Empresas perdem US$ 53 bi em valor de mercado

As turbulências financeiras dos últimos meses varreram quase um terço do valor de mercado das empresas brasileiras em dólares. Desde seu maior nível este ano, atingido em 4 de março, o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) caiu 24,21%, reduzindo o valor de mercado das empresas de capital aberto do País em US$ 53,7 bilhões, para US$ 123,4 bilhões, segundo cálculos da consultoria Economática. Em reais, a queda é menor, por causa da alta da moeda americana em relação à brasileira, que já chega a 21,37% no ano. Na moeda local, a capitalização das empresas brasileiras negociadas na bolsa caiu de R$ 415,6 bilhões para R$ 352,1 bilhões em pouco mais de quatro meses. Em junho, a queda da bolsa acelerou, com a maior fuga de investidores estrangeiros da Bovespa desde dezembro de 1998, logo depois da moratória russa e às vésperas da desvalorização do real. Segundo a Bovespa, os estrangeiros retiraram US$ 1,01 bilhão da bolsa brasileira só em junho. As duas ações mais populares do Brasil, Petrobrás e Vale do Rio Doce, que os trabalhadores puderam comprar usando recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), caíram bem menos que o mercado em geral. Na verdade, a ação da Vale, uma das maiores exportadoras do Brasil (que ganha competitividade com a desvalorização do real), subiu 8% desde 4 de março, para R$ 67,73 na sexta-feira, embora esteja 10,75% abaixo do seu pico, alcançado em 5 de junho. Desde 4 de março, os papéis da Petrobrás caíram 17,3%, encerrando a última sexta-feira em R$ 45,50. Alguns especialistas dizem que as ações brasileiras já caíram tanto que viraram uma pechincha. "Ao longo das próximas semanas, é provável que o mercado continue bastante nervoso e volátil, por causa de novas pesquisas eleitorais e da crise de confiança na contabilidade das empresas americanas", diz o chefe da área de pesquisa econômica para a América Latina da consultoria IDEAglobal, Ricardo Amorim. "Mas, para um horizonte de seis meses, a perspectiva para a bolsa brasileira é excelente. Não sabemos se a recuperação vai começar imediatamente, mas acreditamos que ela vai ocorrer. Pode até ser que comece já, com o Copom cortando os juros na quarta-feira." O economista ressalta que ainda trabalha com a projeção de que o candidato do governo vai subir nas pesquisas, com o início da propaganda eleitoral na TV, e é o que tem mais chances de ganhar a eleição presidencial. "Se esse cenário se confirmar, terá sido uma tremenda oportunidade comprar ações agora. Mas o investidor possivelmente terá de ter um coração forte para agüentar as próximas semanas." Aversão globalA isenção da CPMF na bolsa, citada por analistas como a principal causa da alta de 1,48% na Bovespa na sexta-feira, também pode ser um alento para o mercado brasileiro de ações, desde que o cenário melhore, afirma a superintendente de relações com as empresas da Bovespa, Maria Helena Santana. "O dinheiro saiu recentemente da bolsa por causa da aversão global ao risco", diz ela, lembrando que os investidores globais também tiraram dinheiro das bolsas americanas, cujas ações perderam US$ 2,4 trilhões em valor de mercado no segundo trimestre. A bolsa de valores brasileira muitas vezes oscila dependendo do comportamento do mercado acionário lá fora. A evolução do Ibovespa nos últimos anos mostra que toda vez que houve crise no mercado acionário nos Estados Unidos, o valor das ações negociadas na Bovespa caiu. Foi assim logo após os ataques terroristas aos EUA. O S&P 500, índice que mede o valor médio das ações das 500 principais empresas norte-americanas caiu para cerca de 900 pontos contra 1.100 verificados anteriormente. No mesmo período, o Ibovespa despencou de 13 mil para 10 mil pontos. Recentemente, o S&P, depois de uma ligeira recuperação, voltou a cair para a casa dos 900 pontos. Enquanto isso, o Ibovespa, que havia registrado novamente índice na marca dos 12 mil pontos, retornou para os 10 mil. "Nos EUA, o investidor tradicional não deixa de negociar nos momentos de crise; ele simplesmente desconta nos preços. Por isso, as ações lá fora hoje estão baratas", avalia Eucherio Lerner, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e sócio da consultoria Qualimétrica. "No Brasil, todo mundo sempre desconfiou dos balanços das empresas. Por isso o País não tem tradição no mercado", diz. Segundo ele, o que sustenta o mercado de ações brasileiro é a indústria de fundos de pensão. "Se os fundos não fossem obrigados a investir apenas em ações de empresas nacionais, o mercado aqui já teria acabado." Para o diretor de Normas do Banco Central, Sérgio Darcy, essa crise de confiança lá fora repercute no Brasil e "não é uma coisa fácil de recuperar". No entanto, ele lembra que nos últimos anos muita coisa foi feita no País em relação ao aprimoramento de regras para tornar o mercado mais seguro. "Não se muda a cabeça das pessoas de um dia para outro. O que é preciso é mostrar que no Brasil a forma de atuação é diferente e que isso inibe uma situação como a que ocorre hoje lá fora." Darcy cita como exemplo favorável ao Brasil a proposta da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que foi questionada na Justiça, que determina a separação da empresa que faz consultoria da responsável pela auditoria. Outro ponto é a exigência para rodízio dos auditores que checam os dados dos balanços das empresas. "O importante nesse mercado é agir preventivamente para dar mais segurança aos investidores", afirma Darcy. Ele acredita que esse cenário deve acelerar ainda mais projetos que dêem transparência para o acompanhamento da situação das empresas. Para o diretor, é fundamental o fortalecimento dos órgãos reguladores, como a CVM. A aprovação da lei das S.A também é considerada um avanço porque trouxe mais garantias para os acionistas minoritários. Eles passaram a participar das decisões da empresa e a contar com respaldo legal para negociar suas ações na troca do acionista majoritário. A política de transparência nos investimentos e a obrigatoriedade no fornecimento de informações ao público também contribuiu muito para um melhor acompanhamento da situação da empresa.

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