Encolhimento da indústria
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Celso Ming
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Encolhimento da indústria

Mais do que lenta, recuperação ainda não pode ser considerada sustentável

O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2017 | 05h00

A nova queda da atividade industrial – de 2,1% no acumulado em 12 meses – revelada nesta sexta-feira, 1, pelas Contas Nacionais (números do PIB) do segundo trimestre deste ano provavelmente não reflete a situação que estatísticas mais recentes revelam. Já se nota certa recuperação que novos dados sobre o emprego industrial também confirmam.

No entanto, mais do que lenta, essa recuperação ainda não pode ser considerada sustentável. A queda foi vertiginosa, como o gráfico ao lado está mostrando. Mais de três anos de recuo e estagnação sugerem que a indústria perdeu competitividade diante da concorrência externa, que vem incorporando tecnologia e os avanços da digitalização e da inteligência artificial.

Nessas horas, os líderes da indústria clamam por novos incentivos ou, pelo que preferem chamar, por “decisões corajosas de política industrial”. Como esta Coluna já mencionou em outra oportunidade, esses mesmos dirigentes têm boa parcela de responsabilidade pelo desastre do período Dilma. Pressionaram por sucessivos pacotes de bondades, que implicaram farta distribuição de subsídios, redução de impostos e desoneração de contribuições previdenciárias. A Fiesp, por exemplo, foi a instituição que mais batalhou pela queda artificial das tarifas de energia elétrica, que desorganizou o setor. Chegou a produzir ampla publicidade na mídia, em que comemorou o presentão do que depois virou tragédia.

Além de expor o pato amarelo na avenida, eles se empenham em arrancar do governo mais câmbio, menos juros e sempre o próximo Refis, sigla que se refere a perdão, pelo menos parcial, das dívidas com impostos e contribuições. Queixam-se de que o governo está afundando a indústria.

Todos esses favores produziram e produzem distorções. A redução de impostos para a indústria automobilística e para o setor de aparelhos domésticos, por exemplo, teve como consequência antecipação de consumo, que deixou as famílias endividadas, bloqueou o consumo no período subsequente, contribuiu para a estagnação, para o encolhimento da poupança e do investimento e para o aprofundamento da capacidade ociosa do setor produtivo. Além disso, a derrubada voluntarista dos juros a partir do segundo trimestre de 2011 até a metade de 2013 mais o represamento das tarifas, decisões que a indústria reivindicou e também aplaudiu, provocaram inflação, graves atrasos nos preços administrados e alta dos juros.

O “curtoprazismo”, as práticas intervencionistas e as políticas destinadas a estender “puxadinhos” para consertar entortamentos, tudo isso não saiu apenas da cabeça do plantonista do Planalto. Foram decisões compartilhadas pela indústria.

Qualquer principiante em Economia Política sabe que a concessão de créditos favorecidos aos eleitos da hora cria condições concorrenciais desiguais no mercado. Essa e outras políticas seletivas minam as bases sobre as quais se fazem os negócios. E, no entanto, em nenhum momento as lideranças empresariais denunciaram nem essas distorções nem a cartelização, as reservas de mercado, as políticas que exigiram exagerados conteúdos locais, que paralisaram setores e concorreram para o aumento do desemprego.

Não há política industrial mais eficiente do que a condução que garanta solidez aos fundamentos da economia: contas públicas equilibradas, inflação sob controle e na meta, déficit externo financiável e um sistema financeiro saudável. São essas as condições que garantem a previsibilidade de que a indústria mais precisa para tocar seus negócios.

Sem isso, o resto corre perigo ou perde relevância. E no meio desse resto estão a derrubada do custo Brasil, as decisões de governo sobre quais setores estimular e as negociações comerciais que deverão dar acesso ao produto brasileiro no exterior.

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