Hiroko Masuike/The New York Times
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Enquadrando a arbitragem regulatória

Perdas e ganhos do embate entre gamers e hedge funds foram mais pirotécnicos

Paulo Leme*, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2021 | 22h30

A última semana de janeiro foi uma festa para os gamers convertidos em lobos e um pesadelo para os tubarões de Wall Street. 

Os gamers representam os efeitos da tecnologia disruptiva: uma poderosa combinação de serviços financeiros de corretagem oferecidos através de aplicativos e da coordenação entre investidores operando através de redes sociais. Os tubarões combinam a experiência financeira dos hedge funds com o alto grau de alavancagem financiado pelos bancos e exigências regulatórias brandas.

As perdas e ganhos causados pelo embate entre os gamers e os hedge funds foram mais pirotécnicos do que significativos. O índice da Bolsa S&P 500 caiu 3,7% e a volatilidade dobrou. Os preços das ações de algumas empresas subiram à estratosfera, enquanto que os hedge funds amargaram o maior “short squeeze” dos últimos 25 anos, forçando-os a liquidar ativos para gerar caixa. Isso explica a queda brusca do preço das ações dos gigantes da tecnologia. 

O que me preocupa é o que está por detrás dessa fábula: sem o enquadramento dos reguladores e do Fed, isso pode acabar mal para o mercado e para o varejo. 

Três fatores explicam o que ocorreu no mercado: causalidade, condutividade e gatilhos. Causalidade: excesso de liquidez gerado por políticas monetárias e fiscais expansionistas, sendo que a última transfere renda para alguns que não precisam. Em 2020, a base monetária real nos EUA cresceu 50% – quatro vezes maior do que a expansão da base na Argentina. 

A liquidez excessiva gera um excesso de demanda por ativos financeiros (ações) e instrumentos especulativos, como o bitcoin e ações de empresas insolventes. O aumento de 4,6 vezes na cotação do bitcoin sinaliza a formação de bolhas financeiras. O comportamento especulativo por detrás dos aplicativos de corretagem e as distorções nos preços relativos das ações indicam que o uso prolongado de taxas de juros negativas é nocivo à eficiência do mercado de capitais. 

A condutividade tem duas partes. A primeira é que os reguladores não responderam a tempo aos efeitos da tecnologia disruptiva no mercado de capitais. A entrada de corretoras e investidores que não estão sujeitos às mesmas regras, aos altos requerimentos de capital e liquidez, e compliance aos quais os bancos estão sujeitos, geram uma arbitragem regulatória, desequilibrando o mercado. A segunda é causada pela conectividade entre os investidores que, a diferença dos seus pares no mercado regulado, não estão sujeitos a qualquer tipo de supervisão ou regras.

Os gatilhos são gerados pela combinação de eventos, instituições e indivíduos que operam às margens do radar regulatório. O caso do GameStop e do short squeeze da semana passada são prenúncios do que pode ocorrer quando misturamos querosene de aviação com a falta de regulação e supervisão dos gamers; novas plataformas; hedge funds; demanda especulativa por ações baratas; excesso de alavancagem através de margem de garantia; e o uso ilimitado da mesma ação para viabilizar a venda a descoberto. 

Os reguladores têm de estimular a livre concorrência, encorajar inovações financeiras, e ser receptivo à inclusão de novos investidores no mercado de capitais. No entanto, eles têm de equilibrar liberdade com medidas prudenciais e regulatórias que protejam os investidores e reduzam o custo da intermediação financeira.

Os bancos centrais têm de reconhecer que, apesar de necessária, a política monetária expansionista corrói a referência de preço dos mercados. Os reguladores têm de usar medidas macroprudenciais para encarecer o uso de margem de garantia, e aumentar os requerimentos de capital e de liquidez proporcionalmente ao aumento do risco da operação financeira. 

Os reguladores têm de supervisionar as novas plataformas de trading e corretagem e, na medida que elas aumentem o risco sistêmico do mercado, exigir mais capital e liquidez. As novas corretoras deveriam certificar a adequação e conhecimento dos seus clientes, dando-lhes acesso a produtos de maior risco e alavancagem na medida em que eles demonstrem capacitação, experiência, e patrimônio para bancar risco.

Os investidores que usam as redes sociais para recomendar investimentos deveriam ser responsáveis pela origem e consequências dessas informações, e estar sujeitos às mesmas regras e sanções exigidas dos assessores de investimentos profissionais. 

Em 1933 e 1940, o governo americano aprovou leis para proteger o investidor contra abusos no mercado de capitais e na indústria de gestão patrimonial. Hoje, o marco legal para regular as novas plataformas pode ser construído com a reforma de Dodd-Frank, que foi aprovada em 2010 visando a proteger o investidor. Regulação reativa tende ao exagero e, em geral, leva ao resultado oposto do desejado. 

* PROFESSOR DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI E PRESIDENTE DO EXECUTIVO COMITÊ GLOBAL DE ALOCAÇÃO, XP PRIVATE 

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