 3.200 jatos. A Emirates é um cliente de lançamento do novo 777x da Boeing, que deve entrar em serviço este ano, com pedidos de cerca de 125 unidades, mais de um terço do total da frota atual. Encomendou também 30 modelos 787s e, da Airbus, 40 A330s e 30 A350s.

Armas

Outro setor possui grande presença estrangeira na região. Guerras sem fim e a riqueza gerada pelo petróleo contribuíram para fazer do Oriente Médio o segundo maior mercado exportador do mundo para os fabricantes de armas. Com as vendas de armamento em queda em todas as outras regiões na última década, no Oriente Médio, elas quase dobraram, estima o Sipri, instituto de think-tank. Somente a Arábia Saudita gastou US$ 68 bilhões em armas em 2018. Bahrain, Kuwait, Omã, Catar e Emirados Árabes Unidos também são entusiasmados compradores. A região recebeu metade das exportações americanas entre 2014 e 2018 e é um grande mercado para empresas de defesa britânicas, francesas e alemãs. As americanas Raytheon e Lockheed Martin, a BAE britânica e a francesa Dassault viram os preços de suas ações subirem à medida que as tensões na região aumentavam. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

*© 2019 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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