Eni desiste de gás em parceria com a Vale

Eni desiste de gás em parceria com a Vale

Petroleira italiana concluiu que campo na Bacia de Santos não vale o investimento

Nicola Pamplona e Kelly Lima, RIO, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

A italiana Eni e a mineradora Vale devem resolver, até a próxima semana, uma novela de mais de 10 anos: o destino das reservas de gás de Belmonte, descobertas pela Eni na Bacia de Santos. Os italianos querem devolver o bloco à Agência Nacional do Petróleo (ANP) por não considerarem as reservas viáveis. A Vale diz que o projeto "ainda faz parte de seu portfólio".

Nenhuma das companhias comenta o assunto. O plano de avaliação da descoberta vence no dia 31, quando as companhias terão de informar à ANP se vão prosseguir com o investimento. Fontes próximas ao projeto dizem que a Eni já bateu o martelo pela devolução, mesmo após ter comunicado descobertas em todos os três poços perfurados.

A concessão foi arrematada pela Eni na primeira rodada de licitações da ANP, em 1999, com um ágio recorde de 53.664%, ação que surpreendeu o mercado por tratar-se, na época, de uma nova fronteira exploratória. Em 2002, a companhia comunicou sua primeira descoberta na região. Dois anos depois, a Petrobrás confirmou ter encontrado, ao lado, o maior campo de gás do País, batizado de Mexilhão.

A Vale entrou no projeto no ano passado, adquirindo uma fatia de 50% da concessão com o compromisso de perfurar um terceiro poço, concluído em dezembro com mais uma descoberta. Para observadores próximos, a mineradora ainda estaria buscando uma solução para prosseguir com os trabalhos, diante do risco de perder o investimento no poço - os valores costumam superar US$ 100 milhões.

Uma das alternativas seria apelar para cláusula do contrato que permite sua suspensão por até 5 anos, em caso de dificuldades de mercado e de falta de infraestrutura para escoamento. O mercado de gás hoje passa por um mau momento, por causa da crise e do surgimento de novas tecnologias que permitem produzir o combustível a partir do xisto, abundante nos Estados Unidos.

Em palestra esta semana, o diretor da Gas Energy e ex-ministro de Hidrocarburos da Bolívia, Alvaro Rios Roca, destacou que os atuais preços do gás praticamente inviabilizam novos investimentos. O custo de liquefazer o produto, na casa dos US$ 5 por milhão de BTU, é maior do que o preço de venda no exterior. "Uma unidade como essa custa muito alto. Apenas com um GNL negociado por no mínimo US$ 7 é que se começa a pensar em cobrir custos", disse.

A colocação do gás no Brasil, por outro lado, demanda negociações com a Petrobrás, dona da rede de transporte do combustível, hoje com poços fechados por falta de demanda. Fora as dificuldades no mercado, a exploração de Belmonte apresenta dois outros entraves. O primeiro é geológico: fontes próximas dizem que os reservatórios encontrados são de má qualidade.

"Há uma equação que tem de levar em conta a dificuldade da extração do gás, o custo, a quantidade e quanto pode ser pago por esse combustível. Se for uma reserva de mais de 1 trilhão de pés cúbicos, mesmo com dificuldades de exploração e preços baixos, o volume compensa", disse o consultor Luiz Costamillan, ex-presidente brasileiro da BG, também produtora de gás.

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