Engenheiro indiano assumirá a Microsoft

Com a chegada de Satya Nadella, Bill Gates deixa o cargo de presidente do conselho

Nick Wingfield, The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2014 | 02h10

A Microsoft anunciou ontem que Satya Nadella será o novo presidente da empresa, apostando assim num antigo executivo da área de engenharia para ajudar a companhia a acompanhar melhor o ritmo das mudanças no setor de tecnologia.

A escolha de Nadella para substituir Steven A. Ballmer veio acompanhada da notícia de que Bill Gates deixará a função de presidente do conselho para se tornar conselheiro de tecnologia de Nadella. Quem substituirá Gates será John W. Thompson, de 64 anos, membro do conselho de administração da empresa e um dos que foram encarregados de buscar um novo diretor executivo.

"Durante este período de transformação, não há pessoa melhor do que Satya Nadella para dirigir a Microsoft", afirmou Bill Gates, que continuará como membro do conselho da companhia. "Satya é um líder comprovado com capacidade intrínseca de engenharia, visão de negócios e habilidade para reunir as pessoas."

Em comunicado, Nadella disse que a "Microsoft é uma dessas raras companhias que revolucionaram o mundo pela tecnologia e não poderia me sentir mais honrado ao ser escolhido para dirigir a empresa".

Quanto aos diretores da Microsoft, eles escolheram um engenheiro e uma pessoa totalmente familiarizada com a companhia, o que indica que consideraram a capacidade técnica e o profundo conhecimento das diversas operações da Microsoft como qualidades fundamentais para o próximo líder.  

Com frequência foi observado que a Microsoft teve mais sucesso quando ficou sob a liderança de Bill Gates, um programador, seu primeiro diretor executivo, do que sob a condução de Ballmer, um especialista em vendas. Ballmer, de 57 anos, anunciou em agosto sua saída da Microsoft.

Luta por posição. Nadella, de 46 anos, será o terceiro diretor executivo da Microsoft - ícone do mundo empresarial dos Estados Unidos que vem lutando para manter uma posição nos mercados de grande crescimento, como buscas na internet e celulares. A companhia previu muitas das grandes mudanças no campo da tecnologia (o avanço dos smartphones e tablets, para usar dois exemplos), mas com frequência falhou na execução de produtos desenvolvidos para essas mudanças.

Resta ver se o conhecimento técnico do novo presidente, juntamente com um envolvimento maior de Gates nas decisões sobre produtos, darão à empresa a competitividade que ela não teve durante os anos em que foi dirigida por Ballmer.

Em comunicado, a Microsoft disse que Gates "devotará mais tempo à companhia, apoiando Nadella na criação de novas tecnologias e novos produtos".

"Acho que ele é a pessoa certa para a empresa neste momento", afirmou Frank Artale, ex-gerente da Microsoft que trabalha para a Ignition Partners, empresa de capital de risco de Seattle. "Eles precisavam realmente de um líder técnico."

Nadella contrasta com Ballmer em outros aspectos. Atuando mais recentemente como vice-presidente executivo da área de computação em nuvem da empresa, ele tempera conversas e discursos com jargão técnico que pessoas fora do setor costumam achar ininteligíveis.

Enquanto muitos executivos dentro da empresa tendem a ser personalidades polarizadoras, ele é muito estimado na companhia. E os que o conhecem dizem que não é um sujeito influenciável.

"Os gerentes precisam mostrar competência diariamente", disse Artale.

Nuvem. A estrela de Nadella na Microsoft subiu consideravelmente nos últimos anos quando ele assumiu as operações de computação na nuvem, consideradas vitais uma vez que mais empresas decidem alugar aplicativos e outros programas em centros de dados remotos em vez de elas próprias rodarem o software.

Durante anos a Microsoft não prestou atenção em como a nuvem - principalmente por meio de serviços oferecidos pela Amazon, sua maior rival - estava atraindo a criatividade de uma nova geração de desenvolvedores. Quando assumiu o controle da divisão que abrangia as atividades na nuvem da empresa, Nadella mudou tudo. Começou a se reunir com startups para saber mais sobre o que a empresa podia fazer para atendê-las.

"Quando você olha as coisas mais excitantes acontecendo na área de tecnologia, todas as mudanças de plataforma acontecendo - rede social, celulares, nuvem - a Microsoft não fazia parte disso tudo até recentemente", disse Brad Silverberg, investidor de Seattle e antigo executivo da Microsoft. "Sob a liderança de Satya, a Microsoft está fazendo coisas interessantes na nuvem."

Como presidente de toda a empresa de 100 mil funcionários, Nadella terá de enfrentar muitos outros desafios em mercados nos quais tem pouca experiência, como o de celulares. E herdará um acordo de aquisição da unidade de dispositivos móveis da Nokia, junto com 33 mil empregados, além de um vasto plano de reorganização concebido por Ballmer e ainda em andamento.

Numa entrevista em julho, ele defendeu o plano, que tem como objetivo permitir que a Microsoft se adapte às mudanças de mercado mais rápido do que no passado.

"Não é que a nossa velha estrutura não permitia fazer isto. A questão é saber se você consegue expandir", disse ele.

Mas, em entrevista em abril, ele disse que o fator mais importante para a Microsoft progredir no futuro era a sua capacidade de se tornar um ator importante no que qualificou de novos paradigmas da computação, como a computação na nuvem. "Você pode dizer que este é um problema existencial para nós", afirmou.

"Acho que no caso de qualquer novo paradigma sempre haverá novos players entrando no mercado. Mas para mim o mais interessante, desafiador e entusiasmante é saber como podemos nos renovar."  (Tradução de Terezinha Martino)

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