Crédito do BNDES à indústria está ‘no fundo do poço’

Os desembolsos do banco no primeiro semestre somaram R$ 33,48 bilhões; a indústria foi o setor com pior desempenho, voltando ao nível dos anos 90

Fernanda Nunes e Mariana Sallowicz, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2017 | 16h07

RIO - Em meio aos efeitos da crise econômica do País, os desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mantiveram a trajetória de queda no primeiro semestre, com retração de 17% na comparação anual. A indústria foi o setor com o maior impacto, com os desembolsos do setor retornando ao patamar de meados da década de 90.

Segundo o superintendente de Planejamento e Pesquisa do banco, Fabio Giambiagi, houve um “retrocesso na liberação de recursos para o setor ao longo dos últimos anos”, que culminou num “fundo do poço”, ainda refletido nos números do primeiro semestre de 2017, divulgados ontem. A retomada, diz ele, é esperada para o ano que vem.

O BNDES liberou R$ 33,48 bilhões de janeiro a junho deste ano. No caso da indústria, foram R$ 6,9 bilhões, 42% menos do que em igual período do ano passado. Considerando o que já foi aprovado e está na fila para sair do papel, o cenário é ainda pior. No período, as aprovações da indústria despencaram 61%. São R$ 6,6 bilhões à espera de liberação. Segundo Giambiagi, os baixos níveis de aprovações do passado “continuarão influenciando negativamente os desembolsos por um tempo”.

Sobre o retorno ao nível de meados dos anos 90, o economista considerou o desembolso de R$ 25,2 bilhões liberados nos 12 meses até junho, patamar equivalente ao de duas décadas atrás. Em um bom momento da economia, em 2010, o BNDES chegou a liberar R$ 125 bilhões à indústria, mas, desde então, o financiamento ao setor iniciou trajetória de queda e chegou aos R$ 30,1 bilhões em 2016.

A visão do economista é que o “fundo do poço” é uma “velha metáfora” que facilmente pode ser utilizada para retratar a relação do BNDES com a indústria, hoje. A expressão, porém, serve também para o conjunto dos desembolsos, dos diferentes segmentos. A exceção é a agropecuária, que teve desempenho positivo, com aumento de 3% tanto nos desembolsos quanto nas aprovações entre janeiro e junho deste ano.

Em coletiva de imprensa, o superintendente declarou que “não se espera reversão imediata” do cenário de queda dos desembolsos. A expectativa é fechar o ano com liberação de R$ 78 bilhões, R$ 10 bilhões a menos que no ano passado. “O desembolso em 12 meses continuará caindo. Até o fim do ano ou começo do ano que vem pode voltar a atingir uma dinâmica ascendente”, afirmou.

Os dados mostram que o ritmo da queda dos desembolsos vem caindo. A retração foi de 41,65% no primeiro semestre de 2016 ante o mesmo período do ano anterior, enquanto nos últimos seis meses do ano passado a queda foi de 28,34%, também na comparação anual.

Cartão BNDES. O desembolso de operações automáticas por meio do Cartão BNDES somou R$ 1,39 bilhão no primeiro semestre deste ano, queda de 58% em relação a igual período do ano passado. De janeiro a junho o número de operações chegou a 103,87 bilhões, 57% menos do que nos primeiros seis de 2016.

Marcelo Porteiro, superintendente de Operações Indiretas do banco, argumentou que houve uma resistência dos bancos repassadores diante da crise financeira, conforme antecipou o Estado, que contribuiu para ampliar a inadimplência no grupo de micro, pequenas e médias empresas, alvo do Cartão BNDES. Como solução, o banco estuda reajustar o spread do cartão para adequá-lo ao risco. Como consequência, os juros do cartão irão subir "marginalmente", disse.

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