Gabriel Teixeira/ Divulgação
Gabriel Teixeira/ Divulgação

Empresas voltadas à classe C sofrem e estão pouco otimistas com a retomada

Alto endividamento e desemprego fazem famílias segurarem gastos; por consequência, negócios que atendem a esse público adiam expansão e tentam se adaptar à realidade difícil

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2021 | 10h00

Os últimos anos da varejista Colombo, voltada para vendas de ternos e roupas casuais para a classe C, têm sido bastante difíceis. Mesmo antes da pandemia, a empresa já vinha sofrendo com queda nas vendas e redução do número de lojas. Mas aí veio a crise da covid-19 e piorou tudo. Com os shoppings fechados, a empresa viu o seu faturamento despencar 50% no ano passado. Das 434 lojas que a companhia tinha, sobraram 117 franquias. Diante do tamanho do problema, a companhia entrou com pedido de recuperação judicial no ano passado.

O caso da Colombo reflete uma realidade econômica mais ampla. De acordo com estudo da consultoria Bain & Company, as classes mais baixas foram as que tiveram a renda mais afetada pela pandemia. Mesmo com a criação e distribuição do auxílio emergencial, que injetou mais de R$ 300 bilhões na economia, quase 70% tiveram alguma perda em seus ganhos durante o período. Para piorar, 29% perdeu totalmente a sua principal fonte de renda enquanto 25% tiveram cortes em seus salários.

No geral, a conta também não é das mais positivas. Mais da metade da população, por volta de 52%, está economizando menos do que antes. Ou seja: as pessoas estão utilizando as suas reservas para pagar contas básicas. Mesmo entre aqueles que estão conseguindo guardar algum dinheiro, 13% já estão de olho nas contas que precisam pagar. O universo de pessoas que está com alguma compra em vista pelos próximos 18 meses é de cerca de 32%.

“A população de menor poder aquisitivo ainda está reticente para consumir porque não sabe se vai conseguir manter a renda que tem e o fim do auxílio emergencial pode atrapalhar”, afirma Federico Eisner, sócio da Bain & Company.

Sem recuperação à vista

Diante desse cenário, mesmo com as reaberturas e com o avanço da vacinação do Brasil, o presidente da Colombo, Álvaro Maluf, não está tão otimista com uma recuperação rápida. Apesar das vendas estarem crescendo 30% neste ano, elas partem de uma base muito enfraquecida. O que tem segurado um pouco as pontas para a companhia é o consumo de evangélicos e jovens em busca do primeiro emprego.

“Estamos bastante conservadores e acreditamos que vamos crescer mesmo dentro das próprias unidades que estão abertas. Também não vamos voltar com as lojas próprias porque a conta não está mais fechando”, afirma ele.

Até as empresas que estão tendo boas performances nos últimos meses estão com um pé no freio. É o caso da Lojas Avenida, especializada na venda de moda e produtos para casa para a classe C, como eletrônicos, que tem como principal mercado a região Centro Oeste e Norte. No ano passado, mesmo com a pandemia, a empresa cresceu 6% em vendas de mercadorias e encerrou o ano faturando R$ 816 milhões. Para esse ano, a companhia estima que vai superar o R$ 1 bilhão de faturamento.

Mas nem isso fez a companhia acelerar o seu plano de expansão. Em 2021, por exemplo, sequer abriu uma loja e não tem planos para que isso ocorra. “Não temos segurança para voltar a falar de expansão, por enquanto. Estamos cuidando do nosso caixa que é o nosso oxigênio”, afirma Rodrigo Caseli, presidente do Grupo Avenida.

Tempo de reinvenção no setor alimentício

O varejo alimentício sofreu menos do que os outros durante a pandemia. Na verdade, até teve resultados positivos, já que foi um dos poucos serviços que não pararam durante o período de isolamento social. Mesmo assim, alguns modelos de negócio se destacaram mais do que os outros. O principal deles foi o atacarejo, que já vinha crescendo durante a pandemia. O segmento de hipermercados, que já estava em baixa, sofreu ainda mais.

No caso do Extra, bandeira do Grupo Pão de Açúcar (GPA) também voltada à classe C, está acontecendo uma mudança completa para conquistar mais clientes. Como o Assaí se tornou uma empresa independente neste ano, os hipermercados do Extra estão passando por uma transformação.

Mas os resultados custam a aparecer. No segundo trimestre, as vendas nos hipermercados Extra abertos há mais de um ano caiu 4,9%, a R$ 2,8 bilhões. Segundo Lucas Zanon, diretor de operações da bandeira, o que o consumidor está olhando é preço e esse precisa ser o diferencial da bandeira.

“O preço, hoje, é o diferencial. Isso está cada vez mais relevante para o consumidor da classe C e estamos focando nisso para não perder espaço”, afirma Zanon. Segundo ele, nos últimos meses, a empresa conseguiu reduzir a diferença de preços de 15% para cerca de 5%, fazendo promoções inclusive para compras de maiores quantidades.

O peso das dívidas

Ainda há outro fator pesando no bolso do brasileiro: as dívidas. Segundo dados do Banco Central, o endividamento das famílias chegou a 58,5% em abril, o maior porcentual da série histórica. Atualmente, os brasileiros comprometem 30% de sua renda mensal para o pagamento de dívidas. Mesmo assim, muitos estão buscando mais crédito para conseguir comprar o básico.

Com isso, a empresa DMCard está crescendo. Especializada na emissão de cartões para supermercados regionais, como o Supermercados BH e o Sonda, a companhia viu a procura por seus serviços crescer 109% no primeiro semestre deste ano em comparação ao mesmo período de 2020. Deste total, cerca de 40% foram aprovados.

“O crescimento se deu principalmente por causa da diminuição dos valores do auxílio emergencial e a maior parte dos que pedem acesso ao cartão é para gastos com alimentação”, afirma Tharik Moura, gerente financeiro do Grupo DMCard. 

Tudo o que sabemos sobre:
SondaAssaí [PR]GPAcomércio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.