Estadão
Estadão

Enquanto as nuvens se distanciam da Grécia, o Brasil escurece

Ambos são sinônimos de disfunção econômica, mas a Grécia, país membro da União Europeia, tem benefícios em função do euro, uma moeda sólida; Brasil, por sua vez, sofre com desvalorização do real

Matthew Winkler, Bloomberg News

08 de abril de 2015 | 17h32

Grécia e Brasil são sinônimos de disfunção econômica. Então, por que os investidores acreditam que a Grécia começa a se tornar uma aposta decente e consideram o Brasil um enorme risco? A resposta está em parte no euro. A Grécia, país membro da União Europeia, trabalha com uma moeda sólida (mesmo se imperfeita). O Brasil, sozinho, não.

Para os detentores de títulos este é um fator muito importante. Os títulos do governo grego propiciaram um retorno de 336% desde maio de 2012, ao passo que os títulos do governo brasileiro renderam 24%, computados em moeda local, de acordo com o índice do Bank of America Merrill Lynch. O Real brasileiro desvalorizou 14% este ano em relação ao dólar, a moeda de pior desempenho entre as 31 mais negociadas.

O ceticismo dos investidores também tornou o Real uma moeda menos previsível. Sua volatilidade, elemento com base no qual os traders avaliam o quanto o seu valor oscila diariamente, cresceu mais do que qualquer outra moeda este ano.

Dados econômicos cruciais também dão conta de uma história similar. O PIB - Produto Interno Bruto - da Grécia vem crescendo, registrando um aumento de 0,75% em 2014 e a previsão é de 1,5% e 2,4% este ano e no próximo, segundo economistas sondados pela Bloomberg. O PIB real do Brasil caiu ou não cresceu no ano passado e a previsão é de um declínio de 0,5% em 2015 e uma recuperação de 1,3% em 2016.

A inflação dos preços ao consumidor desapareceu na Grécia. Os preços registraram uma queda de 1,38% em 2014 e devem flutuar entre uma deflação e uma ligeira inflação nos próximos dois anos. O Brasil, pelo contrário, vem perdendo a luta contra a inflação, que deve saltar de 6,33% para 7,5% este ano, de acordo com dados da Bloomberg.

Ambos os países têm taxas de juro em ascensão, mas o mercado espera que os juros gregos cairão. Isto é mostrado pelas previsões econômicas de rendimentos menores quando for encontrada uma maneira de evitar um calote da Grécia, o que obrigaria a Grécia a deixar a zona do euro, mas os mercados financeiros não acreditam que isto ocorrerá pois o resultado seria o empobrecimento dos cidadãos, com falências em cascata.

A economia grega também começa a sair de uma severa recessão, um bom augúrio para os ativos gregos e o oposto das perspectivas para o Brasil. Assim, enquanto Brasil piora, a Grécia se recupera à medida que o risco de calote diminui.

A história das duas economias mostra como a Grécia ganha ao fazer parte da União Europeia e o Brasil sofre por estar sozinho: a Grécia paga ao Banco Central Europeu (BCE) um juro minúsculo de 0,05% ao passo que a taxa que o Banco do Brasil paga sobre os depósitos reais é de 13,20%. No mercado da dívida de longo prazo, os títulos referenciais de 10 anos rendem hoje 11,83%, ainda menos do que o rendimento de 12,87% da dívida denominada em real.

Mesmo com a extrema inquietação sobre o futuro da Grécia como membro da zona do euro, a saída hoje dos depósitos corporativos dos bancos na Grécia é uma sombra do que ocorreu em 2012. Quando o partido Syriza assumiu o governo do país, em janeiro, com a promessa de rejeitar a dívida de 320 bilhões de euros, os depósitos externos caíram 13,3% durante o mês em comparação com o mesmo período do ano passado. O presidente Alexis Tsipras desde então reduziu as demandas do seu governo. No auge da crise do euro há três anos, a fuga de fundos corporativos totalizou 30% no período correspondente de um mês.

Os papéis das empresas gregas têm registrado um desempenho razoável. O que não ocorre com suas colegas brasileiras. Mais de dois terços das ações do índice da Bovespa são negociadas a preços mais baixos do que os das suas contrapartes globais, com base no índice preço/lucro futuro. Por outro lado, mais de metade das companhias listadas na Bolsa de Atenas ainda são mais valorizadas do que suas concorrentes globais.

Se a Grécia tem o benefício da estabilidade garantida por sua filiação à zona do euro, o Brasil não tem essa base econômica. O Brasil caminha para uma recessão, vem sendo devastado pela seca, inflação, déficits e a instabilidade política. Para um pais que extrai mais de 75% da sua energia elétrica da água, o duplo infortúnio de ter algumas das mais altas taxas de juro do mundo e uma moeda cada vez mais frágil durante uma recessão deve tornar qualquer investidor inquieto, face ao risco de os juros continuarem a subir e a moeda desvalorizar.

O Brasil está só. A Grécia não. / TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO

Mais conteúdo sobre:
Brasilgrécia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.