Empresas se ajustam ao novo dólar

Setores que utilizam matéria-prima importada já pensam em reajuste de preços, enquanto exportadores querem reconquistar espaço

LUIZ GUILHERME GERBELLI , CLEIDE SILVA, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 10h42

O novo patamar do dólar e a rapidez com que a moeda subiu pegou de surpresa parte das empresas. Setores da indústria e do varejo sentiram o aumento de custo e buscam alternativas na estrutura de produção diante da nova realidade cambial. Na semana passada, o dólar chegou a superar a barreira dos R$ 2,30 - este ano, a moeda americana subiu pouco mais de 11% em relação ao real.

A alta do dólar afeta em cheio a produção de setores da indústria como eletroeletrônicos e de autopeças e o endividamento das empresas. "Em economia não existe almoço grátis, sempre há um custo. As empresas mais endividadas vão sofrer mais com o custo do aumento da sua dívida. Ao mesmo tempo, nesse período, aumentou muito o coeficiente de importação o Brasil. Não apenas de produtos acabados, mas dá própria participação de insumos", afirma José Augusto Fernandes, diretor de política e estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI). "Aparentemente, essa é uma taxa de câmbio que veio para ficar."

A participação de bens importados no consumo doméstico na indústria subiu de 17% para 22% entre 2005 e o primeiro trimestre deste ano.

A Elring Klinger, fabricante de juntas de cabeçote, defletores de calor e tampas plásticas de válvulas, pretende negociar com as montadoras um repasse de 5% a 6% para compensar o aumento de custo com a importação de materiais de aço inoxidável e aluminizado, que são importados da Itália e da Alemanha. "A alta do dólar foi muito repentina e nos pegou de surpresa", diz o diretor da Elring Klinger, Hanz Eckert. Em algumas peças esses componentes chegam a ter peso de 30% a 40% no custo das matérias-primas usadas na produção.

Por outro lado, a fabricante de autopeças vê no novo câmbio oportunidades futuras de recuperar exportações, caso a valorização seja mantida. Há oito anos, o mercado externo representava 25% do faturamento da empresa, instalada em Piracicaba (SP), participação que hoje está em cerca de 6%. "Nos últimos anos perdemos clientes por causa da desvalorização cambial e recuperá-los será uma tarefa difícil, mas, se a moeda se estabilizasse em R$ 2,15 ou R$ 2,20, seria razoável."

Na Whirpool Latin America, dona das marcas Brastemp e Consul, a busca tem sido por ganho de produtividade para mitigar o efeito do avanço do dólar. A alta no custo é sentida principalmente por causa do aumento de preço das matérias-primas que são atreladas ao dólar.

"Estamos trabalhando em alguns projetos de ganho de produtividade para tentar absorver esses aumentos sem impactar de maneira tão grande a nossa margem", afirma Paulo Miri, diretor de suprimentos da Whirlpool. "Mas é um impacto grande nas nossas contas a subida do dólar do patamar de R$ 1,85 e 1,90 para 2,30." Segundo Miri, a empresa trabalha para "evitar ao máximo" um repasse de preço na ponta.

O grande problema, diz ele, é que, além câmbio, existe uma pressão adicional do aumento de custo da mão de obra nos últimos anos.

Repasse. Em alguns segmentos do varejo, o repasse já é inevitável. A Associação Paulista de Supermercados (Apas) elevou a previsão de inflação do setor de 7% para 7,3% para o ano por causa do valorização do dólar. Esse número pode chegar a 7,5% dependendo da intensidade do aumento dos preços dos produtos importados.

"Quando o setor evidencia que esse processo de elevação do dólar não é mais temporário, ele não consegue mais negociar a manutenção de preços", diz Rodrigo Mariano, gerente de Economia e Pesquisa da Apas. "O consumidor começa a sentir a alta agora, sobretudo nos importados, como azeite e vinho."

A importadora de vinho Zahil, por exemplo, teve de fazer um repasse de 5% para seus consumidores, a maioria restaurantes. "No nosso ramo, ninguém esperava essa alta do dólar", afirma Antoine Zahil, sócio da importadora. O setor também sofre porque parte do imposto é atrelado em dólar.

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