Encarecimento do crédito reduz crescimento

A turbulência no mercado financeiro nos últimos 60 dias provocou a disparada das taxas de juros de longo prazo, o que encareceu o crédito para empresas e consumidores, levando alguns analistas a revisar para baixo em cerca de meio ponto porcentual estimativas para o crescimento do PIB neste ano. Enquanto os juros básicos estão parados em 18,5% ao ano desde março, a taxa das operações de um ano - que influencia de fato o custo de empréstimos e financiamentos - pulou de 20,41% em maio para 26,25% na sexta-feira, depois de atingir 31,49% em 21 de junho. O economista-chefe do HSBC Investment Bank, Alexandre Bassoli, por exemplo, reduziu sua previsão para o crescimento do PIB neste ano de 2,4% para 1,9% basicamente por causa da alta das taxas de juros de longo prazo e seu impacto sobre o crédito. O aumento das taxas mais longas foi causado principalmente pelas incertezas no cenário político e pela aversão global ao risco, que também provocaram a escalada do dólar e do risco país. Para emprestar dinheiro a prazo, bancos e financeiras têm de captar recursos no mercado por períodos dilatados, como 12 ou 24 meses, por exemplo. Como o custo dessas operações aumentou significativamente, as instituições pagam bem mais para captar esses recursos, levando-as a elevar as taxas e encurtar os prazos dos empréstimos e financiamentos, como explica o professor da USP José Augusto Savasini, sócio da Rosenberg & Associados. Números da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) mostram que a taxa do crédito direto ao consumidor (CDC) aumentou de 3,76% para 4,17% em junho e que o prazo médio do crediário caiu de 12 para 10 meses e o máximo, de 36 para 24 meses (ler mais na página 5). "Os efeitos desse processo são desastrosos sobre a venda de bens duráveis", afirma Savasini. "O encurtamento do prazo provoca um aumento da prestação, que impede muitos consumidores de comprar o bem." O impacto é maior sobre os bens de consumo duráveis, como automóveis e eletroeletrônicos, porque o setor depende muito de vendas a prazo, diz ele. Para Savasini, essa é uma das razões que provocaram as fortes quedas das vendas de carros em junho, que caíram 19,8% em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo números da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Bassoli lembra que, num momento de turbulência como o atual, além de bancos e financeiras ficarem mais conservadores na hora de conceder crédito, o consumidor também costuma se retrair. A queda de quase 13% do índice de intenção do consumidor da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio) em junho comprova isso, afirma ele. Savasini acabou de reduzir sua previsão de crescimento para 2002 de 1,6% para 1%, em boa parte por causa da elevação dos juros de prazos mais longos e do efeito sobre a venda de bens duráveis. Segundo ele, também pesaram em sua decisão a expectativa de continuidade das incertezas no cenário político, o aumento dos preços administrados (como energia elétrica e tarifas de telefone), que reduz a renda disponível do consumidor, e a alta do dólar, que subiu de R$ 2,505 para R$ 2,811 desde meados de maio. A elevação das taxas de longo prazo atinge em cheio a indústria. A economista Fernanda Senna, da BBA Corretora, estima que, em junho, a produção industrial caiu 1,1% em relação ao mesmo mês de 2001, porque a alta dos juros longos e os aumentos dos compulsórios promovidos pelo BC têm impacto sobre o custo dos empréstimos, afetando principalmente o setor de bens duráveis. A previsão de Fernanda também leva em conta outros indicadores, como o tombo nas vendas de automóveis. Em maio, o desempenho da indústria já havia sido bastante ruim: uma queda de 0,9% em relação ao mesmo período do ano passado e de 5,1% em comparação com abril. A economista Monica Baer, da MB Associados, afirma que só não vai reduzir sua projeção de crescimento de 2% para este ano porque a agricultura está surpreendendo (com destaque para a produção de café e laranja), assim como a indústria extrativa mineral (basicamente o setor de petróleo). Em estimativas preliminares, ela estima que o PIB agrícola poderá crescer entre 6% e 7%, acima dos 5% previstos anteriormente, enquanto a indústria extrativa mineral pode atingir 12% de crescimento, e não mais 8%. No entanto, a indústria de transformação (que inclui bens de capital, bens de consumo e a produção agroindustrial) deve crescer apenas 1,5%, e não mais 2%, prevê Monica. O aumento das taxas de longo prazo ocorre num momento em que os juros básicos estão parados em 18,5% e está em vigor o viés de baixa, o instrumento que permite ao BC reduzir a Selic entre duas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). O economista Luís Afonso Lima, do BBV Banco, diz que a taxa de longo prazo é, sim, influenciada pela Selic, mas ressalta que o comportamento dessa taxa tem uma correlação muito forte com o risco país, que subiu de 921 para 1.514 pontos desde meados de maio. Por isso, uma eventual queda da Selic na reunião do Copom desta semana não provocaria uma redução expressiva das taxa mais longas se não for acompanhada de um recuo do risco país para níveis mais razoáveis.

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