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Engatando o ciclo

É preciso avançar com as reformas para os empresários tirarem os projetos da gaveta

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 04h00

Em meio ao crescente temor de uma recessão global, após indicadores mostrando uma desaceleração mais forte do que o esperado na zona do euro, na China e nos EUA, o Brasil encontra-se numa posição favorável em relação a outros países emergentes para atrair investidores: está no início de um ciclo econômico de expansão.

Esse é o argumento de muitos investidores para antecipar uma tendência de alta dos ativos brasileiros, especialmente da Bolsa. Mas, como a recuperação da economia tem ficado muito aquém do que se projetava neste ano, quais obstáculos podem fazer com que esse novo ciclo leve mais tempo para engatar, frustrando os investidores?

Na mais recente pesquisa Focus, do Banco Central, o consenso dos analistas estima um crescimento do PIB de 0,87% neste ano e de 2,07% em 2020, ritmo considerado ainda muito lento para aliviar os mais de 12,5 milhões de brasileiros que estavam em busca de trabalho no trimestre encerrado em julho, quando a taxa de desemprego ficou em 11,8%.

“Comparativamente a outros países do mundo, o Brasil hoje é o país que está mais no começo do ciclo de recuperação econômica”, diz o economista-chefe da Trafalgar Investimentos, Guilherme Loureiro. “A ociosidade na economia está elevada e o mercado de trabalho tem bastante mão de obra para ser empregada.”

Quando se compara com a maior potência mundial, os Estados Unidos, fica claro o estágio atual no ciclo econômico do Brasil. A taxa de desemprego nos EUA, de 3,7% em agosto, está entre 0,5 e 1,0 ponto porcentual abaixo do nível considerado neutro por muitos no mercado, isto é, que não pressiona a inflação. Já no Brasil, essa taxa está entre 2,0 e 3,0 pontos porcentuais acima do neutro.

O hiato do produto, ou seja, a diferença entre o PIB corrente e o considerado como o potencial, está positivo entre 1,5 e 2,5 pontos porcentuais nos Estados Unidos, enquanto que no Brasil esse hiato está negativo entre 2 e 3 pontos. Em termos de inflação, o núcleo do índice de preços ao consumidor americano subiu a uma taxa anualizada de 2,2% em julho, ou 0,20 ponto acima da meta perseguida pelo Federal Reserve (Fed). Já o IPCA de agosto, que subiu 3,43% em 12 meses, está 0,82 ponto abaixo da meta fixada pelo BC neste ano.

Olhando para frente, por que o mercado antecipa que a recuperação possa engatar daqui a seis meses? Porque as condições financeiras melhoraram significativamente no Brasil.

A inclinação da curva americana, por exemplo, mostra que os juros de curto prazo (as taxas nos títulos públicos de dois anos de vencimento) estão no mesmo nível dos juros de prazo mais longo (de dez anos), enquanto que, no Brasil, as taxas dos contratos futuros de dois anos estão cerca de 2 pontos porcentuais abaixo das praticadas nos contratos de dez anos.

Ou seja, nos Estados Unidos o mercado percebe os juros de curto prazo já próximos do que se considera como neutro. No Brasil, a taxa de curto prazo está em nível percebido como bastante estimulativo para a atividade econômica. Em termos de preços de ativos, o Ibovespa fechou agosto de 2018 a 76.677,53 pontos. Em agosto passado, o índice encerrou a 101.134,61 pontos.

Sem falar que o mercado aposta que o Copom seguirá cortando os juros básicos, chegando a até 5,0% no fim deste ano, o que estimula o mercado de crédito. Não à toa, o saldo de crédito total real (descontada a inflação) cresceu 1,8% em julho deste ano em relação a igual mês de 2018. Em julho do ano passado, essa taxa sobre o mesmo mês de 2017 registrava queda de 2,2%. As concessões de crédito livre para pessoas físicas estão aumentando a um ritmo forte. Em julho, aumentaram 13,4% em 12 meses.

A melhora dos investimentos é um dos gatilhos do crescimento em economias que se encontram no início do ciclo. Por enquanto, a reação dos investimentos ainda é tímida.

É preciso um avanço maior na agenda de reformas para levar os empresários a tirar projetos da gaveta: concluir a reforma da Previdência e aprovar mudanças no sistema tributário. Sem saber que tipo de impostos vão pagar, os empresários provavelmente vão deixar os investimentos em banho-maria, postergando a velocidade de um novo ciclo econômico engatar.

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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