Yannis Behrakis/Reuters
Yannis Behrakis/Reuters

Endurece o aperto

Resolver os problemas financeiros da Grécia não será fácil e a euforia com a vitória do Syriza parece ter amainado

O Estado de S.Paulo

29 de março de 2015 | 02h04

Em tempos difíceis e incertos, a anistia fiscal pode ser um incentivo para a população. Stelios Alivizakis, consultor de engenharia que luta para sobreviver em plena depressão do mercado imobiliário da Grécia, ficou extremamente feliz quando o Syriza, o partido radical de esquerda que está no governo, anunciou uma semana de "promoções especiais" para os devedores do Fisco. Quem quisesse pagar parte ou o total dos seus impostos devidos até 27 de março não precisaria pagar os juros. "Vou poder respirar um pouco para pôr meus negócios em ordem", disse Alivizakis, que deve milhares de euros de impostos de renda, imobiliários e sobre o valor agregado.

Muitos homens de negócios gregos bastante endividados tiveram a mesma reação. O site do Fisco do Ministério das Finanças recebeu mais de 100 mil acessos em alguns minutos, depois que a oferta foi postada. Nadia Valavani, vice-ministra de Finanças encarregada de encher os cofres vazios da Grécia, informou que nas primeiras 24 horas foram arrecadados 50 milhões (US$ 55 milhões). Ela esperava arrecadar mais 200 milhões até o fim de semana. Isso deverá agradar às autoridades que enfrentam graves dificuldades para pagar as aposentadorias e os salários atrasados dos funcionários públicos no fim do mês. Também poderá evitar um possível calote no dia 9 de abril, quando a Grécia terá de pagar uma parcela de 450 milhões do empréstimo obtido do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Entretanto, resolver os problemas financeiros mais profundos não será tão fácil, e a euforia que tomou conta do país depois da vitória eleitoral do Syriza, em janeiro, amainou. Os credores da Grécia estão apertando o cerco ao corajoso e inexperiente governo de Alexis Tsipras.

O primeiro-ministro não teve sucesso em seus esforços para desbloquear parte de uma parcela de 7,2 bilhões do pacote de ajuda, necessários para que a Grécia não afundasse enquanto negociava um novo acordo com a União Europeia (UE) e o FMI. Yanis Varoufakis, seu determinado ministro das Finanças, incomodou as autoridades da UE e seus colegas, inclusive Wolfgang Schaeuble da Alemanha (Vanoufakis foi aconselhado a não sair de Atenas e ajudar os tecnocratas do fundo de ajuda a elaborar um pacote de reformas em caráter emergencial).

Em Atenas, alguns mostraram-se esperançosos com a visita de Tsipras a Berlim, no dia 23 deste mês, para conversar com a chanceler alemã, Angela Merkel, melhorar o clima. As autoridades gregas estavam entusiasmadas, afirmando que o "diálogo" iniciara. Mas a tristeza voltou no dia seguinte, quando funcionários de alto escalão do Ministério das Finanças da zona do euro rejeitaram um pedido grego de devolução de 1,2 bilhão que Atenas afirmava ter pago por engano ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, o fundo de salvamento da UE.

"Agora, estamos há dois meses numa espécie de montanha-russa, e não vemos sinal de quando isso acabará", diz Alkis Stamatopoulos, exportador de azeite de oliva. "Ficou impossível planejar qualquer coisa."

A Grécia voltou a entrar em recessão depois da modesta recuperação do ano passado, afirmam representantes do banco central. As projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano foram reduzidas extraoficialmente de 2,9% para cerca de 1,5%. Depois de declinar em 2014, o desemprego voltou a subir. Por enquanto, as reservas dos turistas foram mantidas, mas a situação poderá mudar rapidamente se continuar o impasse com os credores gregos.

Os bancos gregos agora dependem de um fundo de emergência cujos recursos deverão entrar como conta-gotas, aprovado numa base semanal pelo Banco Central Europeu (BCE). O crédito aos importadores secou; as empresas sediadas em Atenas queixam-se de ter de pagar os fornecedores à vista, antes que os produtos tenham sido embarcados. Grupos maiores enviaram dinheiro para contas em outros países da zona do euro. Os armadores gregos ganham apenas o suficiente para pagar seus funcionários.

Um dos principais banqueiros gregos calcula que os cidadãos comuns começaram a esconder cerca de 10 bilhões debaixo do colchão desde que o Syriza chegou ao poder. Eles temem que a Grécia siga o exemplo de Chipre, em 2013, e seja forçada a impor controles sobre os capitais. Mais 15 bilhões em depósitos foram enviados para fora do país. Há certa ansiedade no ar, principalmente entre os que têm algo a perder. Entretanto, a sensação de pânico que tomou conta de Atenas em 2012, quando a saída da Grécia da zona do euro parecia iminente, hoje é menos aguda. "Acho que os europeus não nos abandonarão depois de tudo o que a Grécia passou nos últimos cinco anos", afirma Maria Ifantidou, aposentada.

Tsipras continua desfrutando da confiança de grande parte da população, embora seu índice de aprovação tenha baixado de mais de 80%, depois de sua eleição em janeiro, para cerca de 60% neste momento. O Syriza tem mais de 20 pontos à frente do partido Nova Democracia de centro-direita, apesar das nuvens no horizonte financeiro.

Muitos gregos admiraram a postura firme de Tsipras com os credores do país depois de sua eleição, contudo não têm certeza se ele obterá os resultados desejados. Como as pessoas começam a se preocupar com a falta de pagamento dos salários e com os caixas eletrônicos desprovidos de dinheiro, sua popularidade provavelmente cairá ainda mais.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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