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Ensino profissionalizante

Já passou da hora de criar uma política para jovens. Eles são 30% dos desempregados

Roberto Rodrigues*, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2019 | 04h00

Qualquer pessoa medianamente informada sabe que nas últimas décadas o Brasil não investiu em educação o mesmo que fizeram os países cujo desenvolvimento foi muito maior que o nosso. Outro tema nos comparando com aqueles que cresceram mais que nós é a produtividade do trabalho que, em última análise, também deriva do despreparo técnico do brasileiro, sobretudo dos jovens.

Na verdade, não temos uma política estruturada para nossa juventude, e está passando da hora de fazê-la. Quando terminam o Ensino Médio, nossos estudantes “trombam” com um futuro profissional restritivo: apenas 19,9% deles conseguem seguir para o Ensino Superior, de modo que os demais 80,1% não têm uma formação adequada para enfrentar o mundo do trabalho. Um outro número é assustador: o desemprego, maior chaga que uma democracia pode ter, chega a 30% entre os jovens até 24 anos enquanto a média global é de 13%, menos da metade do nosso, apesar do desaquecimento da economia mundial.

Já passou da hora de criar uma política para nossos jovens. Não podemos ficar de braços cruzados vendo-os engrossarem o desemprego, a pobreza, a violência. A única ferramenta com que contam é o instinto de sobrevivência. Se não levam dinheiro para casa, não vão ter comida e aí, “se viram”. 

Eis um ponto para reflexão que é um verdadeiro paradoxo: ao mesmo tempo que temos um desemprego brutal na nossa juventude, há uma demanda enorme por técnicos de nível médio. Entre os países membros da OCDE, 44% dos jovens que não acessam o nível superior se conectam com o mundo do trabalho via nível médio, através de Ensino Profissional e Tecnológico. No Brasil este índice está em míseros 9%!

Há uma saída evidente, que o governo brasileiro começou a encaminhar no final do ano passado, quando foi estabelecida a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), da qual faz parte a Reforma do Ensino Médio. Aí está uma oportunidade de reduzir o desemprego e criar uma perspectiva de prosperidade para a rapaziada que não vai para a Universidade. Essa oportunidade tem nome e sobrenome e se chama Ensino Técnico Profissionalizante. O diploma de nível técnico conseguido nesses cursos será um passaporte de qualificação do jovem para o mundo do trabalho. O Ensino Técnico que se quer oferecer é emancipatório, libertador, moderno, voltado para os desafios e oportunidades do século XXI.

Pesquisas realizadas pelo Itaú BBA em conjunto com a ONG Todos pela Educação dão conta que a imensa maioria dos jovens têm interesse por essa modalidade de ensino. Até porque o Ensino Superior nem sempre atende às demandas do mundo produtivo, muitas vezes prepara gente para a academia e não para o trabalho empreendedor.

Estamos formando ótimos engenheiros e arquitetos, mas faltam técnicos em hidráulica, em eletricidade, em automação e em segurança. A economia real anseia por esses profissionais que, em muitos casos, têm remuneração maior que a dos de nível superior.

Nas Ciências Agrárias estamos graduando gente da maior qualidade nas Faculdades de Engenharia Agronômica, de Medicina Veterinária, de Zootecnia, de Engenharia Florestal, de Alimentos, e estes profissionais são os responsáveis pelos espetaculares saltos de produtividade experimentados pela agropecuária nacional, a eles devemos a conquista de mercados que nos colocam hoje em situação privilegiada no mundo todo. Mas para a atividade no campo falta o técnico de nível médio, cuja formação está conectada com as realidades regionais e territoriais, de modo que podem resolver demandas não solucionadas com mudanças práticas e simples.

O BNCC abre ótimas possibilidades que alguns já estão aproveitando. O governo da Paraíba convocou há três anos as 70 maiores empresas do estado para, juntos, estabelecerem os rumos para o Ensino Técnico. Foram assim mapeadas as vocações e demandas paraibanas e identificados os cursos a serem criados, levando em conta a viabilidade econômica e a formação de professores. Hoje são dezenas de escolas oferecendo cursos técnicos.

Uma ação público/privada como essa pode mudar a realidade da juventude e, ao mesmo tempo, melhorar muito a produtividade do trabalho, com ótimos resultados para o país todo.

*EX-MINISTRO DA AGRICULTURA E COORDENADOR DO CENTRO DE AGRONEGÓCIOS DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS

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