Acervo/United Way Brasil
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Empresas se unem para capacitar jovens da periferia de SP

Programa global de inclusão estabeleceu objetivo de criar oportunidades econômicas para pelo menos 100 mil jovens em vulnerabilidade social na capital até o fim de 2022

Marina Aragão, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2020 | 16h00

O futuro é jovem! Esse é o lema de organizações que se reúnem para capacitar e contratar jovens da periferia da cidade de São Paulo a partir do próximo ano. O Global Opportunity Youth Network (Goyn) utiliza o conceito de “jovem-potência” - aqueles de 15 a 29 anos que estão fora da escola, não conseguem emprego ou atuam no trabalho informal -, e pretende criar oportunidades econômicas para pelo menos 100 mil deles na capital paulista até o fim de 2022.

“Nós temos jovens que são muito potentes e que podem trazer muita riqueza para as empresas em termos de talento e diversidade. Daí vem a relevância e a necessidade de juntar forças”, disse Gabriella Bighetti, diretora-executiva da United Way Brasil, instituição social articuladora do Goyn aqui. Segundo ela, o momento é de “urgência” pelo fato de o “País estar vivendo o final do bônus demográfico” em relação aos jovens. O Brasil terá uma inversão da pirâmide etária: em 2050, 31% da população estará com mais de 60 anos.

O programa em São Paulo já conta com mais de 85 instituições colaboradoras, entre elas Accenture, Em Movimento, Fundação Arymax, Fundação Telefônica Vivo, Instituto Coca-Cola, Prudential e JP Morgan. A partir de um mapeamento de dados públicos de 2019 fornecidos por fontes oficiais, como Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a rede identificou 765,5 mil jovens-potência na capital que não têm acesso a oportunidades dignas de trabalho. 

A Accenture, uma das parceiras do projeto, consolidou informações sobre o índice de vulnerabilidade social desses jovens - dividindo a cidade de São Paulo em oito regiões -, e analisou dados sobre educação, emprego e renda, mercado de trabalho, mobilidade e acesso à internet.

A diretora-executiva da United Way ressaltou que pautar toda a discussão em dados é fundamental. “Para que todo mundo tenha uma agenda comum, precisamos analisar evidências, porque cada um tem a sua opinião.” 

Morador da comunidade do Jardim Capela, na zona sul da capital paulista, Jonathan Sales, de 20 anos, é estudante de Gestão Empresarial e integrante do Comitê Jovem do Goyn - grupo formado por jovens “conselheiros” que auxiliam no desenvolvimento das propostas do programa baseado na realidade deles. “Eu sou morador da periferia e sei quantos programas existem voltados para jovens. Na verdade, quantos programas não existem, por isso a importância do Goyn”, disse.

Soluções para São Paulo

O Goyn é uma iniciativa global, liderada pelo The Aspen Institute, e está presente em Bogotá (Colômbia), Thekwini (África do Sul), Mombasa (Quênia), Pune e Ramgarh (Índia). O lançamento oficial no Brasil será nesta terça-feira, 24, quando a rede vai detalhar como pretende alcançar a inclusão produtiva

Para Gabriella, a pandemia do novo coronavírus, apesar de todas as mazelas, “mostrou que a colaboração é o caminho”. Na capital paulista, o programa contará com organizações sociais dos mais variados tipos, como ONGs, igrejas, associações de moradores e com os próprios jovens que poderão agregar seus pares. Quatro soluções serão implementadas:

Rede Empresas Potência

O objetivo é conectar empresas que reconhecem a inclusão produtiva de jovens como vetor de inovação e sensibilizar outras organizações para o tema. A rede pretende formalizar, por meio de uma carta compromisso, o comprometimento das organizações com a disponibilidade de vagas para esses jovens; realizar pesquisa para entender as dificuldades e ganhos das empresas com a contratação deles; e organizar eventos de networking e trocas de experiências entre essas empresas. A iniciativa também pretende criar um banco digital de boas práticas.

A Prudential Financial, empresa especializada em seguros de vida, informou que assumiu um compromisso de US$ 180 milhões para apoiar jovens-potência, em todo o mundo, até 2025. Na visão da gerente de Responsabilidade Social da companhia, Carolina Souza, “a geração jovem é a linha de frente desse mundo em mudança”. "Vemos o investimento nesses jovens como uma entrada de pagamento para os seus futuros, para o futuro da suas comunidades e, finalmente, o crescimento da economia global”, disse, destacando que a empresa também atua na contratação desses jovens capacitados. A empresa informou que, desde janeiro de 2019, já empregou 41 estagiários e ex-alunos desses programas na matriz nos Estados Unidos. No Rio de Janeiro, está lançando um programa que capacitará alunos com deficiência para funções de aprendizagem.

Programa Trilhando

Projeto de vida, explica a Base Nacional Comum Curricular, é aquilo que os estudantes almejam, projetam e definem para si ao longo de sua trajetória. Mas os jovens-potência estão desconectados do ensino formal e do mundo do trabalho - cenário que se agravou ainda mais com a pandemia, com o aumento da evasão escolar e do desemprego. Nesse sentido, o Programa Trilhando prevê a formação do jovem para que ele consiga descobrir e estruturar seu projeto de vida, entender quais as competências necessárias para exercer a carreira que escolheu e como desenvolvê-las. O programa vai trabalhar com organizações que já atuam na periferia.

Perifa Digital e Plataforma Digitalis

De acordo com o levantamento do Goyn, dos 8 cargos mais ofertados em 2019, 5 são da área de tecnologia. Entretanto, o mundo digital ainda não é um meio ativo de geração de oportunidades para os jovens-potência: ainda segundo o estudo, 9% dos estudantes em São Paulo não têm acesso à internet; além disso, 42% dos domicílios (825 mil moradias) em situação de alta vulnerabilidade na Grande São Paulo não contam com banda larga fixa, apontou levantamento deste ano da Fundação Seade e do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic).

O Perifa Digital visa a desenvolver uma mentalidade digital e estimular a criação de perspectivas em carreiras digitais com os jovens-potência nas periferias. Uma das primeiras estratégias para isso é a Digitalis, plataforma digital gratuita que pretende otimizar a busca por cursos de capacitação e vagas de trabalho para carreiras digitais. As capacitações e vagas serão oferecidas tanto por empresas e organizações da rede Goyn quanto fora dela. A plataforma também pretende garantir às empresas assertividade na contratação, além de reduzir tempo e custo do processo seletivo.

Tudo isso, explicou Gabriella Bighetti, será implementado a partir de 2021, ano que servirá de aprendizado e estudo para ver o que deve ser aperfeiçoado, melhorado ou corrigido na aplicação das estratégias. De acordo com ela, a metodologia de impacto coletivo é nova e exige uma agenda comum de muitas organizações. Por isso, 2020-2030 terá foco apenas em São Paulo.

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