Energia nuclear é energia limpa?
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Energia nuclear é energia limpa?

Aprovação da energia nuclear e do gás natural como fontes sustentáveis pela União Europeia acirra as discussões sobre a transição energética e a substituição dos combustíveis fósseis

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2022 | 20h22

A União Europeia acaba de tomar uma decisão polêmica: a de considerar energias limpas também as produzidas por centrais nucleares e por termoelétricas a gás natural.

Embora contrarie ambientalistas e políticas já definidas por governos, este é o reconhecimento de que a transição para a pretendida energia verde e sustentável não é apenas cara. É também tecnicamente difícil e levará tempo. Mas isso tem de ser mais bem explicado.

As centrais nucleares, embora não produzam poluição imediata, estão sujeitas a dois problemas ambientais: ao risco de um acidente como os que aconteceram nas Usinas de Chernobyl, na antiga  União Soviética (1986), e de Fukushima (2011), no Japão; e às dificuldades de estocar resíduos radioativos. Foram essas razões que levaram a Alemanha a descartar a energia de fonte nuclear.

O gás natural é uma fonte menos poluente do que os derivados de petróleo e o carvão mineral, mas não é inteiramente verde e não é renovável.

Apesar dessas contraindicações, a União Europeia, tão ciosa de suas responsabilidades ambientais, não vacilou em incluir essas duas fontes de energia em sua lista de merecedoras de incentivos especiais.

A questão de fundo é a de que não está claro como o petróleo e o carvão, embora já descartados a médio prazo, podem ser substituídos por outras fontes aceitáveis de energia.

O carro elétrico, por exemplo, é quase uma unanimidade na Europa. A Noruega anunciou que pretende eliminar carros novos a gasolina ou diesel até 2025. A indústria automobilística vai respondendo a essa drástica mudança da demanda. Mas isso não basta. É preciso saber como é produzida a energia elétrica consumida por essa nova frota. Pouco adiantaria se os mesmos gases hoje emitidos pelos escapamentos de veículos a combustão fóssil forem despejados na atmosfera pelas chaminés das termoelétricas a carvão ou a óleo combustível.

A disparada dos preços do petróleo e do gás natural (veja o gráfico) mostra que, pelo menos por mais uns 15 anos, a economia global continuará dependente de combustíveis fósseis

 

Bastou que a economia mundial ensaiasse uma recuperação para que os preços do barril de petróleo (tipo Brent) saltassem 73% em um ano e 17% apenas nesse começo de 2022. Alguns analistas já cantam o preço do petróleo a US$ 100 por barril. O caso do gás ainda passa por séria restrição geopolítica, que é o risco de que os gasodutos que abastecem a Europa com gás russo sejam bloqueados pelo acirramento dos conflitos que envolvem a Ucrânia.

Ou seja, algumas das importantes demandas dos ambientalistas não estão em condições de ser cumpridas sem o risco de disparada da inflação, de redução do avanço do PIB e de mais desemprego

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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