ANDREW TESTA | NYT
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Energia solar dá renda extra a propriedades rurais

Produção obtida com painéis em fazenda no Reino Unido é repassada à rede de eletricidade local

Stanley Reed, The New York Times

10 de dezembro de 2016 | 05h00

INGLATERRA - A bela fazenda de Nicholas Beatty, nos arredores de Hartwell, encontrou uma nova forma de gerar dinheiro. Fileiras de painéis solares acinzentados cobrem 10 hectares da propriedade, transformando a luz do sol em eletricidade, enquanto cervos do tamanho de cachorros pulam.

Os painéis, uma forma fácil de ganhar dinheiro alimentando a rede de eletricidade, não são mais tão incomuns nas propriedades rurais do Reino Unido. A novidade dos campos de Beatty é um enorme contêiner de 12 metros de comprimento.

Em seu interior, armazenadas em prateleiras, cerca de 200 células de íon-lítio que formam uma bateria grande o bastante para armazenar uma parte substancial da eletricidade solar gerada pela fazenda.

A bateria e seu software dão a Beatty uma vantagem em relação a outros produtores. No Reino Unido, o preço da energia varia, muitas vezes de forma considerável, ao longo do dia e dependendo da época do ano, de acordo com a oferta e a procura. Ao armazená-la, Beatty pode fornecer energia à rede quando os preços estão mais altos. “A bateria deixa de enviar energia quando a produção está grande demais, devolvendo quando há pouca energia na rede”, afirmou.

Beatty conta que a bateria custou cerca de 850 mil libras e poderá aumentar seu faturamento anual em até 200 mil libras. Além de ganhar mais com o agendamento da transferência de energia para o sistema, ele planeja entrar em um leilão para se tornar fonte reserva de energia, para compensar quedas inesperadas na rede.

Beatty é um dos empreendedores que tentam se adaptar às rápidas mudanças do cenário energético. A iniciativa global para combater a mudança climática está forçando o setor a evoluir. Usinas elétricas de carvão mineral são poluidores e estão sendo fechadas, ao passo que fontes limpas de energia crescem rapidamente.

Embora as fontes de energia renováveis tenham a enorme vantagem de não emitir os gases responsáveis pelo aquecimento global, os operadores das redes de energia têm dificuldade para contar com esse tipo de energia, já que a produção depende do vento ou do sol. Além disso, a energia que produzem é basicamente gratuita, o que força os preços para baixo.

“O uso crescente de fontes renováveis está criando um sistema energético instável”, afirmou David Hill, gestor da Open Energy, uma empresa britânica que ajuda indústrias a pouparem dinheiro por meio da gestão do uso de energia. “Agora, as pessoas encontram benefício na flexibilidade.” As baterias são uma forma de alcançar essa flexibilidade.

Em meio a tantas transformações, o Reino Unido e outros países criaram incentivos para que as empresas que geram energia não deixem a luz acabar. Neil Hutchings, diretor de sistemas energéticos e armazenamento na Anesco, a pequena empresa britânica que forneceu as baterias usadas por Beatty, afirmou que existem 14 formas pelas quais a empresa pode faturar.

Embora tenha dito que as baterias, importadas da China, estejam melhorando a cada dia, a chave está nos controles eletrônicos que permitem que elas reajam quase instantaneamente às necessidades da rede.

Armazenar eletricidade durante algum tempo sempre foi um dos maiores desafios para as fontes renováveis, mas Steve Holliday, antigo executivo-chefe da National Grid, a operadora da rede britânica, afirmou em evento recente que as baterias podem ter um papel comercial cada vez maior. “O armazenamento industrial de volumes realmente grandes de energia estará disponível no Reino Unido em breve.”

Só o início. Beatty, de 55 anos, era banqueiro e começou a trabalhar com energias renováveis durante um plano de instalação de turbinas eólicas nos arredores de sua fazenda de 142 hectares, cerca de 100 km ao norte de Londres. Com a ajuda de amigos e familiares, incluindo o consultor energético James Basden, ele gastou 6,5 milhões de libras para construir a fazenda solar em 2014. Os painéis solares, que geram cerca de 650 mil libras de faturamento por ano, são teoricamente capazes de iluminar 2 mil casas, afirmou Beatty.

Longe da vista, os painéis não afetam a beleza da fazenda, onde um rebanho de gado inglês pasta nos campos com carvalhos que passam dos 1.200 anos de idade.

A casa de pedra do século 17 já foi um chalé de caça da família real e está repleto de lembranças do pedigree transatlântico da família Beatty. Seus avós paternos eram o comandante de um navio de guerra britânico durante a 1.ª Guerra Mundial e a filha de Marshall Field, em empreendedor de Chicago.

Beatty conta que seus experimentos com baterias – o da fazenda é o segundo – podem abrir os olhos para futuras oportunidades econômicas. Por exemplo, mais carros elétricos nas ruas exigirão adaptações à rede elétrica para acomodar os picos de energia associados ao carregamento dos veículos. “Essas baterias vão se tornar muito necessárias. Acreditamos que esse seja apenas o início do processo.”

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