Matt Dunham / POOL / AFP
Matt Dunham / POOL / AFP
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Enrolado esse Brexit!

As negociações da saída do Reino Unido da União Europeia apresentaram dois grandes problemas e as soluções até agora parecem ainda mais complexas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2018 | 17h00

O que havia sido festejado pela primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, como o melhor acordo para garantir uma saída ordenada da União Europeia transformou-se em brutal fonte de crises e de incertezas. O acordo, em princípio, está sendo considerado inaceitável, porque elimina qualquer influência decisiva do Reino Unido sobre a União Europeia e, ao mesmo tempo, o submete às regras comerciais da União Europeia.

As negociações do Brexit apresentaram dois grandes problemas. O primeiro é a definição do novo status da fronteira entre Irlanda, membro da União Europeia, e Irlanda do Norte, membro do Reino Unido. Depois de décadas de luta armada e grande número de vítimas, os tratados transformaram as Irlandas em irmãs siamesas. Entre elas deve prevalecer a livre circulação de pessoas, bens e serviços. O segundo problema é a definição da situação em que ficariam os cidadãos do Reino Unido que vivem na União Europeia e dos cidadãos da União Europeia que vivem no Reino Unido.

Até agora, não foram obtidas soluções satisfatórias para nenhum desses problemas. Se a fronteira entre as duas Irlandas for fechada e nela instalados postos de migração e de alfândega, estaria criado um pandemônio entre elas. Se permanecer aberta, seria impossível concluir o divórcio entre Reino Unido e União Europeia, porque mercadorias, serviços e negócios fluiriam livremente pela grande brecha entre os dois blocos.

A solução proposta pela primeira-ministra foi a instalação de uma união aduaneira entre Reino Unido e União Europeia, cujos termos ainda dependeriam de nova negociação, até 2020. Uma união aduaneira permitiria a livre circulação de mercadorias e serviços entre os dois lados, mas não unificaria o fluxo de pessoas e o mercado de trabalho. E, mais importante, exigiria união comercial, ou seja, exigiria vigência das mesmas tarifas de importação de mercadorias provenientes de terceiros países, além de compartilhamento dos acordos comerciais. Qualquer nova negociação comercial teria de ser realizada em comum, outro fator que manteria a dependência mútua.

As demissões de ministros e secretários de governo, principalmente a do mais importante negociador do Brexit pelo Reino Unido, Dominic Raab, mais as furiosas críticas aos termos do acordo criaram novos impasses.

A Câmara dos Comuns terá agora de pronunciar-se. Se a decisão for de rejeição – e, com ela, provavelmente viria o fim do mandato de Theresa May –, será preciso prever os passos seguintes.

Uma hipótese seria a separação unilateral que teria de desembocar no Brexit duro. Isso significaria reativação da fronteira entre as Irlandas, imposição de tarifas alfandegárias entre Reino Unido e União Europeia e definição de novas políticas para migração e para o mercado de trabalho. O resultado seria perda de competitividade do setor produtivo do Reino Unido, abrupto bloqueio de negócios, êxodo de empresas, esvaziamento da City de Londres e de todo seu sistema financeiro, perda de empregos e muita incerteza.

Outra opção seria reabrir as negociações. As dificuldades aí não seriam apenas enfrentar eventual recusa da União Europeia. Seriam definir uma saída, uma vez que ninguém apresentou proposta melhor do que o governo May, e enfrentar novas incertezas.

Terceira opção seria convocar nova consulta à população para reformar o que ficou decidido em 2016. Mas, nesse caso, o que teria de ser perguntado: se aceita os termos do acordo a que chegou o gabinete de May? Ou se desiste de uma vez do Brexit, o que equivaleria a manter como estão as relações com a União Europeia?

Se, depois da gritaria, dos protestos e das demissões de ministros, a conclusão for de que é melhor ficar com o acordo, além de conformar-se de que o grau de soberania desejado pelo Reino Unido não é possível, será preciso, então, enfrentar novas negociações: as dos termos da união aduaneira.

É preciso ver que a saída proposta por May implica adiamento da solução. Nessas condições, o governo do Reino Unido estaria comprando mais prazo (a separação definitiva está prevista para 29 de março). Diante dos impasses, talvez tenha sido essa a verdadeira intenção.

De todo modo, a temporada é de mais incertezas a pairar sobre as decisões estratégicas das empresas de um e de outro lado. Como fazer escolhas e como amarrar contratos de longo prazo se não se sabe em que terreno se estará pisando em dois ou três anos?

Essas incertezas, por sua vez, terão impacto sobre toda a economia mundial, pois não mexem com ilhotas isoladas da Antártida, digamos. Envolvem duas vigas importantes da economia mundial.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.