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Ensaio de euforia

À medida que a Justiça fecha o cerco aos focos primários de corrupção, mais provável se torna a esperada superação da crise política; Daí o ensaio de euforia que se viu nos mercados

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2016 | 21h00

À medida que a Polícia Federal e o Ministério Público fecham o cerco à corrupção e aos desvios administrativos dos governos Lula e Dilma, o mercado financeiro reage com largos festejos.

Apenas nos primeiros quatro dias úteis de março, quando a Operação Lava Jato editou mais dois desdobramentos, as cotações da Bolsa dispararam 14,7% e as do dólar afundaram 5,77% (veja os gráficos).

É um engano atribuir essa reação apenas a impulsos de natureza ideológica por parte dos senhores do dinheiro e das instituições diretamente ligadas a eles, embora eles também possam existir. Trata-se, bem mais do que isso, de um sinal espontâneo do mercado sobre a qualidade da recuperação da economia que poderia ser acionada a partir do simples resgate da confiança, hoje seriamente abalada.

Depois de tantos equívocos de política econômica e dos desastres por ela produzidos, a energia produtiva nacional submergiu num processo letárgico profundo e largo demais, à espera de que o melhor ambiente de negócios seja, afinal, resgatado. Não dá para investir em projetos de expansão quando as perspectivas são de aumento descomunal do rombo das contas públicas, do disparo da dívida para 80% ou 90% do PIB e da inflação ano após ano acima do teto da meta.

Às vezes, a presidente Dilma passa a impressão de que entendeu o que está em jogo. Agora, por exemplo, tenta se afastar do PT e dos seus gurus econômicos, os mesmos que produziram as deformações ainda em vigor e que continuam defendendo as mesmas esquisitices, como se viu no último documento apresentado ao Diretório Nacional, intitulado O Futuro está na Retomada das Mudanças. Nessa postura de afastamento do seu partido, parece mais propensa a adotar procedimentos sugeridos por políticos da oposição que buscam o fortalecimento dos fundamentos da economia. Nada indica que seja bem-sucedida, porque pode ser tarde demais. Agora, a presidente Dilma está sendo atropelada por outros determinismos, como pelos efeitos da Operação Lava Jato e pelas acusações de transgressões graves da Lei de Responsabilidade Fiscal.

A volta da confiança passa necessariamente pelo equacionamento da atual crise política que produziu o impasse e a paralisia do governo. E, à medida que a Justiça fecha o cerco aos focos primários de corrupção, mais provável se torna a esperada superação da crise política. Daí o ensaio de euforia que se viu nesta semana nos mercados.

A simples recuperação da confiança, no entanto, não seria suficiente para resolver os problemas de fundo. Há uma conta enorme sobre a mesa, a ser distribuída para os brasileiros. Mas uma coisa é pagar essa conta quando toda a economia continua afundando, como agora, e outra, bem diferente, se os tempos forem de retomada da atividade econômica e dos investimentos.

Falta saber se as novas fases da Operação Lava Jato precipitarão a esperada solução política ou se não terão força para isso. O pior cenário seria o prolongamento da atual crise até 2018.

CONFIRA:

Aí está como tem evoluído o saldo das cadernetas de poupança.

 Saques e mais saques

A retirada líquida de fevereiro foi de R$ 6,639 bilhões. É o pior resultado para o mês desde 1995. As razões dessa debandada são conhecidas: é o baixo rendimento em comparação com o que pagam outras aplicações de renda fixa; e a queda do poder aquisitivo provocada pela inflação e pelo desemprego, que obrigam o aplicador a recorrer a suas reservas para complementar o orçamento doméstico. Não há perspectiva de que os próximos meses sejam melhores.

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