Beth Coller/NYT
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Enquanto a pandemia obrigava a demitir mão de obra, os CEOs abriram mão de bem pouco

Alguns executivos ofereceram cortar os seus salários, mas a maioria não o fez; aqueles que o fizeram, abriram mão de menos de 10% do que receberam no ano passado

Peter Eavis, The New York TImes

30 de julho de 2020 | 10h00

Quando a pandemia fez com que as companhias pusessem em férias coletivas milhares de funcionários, alguns diretores executivos decidiram dar uma demonstração de solidariedade renunciando a parte da sua remuneração. Ocorre que, na realidade, o sacrifício foi mínimo.

Uma pesquisa realizada em três mil companhias negociadas em bolsa mostra que os cortes –, até o momento, na forma de reduções dos salários – foram bem pequenos se comparados ao total de seus ganhos no ano passado. O total das remunerações inclui bônus e concessões de ações que tipicamente constituem o grosso do que os diretores das grandes corporações levam para casa.

Apenas uma porcentagem reduzida das companhias cortou o salário dos seus altos executivos, o que é surpreendente, considerando que a pandemia corroeu os lucros e as vendas de muitas empresas, obrigando-as a um número considerável de demissões. Mas mesmo entre as empresas que cortaram o pagamento dos chefes, dois terços dos diretores executivos tiveram reduções equivalentes a apenas 10% ou menos das sua remuneração de 2019, segundo uma análise da CGLytics, empresa que analisa as remunerações.

Entre as companhias deste grupo estão The Walt Disney Co., Delta AirLines, United Airlines e Marriott International. Todas essas empresas demitiram ou deram licença remunerada aos funcionários ou os pressionaram a aceitar cortes dos salários.

Esta análise das remunerações aponta mais um exemplo de que a pandemia do coronavírus, que sacrificou a classe trabalhadora e a classe média, poupou em grande parte os que estão no topo da hierarquia econômica.

“Estes cortes salariais foram mais de fachada do que qualquer outra coisa”, disse Liz Shuler, secretária-tesoureira da AFL-CIO.

A federação trabalhista divulgou na quarta-feira um relatório que mostra que, no ano passado, as companhias do índice S&P 500 pagaram a seus diretores executivos salários em média 264 vezes maiores do que os dos funcionários das categorias médias, ante 287 vezes em 2018.

Evidentemente, esta análise é incompleta porque o ano ainda não terminou. Nos próximos meses, talvez os conselhos de direção das corporações decidam reduzir significativamente os bônus e as opções de ações que concedem aos principais executivos em 2020. Isto representará um importante rompimento em relação aos últimos anos, quando os conselhos, que são constituídos principalmente por executivos da corporação e investidores, aprovavam pacotes de remuneração até maiores.

Alguns diretores executivos já provaram este remédio. A pesquisa mostrou que Glenn Kelman, diretor executivo da Redfin, uma corretora de imóveis de Seattle, sofreu um corte equivalente aos US$ 284 mil que ele recebeu em 2019.

“A razão para fazermos isto foi a necessidade de dar licença ou demitir a mais de mil pessoas”, respondeu Kelman à indagação sobre o que motivou a decisão de reduzir o seu salário. “Não se trata apenas do corte do salário; é o sentido geral de que o capitalismo não funciona para todos”.

A CGLytics pesquisou as companhias do índice Russell 3.000, que inclui a maioria das empresas negociadas em bolsa nos Estados Unidos, e constatou que 419 revelaram detalhes dos cortes dos salários. Somente cerca de 10% destas cortaram os salários em mais de 25% da remuneração total “ realizada” dos executivos em 2019. A CGLytics encontrou  o número somando todo o dinheiro e as ações que cada executivo do mais alto escalão recebeu no ano passado. A firma avalia as ações ao preço ao qual foram negociadas em 31 de dezembro.

O preço de muitas ações caiu consideravelmente esta primavera quando a pandemia se instalou. Mas os preços podem se recuperar com o tempo, e muitas delas apresentaram forte valorização desde março.

Enquanto ficava claro que a pandemia iria devastar a economia e seus negócios, muitos conselhos de direção e diretores executivos mostraram sentir a necessidade de dizer aos funcionários e aos investidores que eles estavam compartilhando do seu sofrimento.

A United Airlines informou que os cortes dos salários dos executivos foram um reconhecimento dos efeitos da pandemia e foram também “um exemplo”. A United, que foi duramente afetada por uma queda dramática da demanda das viagens aéreas, começará a dar licença a 36 mil funcionários no dia 1º de outubro. Oscar Munoz, que em maio se tornou o presidente executivo após ocupar o cargo de diretor executivo, não recebeu o salário de 10 de março a 30 de junho, o que correspondeu a um corte de US$ 610 mil  do salário de US$ 2 milhões que lhe está sendo pago este ano. Mas a redução correspondeu a pouco menos de 3% dos US$ 22,2 milhões que Munoz levou para casa em 2019.

A Disney deu a Robert A. Iger, seu ex-diretor executivo que deixou o cargo em fevereiro, grandes pacotes de remuneração ao longo dos quase 15 anos nos quais ele dirigiu a companhia. Iger, que atualmente ocupa o cargo de presidente executivo, abriu mão do seu salário do fim de março até o final do ano. Os US$ 2,25 milhões do pagamento ao qual renunciou equivalem a 3,3% da remuneração total de Iger em 2019, segundo a CGLytics. Em março, a Disney deu férias coletivas a dezenas de milhares de funcionários.

A indústria hoteleira também foi duramente afetada pela pandemia, e companhias como a Marriott International deram férias coletivas ou demitiram funcionários. O diretor-executivo da companhia, Arne M. Sorensen, sofreu um corte de salário equivalente a menos de 2% dos US$ 66 milhões de remuneração total que a CGLytycs afirma que ele recebeu em 2019. Connie Kim, uma porta-voz da Marriott, disse que cerca de US$ 50 milhões da remuneração do ano passado foi relativa aos direitos sobre a valorização de ações concedidos nove a dez anos antes.

Algumas companhias se limitaram a adiar os salários dos executivos sênior, em lugar de fazer os cortes diretamente. A General Motors adiou o pagamento de 30% dos salários da sua diretora executiva, Mary T. Barra, e de outros executivos de alto escalão, e de 20% de outros funcionários de colarinho branco. Os adiamentos, que começaram dia 1º de abril, iriam durar até seis meses, mas na terça-feira, a General Motors informou os funcionários de que encerrará os adiamentos de 20% no dia 1º de agosto. Barra e outros altos executivos continuarão com 10% dos seus salários adiados. Ela recebeu US$ 30 milhões em compensações realizadas no ano passado, segundo a CGLytics.

Indagado sobre a razão do fim dos adiamentos antes do que era esperado, James R. Cain, um porta-voz da companhia, disse: “A empresa exige que conservemos caixa, e além disso ela está se recuperando mais rapidamente do que o previsto”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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