Endividamento da classe C pode afetar o consumo

Juros altos, pobreza de planejamento financeiro e facilidade excessiva para obter crédito levam ao superendividamento do consumidor, como mostrou reportagem do Estado (15/8), baseada em pesquisa da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste). Avaliação semelhante fez o Fundo Monetário Internacional (FMI), em julho, em contraste com o otimismo do Banco Central (BC). O presidente do BC, Alexandre Tombini, defende os estímulos da Fazenda ao crédito e ao consumo para ajudar a empurrar a atividade econômica.

O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h08

As dívidas comprometem, em média, 42% da renda familiar - muito além dos 30% considerados pela Proteste como limite. O levantamento, baseado em entrevistas com 200 famílias de São Paulo e do Rio, constatou que na classe C o endividamento está acima da média e compromete 46,2% da renda familiar.

Em média, cada pesquisado tem três dívidas diferentes. E pelo menos uma é no cartão de crédito, cujos juros são exorbitantes, da ordem de 238% ao ano, calcula a Anefac. Muitos devedores declaram não ter condições de pagar as faturas no vencimento. Situações de alívio são esporádicas, como nos meses da devolução do Imposto de Renda.

Baseada em dados compilados pelo Morgan Stanley, as análises do FMI sobre a América Latina relativas a 2011 indicaram que os consumidores brasileiros comprometiam, em média, cerca de 20% da renda disponível com o serviço da dívida. O nível supera o do Chile, dos Estados Unidos, da Colômbia, do México e do Peru. Outras avaliações do FMI, baseadas no IBGE, indicam que nas famílias de baixa renda, que ingressaram há pouco no mercado, o comprometimento de renda é elevadíssimo.

Para justificar o endividamento, as autoridades argumentam que a relação crédito/PIB é baixa. E enfatizam a queda da inadimplência: do ponto mais elevado (7,9%, em maio), ela caiu para 7,8%, em junho, segundo o BC. Para a Serasa Experian, a inadimplência do consumidor caiu 1,5% entre junho e julho; entre julho de 2011 e de 2012 houve alta de 10,5%; e entre os primeiros sete meses de 2011 e 2012, a inadimplência cresceu 17,8%. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) afirma que já está em curso uma redução do endividamento.

No Brasil, a relação crédito/PIB ainda é inferior à de países desenvolvidos - portanto há espaço para crescer -, mas ela vem avançando rapidamente. O risco é que muitos novos tomadores são ignorantes em finanças. Deveriam, pois, ser mais prudentes e menos fascinados pela síndrome do consumismo.

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